O TRILHO DOS BANDIDOS parte IV


Algarvio, de Estombar, nascido em 1797, José Joaquim de Sousa Reis, ganhou a alcunha de Remechido ou Remexido (como se escrevia no século XIX), por se ter rebelado (remexido) contra a autoridade do seu tutor, com quem vivia, que se opunha ao seu casamento. Na Guerra Civil, capitão de ordenanças e com a função de recebedor do concelho, serviu D. Miguel, e lado a lado com o brigadeiro Cabreira, tomou o partido miguelista enfrentado o famoso Sá da Bandeira na batalha de Sant’Ana. Mais tarde, abriu uma segunda frente no Algarve, chefiou um grupo numeroso de guerrilheiros protagonizando várias acções violentas, por toda a região, tendo por base a serra de Monchique, onde se acoitava. O primeiro Duque da Terceira sofreu diversos reveses à mão do Remexido que, com as suas tácticas de guerrilha e apoiado pelos serranos, foi levando de vencida as tropas governamentais. Ao que parece vários crimes foram cometidos em seu nome e à sombra do temor que inspirava e se espalhava até ao Alentejo. Com a derrota de D. Miguel e o fim da guerra, em 1834, os liberais fizeram tábua rasa da Convenção de Évora Monte, queimaram-lhe a casa, em Messines, açoitaram publicamente a sua mulher com a palmatória(castigo comum, na época, dado às prostitutas), por se recusar a revelar o seu paradeiro, acabando por lhe matarem um filho que contava apenas catorze anos. O Remexido não perdoou e reactivou, com furiosas investidas, a guerrilha, desta feita transformando os seus soldados em cruéis bandoleiros. Acabaria por ser capturado e levado a Conselho de Guerra. Julgado por um Conselho pouco amistoso com a derrotada causa miguelista, foi condenado à morte. Mesmo tendo a rainha D. Maria II concedido o perdão, não viria a beneficiar dele, acabando por ser fuzilado em Faro, em Agosto de 1838, ao que parece vítima de interesses políticos.

O TRILHO DOS BANDIDOS parte III

rodagem do filme ‘Os crimes de Diogo Alves’, em 1911

Era um galego que vivia em Lisboa, nos anos agitados que se seguiram à Guerra Civil (a Guerra dos Liberais ou, na altura mais conhecida por Guerra dos Dois Irmãos). Em 1836, instigado pela sua amante Gertrudes Maria, a Parreirinha, dona de uma taberna, na Palhavã, pôs em marcha um plano tenebroso: não se soube como, mas arranjadas umas chaves falsas das mães d’água do Aqueduto das Águas Livres, escondia-se no seu interior. Dali saía para roubar e matar pessoas – o passadiço do aqueduto era a melhor maneira de atravessar o vale de Alcântara, para entrar e sair da capital. Depois atirava as vítimas de um dos pontos mais altos, cerca de uns 65 metros acima da ribeira de Alcântara (hoje a Avenida de Ceuta). Os crimes sucederam-se ao longo de três décadas. A agitação popular causada por tantas mortes foi tanta que o aqueduto foi fechado, e assim se manteve durante muito tempo. Com o encerramento do aqueduto, Diogo Alves viu-se obrigado a mudar de táctica e resolveu formar uma quadrilha para prosseguir a sua carreira criminosa, acabando por ser apanhado e, em 1840, condenado à morte, curiosamente não pelos crimes cometidos no aqueduto, os quais nem sequer constam no seu processo. Embora, segundo alguns historiadores, Digo Alves tenha matado cerca de 80 pessoas no aqueduto.
Às duas da tarde de 19 de Fevereiro de 1841, Diogo Alves era enforcado num patíbulo montado no cais do Tojo. Diz-se que este enforcamento ficou na História por ter sido o último condenado à morte em Portugal.
Não é verdade. Quando recolhi elementos para esta crónica deparei-me com uma constatação curiosa: Há quem defenda que o último condenado à morte teria sido Afonso Gonçalves, um assassino enforcado em Lagos, em 1846, cinco anos depois de Digo Alves. Por mero acaso, ao coligir apontamentos para uma crónica sobre a I Guerra Mundial, verifiquei que, na verdade, o último condenado à morte em Portugal foi em… França. Pois é: João Almeida, sargento desertor, foi condenado à morte, por um tribunal militar português, num aquartelamento das tropas portuguesas (logo, em território português), a 16 de Setembro de 1917.
Voltando ao Digo Alves: a sua cabeça foi cortada para ser objecto de estudo; ainda hoje se encontra, conservada em formol, na Faculdade de Medicina, em Lisboa.
Já se fez um filme sobre ‘os crimes de Diogo Alves’ (em 1911) e, de quando em vez, ainda morre gente no aqueduto…