O TRILHO DOS BANDIDOSparte II


João Victor da Silva Brandão
, conhecido apenas por João Brandão, nasceu a 1 de Maio de 1825, em Midões, concelho de Tábua, e viria a tornar-se uma lenda em toda a Beira. Durante a Guerra Civil fez parte dos Voluntários da Rainha, no campo liberal. Nos anos de brasa que se seguiram ao conflito, com sucessivos golpes e revoltas que opuseram cartistas a setembristas e, depois, regeneradores a históricos ou progressistas, João Brandão foi peão de brega dos políticos de diferentes facções. O seu bando armado semeou o terror nas Beiras, conforme os interesses de dirigentes do governo e da oposição, em Lisboa e dos caciques locais. Tanto atacava os últimos abencerragens do miguelismo, como fazia causa comum com eles, como na Patuleia, em 1847.
As motivações políticas passaram a dar cobertura a crimes como roubos, assaltos e mortes, ao longo dos anos em que correu a Serra da Estrela a cavalo, à frente dos seus homens armados de trabucos, clavinas e bacamartes. Quando foi acusado de matar o padre Portugal, João Brandão traçou o seu destino. O Governo mandou a tropa contra ele: em 1869 foi preso em Tábua, julgado e condenado ao degredo. No ano seguinte, o ‘terror das Beiras’ foi desterrado par Angola. Acabaria por morrer, na província do Bié, em 1880, com 55 anos.
Quem passar pelos lados de Midões talvez ainda ouça, nas romarias ou no amanho das terras, alguma voz a cantarolar:

Lá vem João Barandão,
tocando o seu violão,
casaca à moda na mão,
e então, e então, e então.
Trai, trai, olaré, trai, trai,
era a moda de meu pai.
Ó pastor, ah! ah! ah!
Lavrador, enganador,
renhinhi, renhinhó,
ah! ah! ah! oh! oh! oh!
Lá vai no seu alazão,
o ti’João Barandão,
até parece um barão,
e então, e então, e então.
Trai, trai, olaré, trai, trai,
era a moda do meu pai.
Ó pastor, ah! ah! ah!
Lavrador, enganador,
renhinhi, renhinhó,
ah! ah! ah! oh! oh! oh!

O TRILHO DOS BANDIDOSparte I


José Teixeira da Silva
, conhece? E João Victor da Silva Brandão, não? Talvez, então, Joaquim José de Sousa Reis?…

Todos eles tinham em comum o facto de terem sido famosos guerrilheiros, salteadores de estrada, ou simplesmente assassinos, em Portugal. Nos finais do século XIX, os bandidos rurais foram um fenómeno por toda a Europa, especialmente a sul. Desde a Calábria e Sicília até às montanhas do Montenegro, acabando em Espanha (especialmente na Andaluzia) e Portugal.
Aqui, e é disso que vamos tratar, também é possível traçar a rota dos bandoleiros, de norte a sul, falando um pouco sobre os mais famosos: O Zé do Telhado (José Teixeira da Silva), no Minho e em Trás-os-Montes; João Brandão (João Victor da Silva Brandão), nas Beiras; Diogo Alves, em Lisboa; e o Remexido (Joaquim José de Sousa Reis), no Algarve.
Vamos a eles!

 

Zé do Telhado
1818 – 1875

Sobrinho-neto do bandido Sodiano, que durante vários anos espalhou o medo na serra do Marão, entre Minho e Trás-os-Montes, e filho de Joaquim do Telhado, também capitão de ladrões, José Teixeira da Silva, conhecido como Zé do Telhado, trazia nos genes a vocação que lhe deu fama e proveito: bandido. Aos 14 anos deixou Castelões (Penafiel) e para Lousada aprender o ofício de castrador, com um tio que era francês. Aprendeu bem o ofício, ao que parece, e apaixonou-se pela prima. Mas quando o declarou ao tio, ele rejeitou-o por ser pobre. Não quis mais ficar por ali e abalou para Lisboa, onde assentou praça no Regimento de Lanceiros da Rainha, em 1837. Teve o baptismo de fogo ao lado do Duque de Saldanha, na Revolta dos Marechais, e depois deixou a tropa para casar com a prima. Em 1846 e 1847 participou na Revolta da Patuleia, salvou a vida do futuro Primeiro Ministro Sá da Bandeira e foi medalhado com a Torre e Espada, a mais alta condecoração militar portuguesa. Deixou novamente a tropa, regressou a casa e viu-se rapidamente na miséria e rodeado de credores. Sem trabalho e sem pão para alimentar os filhos, aderiu ao bando de salteadores de que já fazia parte o seu irmão. Tornou-se líder e, em Janeiro de 1852, assalta a casa do lavrador Maciel da Costa e, logo a seguir, o rico solar do Carrapatelo, que rendeu quarenta mil cruzados, uma grande fortuna na época. Três meses depois outro assalto, agora em Celorico de Basto. Perseguido pela tropa e pela polícia, Zé do Telhado tem atitudes de audácia incrível, chegando a aparecer publicamente, em Vila Meã, num dia de feira para fazer prove de vinho. Os assaltos continuam até 1859. Denunciado chegou a matar um dos traidores, mas acabou por ser preso quando se preparava para fugir para o Brasil. Na Cadeia da Relação, no Porto, conhece Camilo Castelo Branco (este a cumprir pena por adultério) a quem conta a sua história, que iria dar origem ao livro ‘Memória do Cárcere’. Em 1861 foi condenado ao degredo e é desterrado para Angola. Tornou-se comerciante de borracha, cera e marfim e voltou a casar. Morreu em Malange, em 1875, com 57 anos. Como roubou sempre aos mais ricos, chegaram a chamar-lhe o ‘Robin dos Bosques português’. Hoje há uma avenida com o seu nome em Castelões (Penafiel) e ruas no Marco de Canaveses e em Mouriz (Paredes).