ó minha farrapeirinha…


A Farrapeira é uma das várias danças típicas de Portugal (há o bailarico saloio, a tirana, a chula rabela, o fandango, a moda das saias, o regadinho, o vira, entre outras), todas com tipicidades tão diferentes que, por vezes, a mesma dança é diferente, nos instrumentos, na coreografia ou mesmo ambos, de concelho para concelho. A Farrapeira é bastante viva, normalmente é dançada de modo arraigado e alegre, e tem a particularidade de não ter refrão cantado, limitando-se ao instrumental que, neste caso, à guitarra, pífaro, harmónica ou gaita-de-foles, permite os improvisos de onde, por vezes, resultam excelentes e inusitadas peças musicais. Que tornam ainda mais cativante a dança, já que ela também vive, e muito!, do marcador que impõe o ritmo ao som de estribilhos brincalhões, chistosos, mordazes, mas sempre cheios de graça. Há registos que referem uma dança, em tudo semelhante, no século XIV, embora alguns historiadores reclamem que, na altura, se tratavam de quadrilhas. Provavelmente serão, por esta lógica, apropriações populares dessas danças de salão e, assim, trazidas para as ruas pelo povo que as escolheu e as adoptou. Dança-se nas Beiras, mas também um pouco pelo vale do Tejo.

Ó minha farrapeirinha
Ó minha troca farrapos
Ó meu bem, ó minha troca farrapos
Tenho a camisa nova toda cheia de buracos
larilólela, toda cheia de buracos (…)

confetes


O Manuel e a Maria casaram-se hoje. Ele de fato preto, colete cinzento, camisa branca e tramelo preto a apontar para os sapatos, apertados, de verniz; ela com vestido e rabona de tule branca, uma grinalda no penteado que a cabeleireira estacou com dez borrifadelas de laca, mais um raminho de miosótis com rosinhas de Nossa Senhora, que é para ficar no altar da Santa Justa. À saída chove arroz, do trinca que sempre é mais barato, e na mesa do repasto já lá está o bolo, que o pai da noiva fez questão que tivesse quatro andares…
Pois claro, isto é coisa lá para os idos sessenta do século passado, ou coisa que o valha. Agora a gente experimenta viver junto, coisa até que dê, sabe-se lá o quê, ou fure. Se der raia, vai cada um para seu lado, que é como quem diz, cada qual regressa para a sua mamã e para o seu papá. Pelos entretantos, partilha-se a cama, do resto cada um paga a sua, lava e passa o que é seu, enfim, trabalhos e dívidas à parte, basta o bem-bom…
Mas, toda esta conversa para perguntar: de onde raio vem o hábito de despejar arroz (que é caro, que diabo!...) em cima dos noivos?
Ao certo, ao certo não sei, mas vejamos: na Roma antiga, nas celebrações de um casamento, faziam-se uma espécie de bolo (ou pão) feito com base em trigo e cevada, chamado ‘mustaceum‘ que, durante os rituais do casamento era costume o noivo escaqueirar o paparico em cima da cabeça da noiva. Em seguida, os noivos e os reinadios convidados entretinham-se a comer as migalhas, até as apanhar todas. Pelo meio, acontecia que os convivas enchiam as mãos com migalhas (as mais reles…) que depressa faziam voar sobre os noivos.
Também se refere que, nessa época, uma das iguarias presentes nesses festejos era o pequeno ‘confetto’, uma mistura de castanhas, frutos secos e mel, que embora acabasse por ser comida, também servia de arremesso sobre os noivos, numa intenção de prosperidade e futuro doce.
Provavelmente, esses pequenos doces (de pedacinhos de pão de noiva ou docinhos de frutos e mel, tudo passaria a designar-se por confettos), acabaram substituídos, primeiro por pétalas de rosa, depois arroz, até achegar aos quadradinhos de papel colorido. Outros tempos.
Tudo isso acabou? Acha que sim?…
Não. Olhe aqui: confettos!… Bem feitos, saborosos, doces!