S. Martinho

Os começos de Novembro correspondem sempre às últimas lufadas mornas do Outono, calmo e brando, que se despede de nós com os seus poentes de bronze líquido a refulgirem na vaporosidade do céu que, quase sempre, não tarda a envolver-se na poalha leitosa dos primeiros dias de Inverno.
Nas cidades, essa beleza – quase consoladora para quem medita –  passa como se não existisse, ou fosse lá possível encontrá-la no rumor e na agitação das gentes e das coisas. Mas no campo, nos montes ou nos valadios, as coisas são bem diferentes. Por cima de tudo paira um grande silêncio que, sem o sabermos, se vai tornando reparador e fecundo: deslumbram-se-nos os sentidos com a majestade dos volumes frondosos dos pinhais e dos soutos, enquanto nos envolvemos, extasiados, com as espiritualidades e mistérios que escorrem por todos os lados, a esmo. Os pomares, ainda nas sombras do estio, enchem-se de uma cor dourada, quente e adocicada, enquanto a vinha, aqui e ali rasteira, nua e exausta de frutos, veste-se de cor violácea em ritos de paixão. O castanheiro, agora arredio das disputas ao pinheiro, é a mais simbólica figura do Outono rural. Quase sempre enorme, majestoso e grave, domina a paisagem outonal da altura da sua fronde cerrada e rubra, generoso e útil porque, exactamente neste tempo de S. Martinho, não há fome nas suas redondezas. Graças à castanha, mas também ao vinho, deverá dizer-se, tão intimamente se associam na celebração, às vezes demasiadamente pagã, desta época animada e chocarreira.
Se é certo que cada um festeja o S. Martinho a seu modo, a verdade é que do ritual antigo poucos são os que se afastam porque, afinal, a questão é tão só beber e folgar. Assim é no Minho, nas Beiras e no Algarve. Outro tanto como em Trás-os-Montes. Escrevia o Abade de Baçal: ‘Durante a feitura do vinho novo, os homens percorrem de noite as ruas do povoado, cantando e tocando ao som das gaitas, tambores, ferrinhos e guitarras, enquanto as mulheres reúnem-se à volta da fogueira que acendem na rua e fiam o linho, cantando, rindo e, a espaços, tocando pandeiro e bailando’.
No dia de S. Martinho, em muito lugar transmontano se festeja o santo e cada lugar serve para seu orago. Terminadas que sejam a vespertinas e a janta, o magote asinha se faz em cortejo báquico, homens e mulheres, novos e velhos, e vão-se à guisa de procissão, de adega em adega, lagar em lagar ou de venda em venda, onde cada um escorropicha o seu copo até ao tutano, de noite e dia, até irem caindo um aqui outro acolá, esperando o que mais resiste sem tombar, para ser proclamado Juiz, honra que beberrões famosos de outros lugarejos vêm disputar, com o afã de quem disputa qualquer outra honraria mais civicamente comezinha…
O S. Martinho sempre foi assim uma espécie de orgia tolerada, consagrada à folgança popular, com cheiros a mosto e castanha a crepitar na fogueira, no lar ou no simples pote de barro.
O símbolo mais eloquente deste velho costume, que teve, aliás, mais pujança no tempo em que a castanha ainda reinava sobre o vazio da batata, que as naus de quinhentos iriam trazer, esse símbolo é, sem dúvida, a tela Festejando o S. Martinho, genialmente pintada pelo Mestre Malhoa: não haverá palavra mais facunda do que aquela posição de não posso mais, do ferreiro estatelado, de costas, sobre a quina da bancada. Os figurantes do Mestre, de Figueiró dos Vinhos, quebrados sobre a mesa da locanda, enchem os olhos, cheiram a engaço e trazem na pele a tez da castanha…
Talvez amanhã o dia estremunhe numa molinha de prata e o sol se chegue enfraquecido e tépido. Não chegará para acordar a terra, que já puxa o sobrado sobre a ribeira.
Mas não faz mal: é assim o verão de S. Martinho!

 

 

 

(bebeste de mais?, tropeças e cais)

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