o dia de Santa Luzia


Em 13 de Dezembro a liturgia cristã celebra o dia de Santa Luzia (de ‘lux’, luz do latim). Embora a sua devoção pareça remontar ao século V, somente em 1894, o martírio da jovem Luzia (ou Lúcia) foi registado, quando se descobriu uma inscrição grega sobre um sepulcro, em Siracusa. O epitáfio tumular, além do nome da mártir, narrava a tradição oral da morte de Luzia, no início do século IV. Essa tradição salienta a particularidade da protecção que a santa oferece às preces para obter cura nas doenças de olhos, ou mesmo cegueira. Diz a história que essa particularidade se deve ao facto de ela ter arrancado os seus próprios olhos, entregando-os ao carrasco, preferindo tal flagelo a renegar a sua fé em Cristo.

O dia de Santa Luzia é um dos dias peculiares do ano, com história e tradição secular. O saber comum diz-nos, por exemplo, que o solstício de Inverno (este ano de 2017, ocorre a 21 de Dezembro, pelas 16:28 horas) traz-nos o começo dos dias a crescer. Na verdade, o dia começa a crescer, com mais precisão, no dia de Santa Luzia. O que não é, assim, tão grande novidade: ‘Depois de Santa Luzia, cresce o dia’…
Ora, a pouco mais de quarenta quilómetros do Porto, para o interior, em Freamunde, existe uma pequena capela dedicada a Santo António que, tanto quanto se sabe, seria um antiquíssimo oratório de ermitão e que, com a constituição de uma confraria, nos começos do século XVII, ganhou notória importância na região, ao ponto do papa Urbano VIII conceder várias benesses e indulgências aos seus acólitos. Já no século passado, em 1934, é transferida para outro local, com terreiro, sem que a sua traça seja alterada e, assim, também se manteve o altar de privilégio que a pequena imagem de Santa Luzia sempre alardeou na capela, com a veneração e peregrinação de muitos e muitos fiéis. Esta devoção, a 13 de cada Dezembro, transformada em antiquíssima romaria rural, ligada pelo nome à advogada dos olhos, estaria na origem de promessas de olhos vivos (animais vivos) que, ao que se diz, parece explicar a sugestiva e singular Feira dos Capões, instituição oficial que remonta a 1719, por provimento de 3 de Outubro desse ano  do rei D. João V, realizando-se a primeira feira a 13 de Outubro desse ano. Este edital real terá tido, tão só, o fundamento de acautelar os privilégios da Confraria de Santo António, à qual pertencia, desde mui antigamente, todo o terreiro onde se realizava a já famosa Feira dos Capões – frangos dos capoeiros, capados pelos meados de Março, com um pouco mais de três meses e dois quilos de peso, amputados dos seus órgãos reprodutores de modo a que a sua carne atingisse um refinado e inigualável sabor. O seu peso, pela feira, irá variar entre os quatro e os sete quilos, sendo os de maior valia os que ostentem penas avermelhadas, enquanto os de penas pretas ou pedrês atingirão menor valor.
O costume de capar os frangos perde-se no tempo, na História e nas histórias…

Seria no tempo de Roma, em que uma lei proibia o consumo de carne de aves, com o intuito de economizar cereais em grão?; os criadores depressa descobriram que castrando os frangos, eles duplicavam de peso e diminuíam o consumo de cereais. Ou seria, como diz a lenda do cônsul Caio Cânio, que proibiu a criação de aves porque tinha insónias por causa do canto madrugador dos galos? É que, diz a estória, os criadores contornaram a lei, castrando os bichos, tornando-os mais calmos, deixando de perturbar com o seu estridente canto matinal. Para além de tudo isto há registos, em documentos datados do século XV, onde se relata esta prática. É de supor que por essa época a prática de capar os frangos se limitasse somente à região de Freamunde, onde, supostamente, se procedia, nesses tempos, sobretudo à sua comercialização. Hoje já assim não é. Segundo informações recentes, há quem se entregue à tarefa de capar à roda de quatrocentos frangos por ano…
Da ‘operação cirúrgica’, dir-se-á arriscada e complicada, e que só as mãos experientes serão capazes de um verdadeiro milagre. Se a ‘operação’ for um êxito, tudo bem. Mas se assim não for, os capões passam a ser apelidados de ‘rinchões’, o que não é de todo agradável nem para os bichos, nem para as outras aves que com eles convivem, uma vez que se tornam agressivos, e muito menos para quem os compra – por engano ou enganados.
Se a ‘cirurgia’ resultar imperfeita, o animal, como não é um galo, mas também não é um capão, vai de  se insurgir contra tudo e contra todos, tornando-se numa espécie de galinha, a cantar como um galo, infeliz e desadaptado. Outras vezes, os animais tornam-se nuns seres tristonhos, embora bonitos e vistosos, passivos, incapazes de defender-se, se bem que engordem sem necessitar de rações especiais, copiando a postura das galinhas, em cacarejos e assustadiços, chegando ao ponto de se deixar bicar por elas. Quando assim é, o seu valor comercial baixa bastante. A sua carne tem as características de outro galináceo qualquer, a deixar enganar facilmente o comprador, pois, na aparência, ninguém dirá que não se trata de um verdadeiro capão. A única maneira de descobrir se o bicho é ou não um ‘impostor’, consiste em apertá-lo por cima do bico: a certeza vem com uma valente bicada na mão de quem fez a experiência, não restando, então, qualquer dúvida sobre a sua ‘verdadeira identidade’. A bicada é o preço!
Para compensar estes deslizes e para orgulho e honra dos freamundenses, além de diversos historiadores e de cronistas famosos, nomes como D. Francisco Manuel de Melo e o próprio Gil Vicente cantaram e elogiaram o capão como uma iguaria requintada e rara, muito frequente nos repastos e banquetes reais, a pedir meças às outras aves que se apresentavam à mesa do rei, fosse o faisão, o pavão, a perdiz ou a galinhola.
Manifestação das mais típicas, populares e concorridas na região de Entre Douro e Minho, à Romaria de Santa Luzia ou Feira dos Capões, ciclicamente mantida nesta data, acorrem em apreciável número os ‘galinheiros’, que não se limitam a apresentar aos compradores somente os famosos capões, mas toda uma variedade de aves destinadas à capoeira – sobretudo à panela, que o Natal está à porta: perus, em barulhentos e enormes bandos, também eles muito requisitados, galinhas, patos, pombos, codornizes – e, de vez em quando, com um pouco de sorte, até faisões.
Os forasteiros, a pensarem na Consoada, são aos milhares, vindos de todos os pontos do país e mesmo de Espanha, particularmente da Galiza. A feira começa pela madrugada, aquecida por fogueiras, para afastar o frio de Dezembro, ali aparecendo também um pouco de tudo: gado cavalar, suíno e bovino, calçado, roupas, brinquedos, artigos de ourivesaria, alfaias agrícolas, frutos secos, loiças, bugigangas, sem que faltem as diversões e as barracas de comes e bebes. Em simultâneo, decorre uma semana de gastronomia, a terminar com um jantar onde é eleito o melhor capão confeccionado por restaurantes locais.
Resta acrescentar que a gente do Norte, em número significativo, prefere apresentar ao almoço do dia de Natal o galo recheado e assado, em vez do tradicional peru – principalmente se o galo for o afamado capão de Freamunde.
Receita que, no dizer e escrever de alguns, é assim:
Embriaga-se o capão, com um cálice de vinho do porto e passado meia hora, mata-se, depena-se, abre-se e lava-se. Depois de estar em água fria com rodelas de limão, cerca de uma hora, põe-se a escorrer e mergulha-se em ‘vinha de alhos’ (molho de vinho branco, algumas colheres de azeite, sal e pimenta, e vários dentes de alhos esmagados). Deve ficar neste molho, de véspera, e proceder-se a diversas viragens, esfregando o capão. No dia de o consumir, põe-se ao lume uma caçarola com azeite, gordura de porco e cebolas às rodelas. Quando a cebola está estalada, deita-se uma boa colher de sopa de manteiga, meio quartilho (sabia que são 2,5 dl?…) de vinho branco e sal q.b.. Escorre-se o capão, esfrega-se todo com este molho e recheia-se com ‘farófia’ e um picado feito com os ‘miúdos’ do capão e pedacinhos de salpicão e presunto. Coloca-se na assadeira, de preferência uma pingadeira de barro e leva-se ao forno a assar lentamente, picando-o com um garfo de vez em quando, ao mesmo tempo que se rega com o molho da assadeira. A operação de picar com o garfo deve ser cuidadosa para não ferir a pele que deve ficar estaladiça e loura. Depois…
… uma santa Consoada!

chamar nomes


No Porto ou em Viana do Castelo, levantaram-se algumas questões, sim, além das mais de circunstância, outras até sem círculo, circunferência ou distância. E, agora, que projecto? Acrescentada, uma outra edição? Não! Há que honrar a ‘velhice’, disse; e até aproveitei, para espevitar o apetite, para ir pondo as actualizações aqui, mas para já… em ponto morto. Sabe a origem? Não? Quem lá esteve soube, quem não soube vai saber, por estas bandas, mais coisa menos coisa…

Também, parelhamente, houve quem fosse perguntando, mas, melhor dito, adágio, será assim? Ou, provérbio, será assado? Não vale a pena fazer estrugido (refogado, como outros dizem…): é consante queiram…
Pode ser adágio, pode ser provérbio. Anexim. Ou dito. Tanto faz. Escolha.
Teófilo Braga denomina-os indiferentemente no seu ‘Adagiário Português’. Leite de Vasconcelos ou a Senhora Dona Carolina Michäelis também os nomeiam de modo indistinto. Teófilo Braga, na sua obra, acrescenta a denominação de anexim e outra coisa a que chama provérbios glosados. Outro autor diz que tem uma colecção de ditados de rifoneiro. Há que tenha ditos e, lá mais para riba do Minho, há quem diga, lindamente, que ‘este dizer é cá um ditame que nós usamos’.
Na verdade, estamos a falar de algo que, basicamente, não tem (nunca teve) qualquer pretensão erudita ou, sequer, acrescentar o que seja ao linguajar das gentes. Apenas dar uso a qualquer coisa criada ao acaso, com uma finalidade prática, juntando-lhe aqui ou ali, uns salpicos de coisa tão vária quanto o humor, a filosofia, a sabedoria, o conselho ou, mais prosaicamente, uns greiros do sal da malandrice.

Às vezes – e não são poucas… – com enunciações bem diferentes para o mesmo ‘corpo’, apenas que vestidas com as farpelas de cada lugar. Por exemplo:
cada um no seu lugar’ ou ‘cada santo no seu nicho’, em Portugal:
cada macaco no seu galho’, no Brasil;
cada caranguejo no seu buraco’, em Angola.

(Já agora, mesmo que seja ‘pregar aos peixinhos’, bom seria que ao invés de quererem plastificar a Língua com trabalho ordinário, cuidassem de preservar os dialectos locais, modo bem mais eficaz de enriquecer e vivificar a Língua…)
Daí que, voltando à treta do começo: escolham a adjectivação que quiserem. E quando quiserem. Por mim, ao cabo deste tempo, já vou por aí fora…
Adágio, aforismo, parémia, pensamento, verso, verbo, regra, máxima, exemplo, apotegma, conceito, berbão, ensinamento, gnoma, axioma, preceito, anexim, brocardo, dito, palavra, ditame, princípio, chufa, prolóquio, provérbio, parémia, regra, sentença, vesso, rifão, refrão, apodo, ditado, verbão, juízo, dizer, alegoria, divisa, antelóquio, epodo, lição, intenção, postulado, estribilho, landainice, motete e…
… lá vão 46.  

Entre um ou outro, será que nos vamos encontrar, proximamente, em S. João da Madeira? Em Lisboa? Ou na Maia?…
Até lá!

 


Apresentações:
Lisboa, dia 9 de Dezembro, 17:00 horas,
na Biblioteca do Museu da República e Resistência.
S. João da Madeira, dia 14 de Dezembro, 21:30 horas,
na Biblioteca do Município.
Maia, dia 15 de Dezembro, 19:00 horas,
na Biblioteca do Município.