a dança (e a doença) de S. Vito

No dia 15 de Junho festeja-se o S. Vito. Ainda hoje, em muito lugar, especialmente no Minho, o povo vem para a rua bailar em honra de S. Vito. Em Aguela, nas cercanias da Serra da Amarela, o andor de S. Vito sai da capela, desce à estrada e volta ao altar. Curioso que toda a gente não percebe, ou explica atabalhoadamente, por que foi dado o nome de Vito a uma doença que se caracteriza por estremecimentos sucessivos e, também, grandes e dolorosas convulsões.
Vito nasceu no final do século III, na Sicília, filho de uma família pagã, rica e de nobre estirpe. A mãe de Vito morreu, ainda este era de tenra idade. O pai contratou uma ama e um professor para Vito. Acontece que o pai, que encarava o cristianismo como um inimigo a ser combatido, não se apercebeu que os educadores que escolheu para o filho eram cristãos. Assim, Vito foi secretamente educado dentro dos preceitos cristãos. Vito já adolescente, com treze anos, baptizado em segredo e perfeitamente identificado com os ensinamentos de Jesus Cristo, foi descoberto pelo pai que, frente a firme negação do rapaz em renunciar à sua fé, entregou-o  ao governador Valeriano, que o encarcerou e maltratou durante vários dias. Acabaria por fugir, graças à ajuda dos seus educadores e amigos, e com eles passou a viver de cidade em cidade, fugindo aos algozes perseguidores. Um dia o filho do imperador Diocleciano ficou gravemente doente. Vito acabou por ir à presença do soberano e apelando à sua fé, rezou pela cura da criança. O milagre deu-se, mas o imperador pagou com a traição e Vito foi condenado à morte, acabando por morrer, apedrejado, no dia 15 de Junho, possivelmente, de 304, com apenas quinze anos de idade.
E como aparece o mártir Vito associado à doença?
Pela primeira vez, doze séculos mais tarde. Nessa época, quem tivesse convulsões suponha-se que estava possuído pelo demónio. Os aldeões de algumas regiões da Alemanha começaram a levar os doentes frente aos andores de S. Vito, no dia da sua festa, a 15 de Junho. Os doentes, fora do seu ambiente caseiro, entre a multidão e no meio da algazarra da festa, depressa sofriam os seus ataques de convulsões, espasmos, agitações e tremuras, parecendo dançar. Criou-se a ideia de que o santo era o meio mais eficaz de os curar e, se levassem os doentes até ele, lhes daria boa saúde durante o ano inteiro e também os protegeria dos espíritos malignos e das perseguições do demónio. A superstição foi-se propagando e, em memória disso, pela Europa fora nasceu o hábito de, no dia 15 de Junho, bailar nos adros das igrejas que tivessem S. Vito no altar. Naturalmente a doença e a dança acabaram por se confundir.
Sabe-se que a origem, na Idade Média, estaria em fungos, comprovadamente alucinogénos, que cresciam junto aos campos de centeio, dos quais os pães eram feitos. Frequentemente, tais alimentos provocavam reacções incompreensíveis para o conhecimento da época. Muita gente punha-se a dançar histericamente e a autoflagelar-se freneticamente, após comerem pães contendo os referidos fungos. Muitas vezes ocorriam manifestações típicas de ergotismo com movimentos involuntários associados a sintomas digestivos.
A doença de S. Vito (ou São Guido) é, na actualidade, designada por Coreia de Swdenham ou Coreia Reumática, um distúrbio do sistema nervoso central, geralmente de início insidioso e de duração limitada, caracterizado por movimentos involuntários aleatórios, não repetitivos, que surge em decorrência de uma reacção inflamatória secundária: as infecções por estreptococos beta-hemolíticos do grupo A.
Nos dias de hoje, embora de aparecimento raro, ocorre em portadores de febre reumática, principalmente em crianças do sexo feminino, em climas temperados, desaparecendo sem deixar sequelas neurológicas após três a oito semanas do seu curso.
Mas, em honra ao santo, sempre se baila a 15 de Junho de cada ano.

tiraninho…


Fernando Pessoa (e os seus outros Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares) morre em 30 de Novembro de 1935. Tinha 47 anos quando escreveu ‘I know not what tomorrow will bring’. Aquilino Ribeiro, a propósito, diria ‘apenas nasceu o dia’.
O seu último ano de vida (1935) talvez tenha sido o mais turbulento. Escreve no Diário de Lisboa que se proclama oposto à Igreja de Roma e revela o seu interesse pelo ocultismo. Interessa-se pelas cartas astrológicas e faz horóscopos às centenas. A aproximação com a Rosa-Cruz e a Maçonaria, especialmente a última, vira-o às avessas com a Ditadura Militar que já elogiara algumas vezes. Salazar não gosta e ele, amofinado, responde-lhe com um dos seus mais verrinosos poemas…

‘António Oliveira Salazar.
T
rês nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sobe ao céu
Fica só o azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…
Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…
Bebe a verdade
E a liberdade,
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho,
Está na Guiné,
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé,
Mas ninguém sabe porquê.
Mas, enfim, é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé:
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até café.