curioso legado romano…

A Inglaterra, tal como muitos outros actuais países, deve algumas (poucas ou muitas) coisas aos romanos, que às Ilhas levaram, por exemplo, a primeira era de civilização organizada que ali se viveu. Nomeadamente a introdução da Escrita. Outras coisas, de maior ou menor relevo, foram merecendo a atenção dos historiadores e, especialmente, do povo que as integrava de modo mais abrangente, ou não, no seu quotidiano.
Talvez, o mais conhecido legado romano, dirá qualquer inglês, seja a famosa Muralha de Adriano, construída por volta de 130 D.C., um pouco sobre a actual fronteira com a Escócia, e assim denominada por ter sido mandada construir pelo imperador romano Públio Adriano.
Mas, deste tema ressalta uma curiosidade que é desconhecida pela esmagadora maioria dos ingleses: a um general, Júlio César, ficaram os ingleses, para sempre, a dever uma coisa bem comezinha: as urtigas. E não se pense que por malefício, já que a ideia, bem ao contrário, procurava ser u
m benefício. Pelo menos, na altura, foi para os romanos.
Júlio César plantou as sementes de urtiga que trazia, perto de cada um dos campos militares que instalava. Ele sabia, de uma primeira incursão, que os soldados das suas legiões suportavam mal os rigores do clima inglês, invernoso e violento; por isso muitos acabavam por sofrer de fortes ataques de reumatismo. César adoptou o expediente de trazer para as paradas todos os doentes daquele mal, e fazê-los fustigar com as urtigas, levemente, por todo o corpo mas especialmente nos braços e pernas. E resultava. Porque os doentes eram induzidos a esfregar vigorosamente a irritação local provocada pelas urtigas, e assim, as dores eram aliviadas por essa massagem provocada, à força, pela inflamação deixada pelas urtigas.
Os romanos deixaram a Ilha, mas as urtigas, não.

 

 

 

(o Amor é um jardim florido e o Casamento um campo de urtigas)

Burro!…

Adeus!… Adeus meu ‘Jeremias’!… Vai-te embora!…
Como um traste qualquer foste dado à penhora!
Vais tu em vez de mim… nesta hora amargurada,
tu vales uns vinténs e eu… não valho nada!
És levado, também, na força deste enxurro,
e eu fico sem saber qual de nós dois é o burro!
Bem sei que te desgosta o freio e essa albarda…
Mas isso, meu amigo, anda por aí em barda
na boca e nos costados de toda a humanidade.
A albarda, chama-se Vida… ao freio, dizem, é Liberdade!…
Deixa-me dar-te um beijo, um só, o derradeiro!
Neste beijo de pai, neste ósculo arrieiro,
vai todo o meu perdão por tudo o que fizeste,
até – ó meu amor – p’lo coice que me deste
quando eu numa fornada… – como a gente se afunda! –
estava a misturar farinha de segunda!
E essa patada só, tão simples na aparência,
não me foi dada aqui… foi, sim, na consciência!
Foi esse coice afinal, esse teu gesto irado,
que fez do teu Tibério um homem bom e honrado!
E sempre, desde então, lembrando-me de ti,
fui leal, fui honesto, fui digno e… fali!…
Vai e sê feliz por toda a eternidade!
Eu choro a viuvez… tu ficas na orfandade!

 (‘O adeus ao burro’, monólogo da opereta ‘A mulher do padeiro’, de Arnaldo Leite e Heitor de Campos Monteiro, interpretado com a mestria do grande Vasco Santana, nos anos trinta do século passado;
…embora não pareça!)