‘Pimenta, o lume dos olhos de Portugal!’

 


Foi assim que Gaspar Correia, cronista português do século XVI, se referiu à especiaria que encheu os cofres do reino depois do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, em 1498. A pimenta é o fruto do arbusto Piper nigrum. Consoante as bagas dessa pimenteira são colhidas ainda verdes, antes da maturação e secas ao sol ou, mais tarde, no perfeito amadurecimento, assim se obtém a pimenta verde, a preta ou a branca. O seu maior centro produtor era o Malabar, na costa ocidental da índia, de onde era trazida para a Europa pela navegação árabe, que a descarregava nos portos do mar Vermelho. Seguia depois em caravanas até alcançar Alexandria, no Egipto. Daí era transportada para a Europa Ocidental pelos armadores e mercadores de Veneza e Génova, que detinham o monopólio desse comércio e cobravam altos preços pela especiaria, sendo por isso praticamente só consumida pela corte e pela alta burguesia.
A pimenta sempre fora muito procurada, porque a carne e o peixe conservados salgados ou fumados apodreciam facilmente, de modo que era preciso adubá-los com condimentos picantes e odoríferos para se aguentar o cheiro e o sabor. Depois da viagem de Vasco da Gama, os Portugueses passaram a dominar o comércio da pimenta e a importá-la em maior quantidade. Com isso, o seu preço baixou, tornando-se acessível às outras classes sociais. Durante longos anos, Lisboa tornou-se o grande centro europeu importador e distribuidor desta especiaria, cujo comércio era monopólio do rei. A pimenta era armazenada nas feitorias e negociada por intermédio do feitor. Na Casa da Índia, em Lisboa, onde era descarregada, pagava o direito de 18 cruzados por quintal (aproximadamente 51,5 kg, na época), chegando a representar 15% das receitas totais do Reino. A partir dos finais do século XVI, o comércio desta e de outras especiarias do Oriente passou para as mãos de ingleses e holandeses. Mais tarde, por volta de 1770, o francês Pierre Poivreconseguiu aclimatar pimenteiras na ilha Maurícia. Daí em diante, passaram a ser cultivadas em vários lugares onde o clima lhes era propício; a abertura do canal de Suez, em 1869, por fim, acabou com os monopólios da pimenta.
Se a pimenta teve uma utilização religiosa (consideravam-na purificadora porque ardia na língua, como o fogo, e os Egípcios usavam-na para embalsamar os cadáveres), medicinal (os médicos gregos recomendavam-na contra a epilepsia, os cálculos da bexiga e dos rins, para estimular o apetite e facilitar a digestão) e judiciária (na Idade Média servia de pagamento de actos de vassalagem, multas e até de dotes), foi na culinária que ela imperou, como atestam as receitas de carne, peixe e doçarias que a neta do rei D. Manuel I nos deixou no seu Livro de Cozinha da Infanta D. Maria. Hoje, se já podemos conservar os alimentos, continuamos a ser grandes consumidores de pimenta: na entrada do século XXI, importámos 500 mil quilos de várias pimentas.
Fonte de vitaminas A e C, é rica em potássio, manganês, magnésio e ferro. Se ajuda a controlar a pressão arterial e é, em si mesma, um potente antioxidante natural, rica em capsaicina que, entre variadíssimas propriedades, fortalece o sistema imunológico, acelera o metabolismo, previne o diabetes e combate a depressão.

Apimente o paladar…

Fátima

1917

Há exactamente noventa anos, no dia 13 de Maio, três crianças de um povoado de Aljustrel, começaram o dia da mesma forma costumeira: juntado o rebanho das ovelhas, abalaram para os campos próximos da Cova da Iria onde sabiam haver bom pasto para os animais.Já a manhã ia alta quando o tempo começa a fazer carrancas e ameaça uma trovoada das fortes; as crianças apressam-me a juntar o gado e começam a abalada para casa. Um raio de luz cai, suave, sobre a pequena azinheira e, do clarão, surge uma linda senhora, toda de branco vestida, que lhes sorri e acena, contam mais tarde. Diz chamar-se Senhora do Rosário, pede-lhes que voltem ali todos os dias 13 de cada mês até ao próximo Outubro que, nesse dia, lhes fará um milagre. Aquele que ficaria conhecido como o milagre do sol…
Durante cinco meses, ao dia e à hora aprazada as crianças encontravam-se com a Senhora, junto à mesma azinheira. À mais velha das crianças, a aparição falou-lhe sobre o que lhes estava a acontecer, sobre o que iria acontecer. Ao começo poucos foram os crédulos; mas, na verdade, no dia anunciado para a última vinda da Senhora, uma enorme multidão juntava-se na Cova da Iria, em redor das crianças e da azinheira…
Passados noventa anos fui a Fátima. Já lá tinha estado umas quantas vezes, apenas de passagem. Desta vez acompanhei um peregrino, olhei em volta, de volta e à volta do tempo. Trouxe o que achei, mas apenas irei deixar aqui as imagens onde vi sombras. Do resto, tudo se passa(rá) do outro lado dos olhos de cada um…
Há 90 anos, o jornal ‘O Século’ escrevia em grandes manchetes ‘Coisas espantosas. Como o sol brilhou ao meio-dia em Fátima’. Assim começou a tomar forma uma história da qual ainda hoje não cessaram as ressonâncias provocadas pelo impacto. Nesse dia 13 de Outubro de 1917, depois de cinco aparições às três crianças de Aljustrel, a Senhora prometera um milagre. A manhã estava nebulosa, cinzenta e ameaçava uma trovoada a qualquer instante. Mas, ao que consta, cerca do meio-dia, sobre a cabeça de milhares de curiosos o céu abre-se e o sol, por uns instantes, pareceu bailar…

 Não é aqui lugar para discutir a veracidade do acontecimento. A sua interacção com a situação de Portugal nesse tempo, seja no aspecto político, social ou clerical, é com toda a certeza importante na análise desapaixonada que se queira fazer sobre o assunto. No entanto, aqui, apenas pretendo tecer alguns comentários sobre três aspectos ligados ao fenómeno de Fátima: a Fé, a Igreja e o Estado.
Porque me parecem ser o substrato das respostas às mais evidentes controvérsias que emergem das peregrinações, tal qual pude assistir.


O dicionário diz-nos, na sua mais simplificada explicação que Fé é crença em determinado facto ou convicção íntima. ‘É à noite que é belo acreditar na luz’, dizia Racine. A Fé sempre foi, de facto, um sentimento mal estudado e muito controverso. Sabemos que é capaz de efeitos surpreendentes e de ajudar, de forma impensável, a suportar as agruras da existência humana. Mesmo quando Voltaire afirma ‘o interesse que tenho em acreditar numa coisa, não é prova de que essa mesma coisa exista’, o facto é que é ou não verdade que a nossa realização de seres humanos arrasta consigo um traço de Fé? Não é a Felicidade que envolve sempre um pouco de inexplicável?

O caminho pode ser errado, mas é o escolhido. E a verdade é que somos sempre levados a percorrer os caminhos que desejamos e sentimos precisos de percorrer. Mesmo que seja penoso o caminhar. Como o ferro na forja, diz-se, é no sofrimento que o espírito se sublima. Mas, mesmo no mais profundo dos sofrimentos, é a solidão que o arrasa ou será verdade que toda a dor precisa de ser contemplada para que seja plenamente sentida?
Se foste tão longe que não consegues ir mais além, então acredita que já fizeste metade do caminho que és capaz de fazer. Mesmo que, por vezes, o sofrimento ande às voltas, além e aquém das suas aflições, com todo o jeito, encostado ao peito…
É a Fé que lho diz.
Ao contrário do que por vezes se afirma, ninguém é descrente. Um ateu, por definição, apenas nega a existência de qualquer divindade. Apenas. Porque a Fé é, necessária e pragmaticamente, um conceito bastante mais lato. O Homem é, sempre o foi e será, como qualquer outro animal, um animal mágico. Daí a sua impossibilidade atávica de viver sem Fé. Um cão, que na rua vê uma folha de papel, de repente, levantar-se do chão e esvoaçar à frente do seu focinho, fica de pelo eriçado e amedrontado. O papel é a materialização do seu medo, do seu desconhecido, e a noção da sua existência cria-lhe uma reacção compatível, embora inconsciente. É a sua Fé. O mesmo se passa com o Homem. Mesmo que no mais pensado materialismo acredite não ter Fé em nada. Essa crença é a sua Fé.
A Fé Católica é o cúmulo de vários factores. Portugal, desde a sua fundação, sempre foi tido por um país católico. A Igreja sempre andou a par, primeiro com a realeza e, nos últimos decénios, com a República.
Os primeiros reis expandiram a pátria expulsando os infiéis, outros levaram pelos mares a Cruz ao lado da espada. A República serviu e serviu-se da Igreja, até às últimas bênçãos dos rapazes e das armas que foram para África…
Mas, singela e singularmente, a Fé (de) em cada um é algo de sublime e surpreendente. Tive muitas oportunidades de o ver, agora, a caminho da Cova da Iria.
Para lá da Fé
Em 1917 o país vivia uma conturbada situação política, herdada das convulsões que resultaram da passagem da monarquia para a república. A desordem, os golpes e contragolpes, surgem tanto em cada esquina como em cada cabeça. Profetizava Eça de Queiroz que ‘Portugal mergulharia numa imensa balbúrdia sanguinolenta’…

O povo vivia na miséria, sem presente nem futuro. Cultivava-se a alegria da pobreza a par da horta ou da jorna nas searas dos senhores; vestia camisa ao domingo a caminho da missa, jogava a malha no adro e fazia camisolas, ao sol, na soleira da porta, enquanto aos serões escuros rasgados de azeite fazia filhos com a bênção da paróquia. Apenas pouco mais de 1% da população tinha acesso ao Ensino, enquanto os privilegiados viviam no ócio e na intriga. Afonso Costa instala a ditadura que só acabaria nos finais de 1917 com o triunvirato de Sidónio Pais, Feliciano da Costa e Machado Santos. Mas, o primeiro destes, tido como germanófilo, sofre um tremendo abalo com a terrível sangria em La Lys, onde as tropas portuguesas são completamente esmagadas. O povo está dilacerado, por dentro e por fora. ‘A Pátria tornou-se comparável a um prédio de que secretamente se houvessem extraído os alicerces’, dizia Ramalho Ortigão. Neste cenário, era natural o anseio popular por um milagre…
A Igreja, por seu lado, tem o passo desacertado com o Tempo, com a História e com a Evolução. Mais por necessidade (leia-se sobrevivência) do que por inércia ou outra razão qualquer. O homem, outrora, ainda podia ser emparedado pelas concepções de Família, pelas ameaças de excomunhão ou tão prosaicamente pelos temores do Inferno. Hoje, o homem não procura Deus pela mão da Igreja; procura-O pelo seu próprio pé. Um conceito viciado de Deus, como a Igreja o ensina, faz dEle um beligerante cabo-de-guerra ou um juiz desapiedado que vê ‘pecado mortal’ por todos os lados e faz da vida uma corda tensa nas franjas do inferno. Uma simples falta dominical à missa é um passo gigantesco para o fosso terrível de um pecado capital. A noção de ‘pecado mortal’ está tão doente como qualquer outra noção da Teologia. A prática da Igreja rasga fossos, cada vez mais profundos, entre os seus dogmas e a realidade do seu rebanho. O celibato dos padres é a pedra de toque da mais patética falta de caridade por parte da Igreja, se atentarmos na forma como ela trata os seus ex-padres. Os casos mais recentes do aborto e do uso do preservativo, são outros exemplos eloquentes. Aos quais se juntam, de forma escandalosamente incómoda, as carências de toda a espécie, um pouco por todo o mundo, em contraponto com as imensas manifestações de riqueza material que a Igreja espalha, também, por todo o lado.
Dizia Pavese, num dos seus livros sobre a Igreja, que nos diversos palácios do Vaticano, onde a ‘História palpita’, a palavra de ordem sempre foi ‘acreditar o menos possível, sem chegar a ser herege, para obedecer o menos possível, sem chegar a ser rebelde’. Isto leva-nos a admitir que o Acaso é tão só o abanar dos cortinados de veludo, porque o resto é apenas o determinado trabalho que exige manter firme o edifício que se sustem inalterável há séculos, apesar de todas as vicissitudes que teve de enfrentar.
A Igreja foi a única instituição que, saída dos primórdios da História, cresceu e dominou na Idade Média, passeou-se pelo Renascimento, serviu-se da Revolução Francesa e da era industrial e ainda jogou às cartas com duas grandes guerras…
A 19 de Abril de 2005 tudo poderia ter um novo ciclo se o 265º sucessor de Pedro fosse, por exemplo, o arcebispo de Milão, defensor dos jovens antiglobalização, fosse Claudio Hummes, arcebispo de S. Paulo, defensor dos ‘sem terra’, ou ainda o hondurenho Maradiaga que esteva com a ‘Teologia da Libertação’. A verdade é que seria Ratzinger, líder do grupo mais conservador do colégio de cardeais, quem iria responder afirmativamente à pergunta ‘aceitas a tua eleição canónica como Sumo Pontífice?’.
Habemus Papam. E, sem alaridos ou estremeções, a Igreja prosseguiu o seu caminho… O mesmo, salvaguardando as devidas diferenças, históricas e sociais, se passou em Portugal a seguir à madrugada de Abril. O 1% de 1917 deu lugar a um Ensino falhado que, ainda agora, teve como expoente uma prova de aferição na qual os erros ortográficos são ignorados…
Sufocados por estas duas monumentais muralhas, Estado e Igreja, o povo vai reagindo como pode e como julga saber. Mas sempre, como respondeu Hércules ao enigma da Esfinge, encontra momentos em que as forças lhe faltam e o apoio se torna preciso. Aí, diz o ditado, ‘o naufrago até agarra lâmina de espada se a ela lhe chegar‘.
Fátima é um dos mais consagrados templos marianos. Isso deveria bastar para continuamente o edificar à necessidade de cada um na recolha face à sua interacção com a Criação. São apenas dois os caminhos que nos levam à Fé. A aceitação, o que nos esgota no meio do que nos cerca, na educação e no tudo ou nada que nos leva a entender daquilo que o tempo nos traz; o outro, feito da raiz e da razão do nosso raciocínio, a busca inacabável da mola que enquadre o nosso surgimento neste mundo, a especificidade da nossa realidade e o que tudo isso projecta num futuro que não se sabe, tudo o que nos possa fazer erguer do chão a altura suficiente para, do pouco, ou mesmo do nada, seja suficiente para não ficarmos agrilhoados ao vazio. E ao chão.

(in Textos, Pretextos & Contextos, Maio de 2007)