Portugal pretérito – 002 (no fim da 2ª Guerra Mundial)

senhas de racionamento ainda em uso depois da guerra

As eleições em Novembro de 1945, prometidas livres e independentes (Salazar diria em entrevista ao Diário de Notícias nessa ocasião ‘considero as próximas eleições tão livres como na livre Inglaterra. Recenseou-se quem quis e votará quem quiser’), embora se assegurasse que ‘a ordem será mantida em favor da segurança colectiva’…
A penúria continuava, mesmo depois de terminada a guerra. A única excepção era uma parte ‘especial’ de Lisboa, que tinha sido um dos mais profícuos vespeiros de espionagem e de negociatas escabrosas, à mistura de porta ou nesga de postigo para a Liberdade dos que fugiam de todos os cantos da Europa (lembram-se que, até no cinema, Ingrid Bergman, no Casablanca, iria fazer escala em Lisboa, rumo à América?...).
A fome atingia grande parte da população; o salário agrícola, em 1945, valia em média, um quinto de há vinte anos! O Instituto Nacional de Estatística escreve, cruamente, que no país, ’a refeição média se baseia em broa com umas três ou quatro sardinhas salgadas, mais ou menos batatas, duas tigelas de caldo com legumes secos e hortaliça. No Verão, mais umas azeitonas ou fruta, e umas massas de farinha de milho, quando há falta de hortaliças’.

entre as vendas, o tempo serve para catar os piolhos
(1945, mercado portuense)
famílias nos arredores de Lisboa (1944)

Por isso as eleições para a Assembleia Nacional não interessavam muito a quem lutava pelas senhas de racionamento. Nada ajudava hierarquia católica, que funcionava em sincronia perfeita com o Governo. Aqui e ali, algumas figuras da Igreja, destacaram-se na sua luta contra o miserabilismo. O padre Abel Varzim, eleito deputado no início da década de quarenta, responsável pelo jornal ‘O Trabalhador’, ‘órgão de defesa dos operários e porta-voz da Doutrina Social da Igreja’, depressa foi marginalizado e acabou (em 1947) suspenso de todas as suas funções eclesiásticas sob a acusação de ‘utilizar o melhor estilo marxista’.O Padre Américo, funda a Casa do Gaiato, mas não cai, também ele, nas boas graças do regime, que prefere a benemerência caritativa do Padre Cruz, o ‘pai dos pobres’, que viria a falecer em 1948, com atributos de santo.
Em finais de 1947, quando Daniel Barbosa toma conta da pasta da Economia e recorre ao ouro e às divisas acumuladas pelo estado com a Guerra, então, acaba-se a miséria. Passou a ser menos miserável…
Dois anos depois a esperança de uma vida melhor chamar-se-ia Norton de Matos.
Já lá vamos.

 

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