a gaiola de D. José I


É verdade que poucos desconheciam que D. Teresa de Távora era amante do rei. E, dos que sabiam, também é verdade, os que mais odiavam o facto eram todos os outros… Távoras. Daí que o atentado a D. José I (ou a encenação…), ao coberto da noite, no regresso do seu encontro com D. Teresa, serviu (ou foi feito...) na perfeição para que o Marquês derrubasse, duma só assentada, as peças cruciais que se lhe opunham no tabuleiro dos seus desusados projectos para o país.
A agressão teria ocorrido a 3 de Setembro de 1758.
O curioso é que, embora quase nunca referido, onze anos mais tarde (23 de Outubro de 1769), um manuscrito de frei Luís Gama dá conta de um outro atentado, agora em Vila Viçosa, mas com contornos um tanto bizarros. Refere o documento:
‘ (…) o regicida era de Viseu, filho bastardo de um fidalgo de apelido Serpe. A desesperação em que fez o acto, foi de desgosto pela morte de um macho que tinha e que alugava com outros, do que vivia, depois de ter dado baixa de soldado. Em Viseu prenderam-se todos os Serpes e famílias, estando em segredo muitos meses; depois foram soltos por nada se provar. Deu-se o homem por louco. Veio para Lisboa para um cárcere na Quinta das Vacas, onde ficou por muito tempo. Sua Majestade el-rei D. José I saiu ileso da pancada do pau que lhe foi jogado à Porta dos Nós (…)’.
Salta à vista que o que se refere no texto como causa do ataque, é bastante insólito. Agredir o soberano por lhe ter morrido um macho, é coisa que só poderia fazer algum sentido se o próprio rei tivesse sido o causador da morte da alimária!…
O facto é que o Marquês de Pombal, de modo a que o rei ficasse mais livre de insultos, diz o manuscrito mais à frente, ‘mandou fazer um gradeamento em volta do trono para que o soberano ficasse fora do alcance das pessoas a quem dava audiência, e ordenou que se fizessem instruções especiais sobre os indivíduos que podiam ser admitidos nas audiências públicas e sobre os Porteiros de Cana. Não podiam ser recebidos frades nacionais que não fossem prelados maiores ou seus substitutos, estrangeiros sem concessão da Secretaria de Estado, donatos, ermitães e mulheres sem autorização especial, homens de capote, redingote, casacão ou qualquer outra vestidura comprida, clérigos desconhecidos, e pessoas com espada, espadim ou faca de mato, que não fossem fidalgos ou militares (…).
Estas instruções palacianas e policiais estão datadas de 6 de Março de 1770.
O que significa que o monarca, sob as ordens do Marquês, estava enjaulado no beija-mão e andava vigiado à vista. Estes pormenores, quase desconhecidos, dão a medida exacta do medo em que vivia a corte por esse tempo, tempo também de prisões e cárceres atulhados, além dos constantes autos de fé promovidos pelo Santo Ofício que, só por si, mais ainda atiçava os ódios, injustiças e clamores de revolta.
O Marquês atribuiu-se do reconstruir Lisboa e enterrar os mortos. Mas, a verdade, é que também cuidou bem (mais eficazmente) dos vivos…

cri cri cri cri…


Na China e no Japão, as casinhas de grilos (normalmente uma caixinha de madeira ou bambu provida de rede fina e um poucochinho de areia no chão, uma ou outra pedrinha e um ou dois desses simpáticos insectos) são coisa muito popular e de grande agrado nas famílias. Os idosos, os doentes e os inválidos, com pouco esforço, podem ouvir aquele conjunto de cordas que toca todo o dia, especialmente pela manhã e pelo entardecer. Umas pequenas migalhas de pão, uma mica de alface são quanto baste para mantê-los. Dizem, mais modernamente, que um biscoitinho de cão deixará os pequenos tocadores satisfeitos durante meses.
O costume dessas casinhas de grilos também existe em Portugal (se bem que hoje rareiam os seus mais dilectos apreciadores; as crianças já não se perdem com essas antigas minudências…), e crê-se que a novidade chegou, provavelmente nos começos dos séculos XVI, vinda nas naus regressadas do rio da Pérola.
Grilinho sai, sai
À tua portinha
Q
ue andam as cobras
Na tua hortinha.
(a cantilena minhota que dava fezada à palhinha ao catar o buraquinho disfarçado na terra, nos alvores da Primavera)