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COISAS DO ARCO-DA-VELHA

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COISAS DO ARCO-DA-VELHA
é o resultado de uma pesquisa orientada pelo amor à Língua Portuguesa e ânsia de conhecimento do autor que nos conduz a viagens no tempo, num retrocesso até às origens, ou possíveis origens, de cerca de 320 aforismos comummente usados neste nosso idioma.
Frases feitas que, tendo ou não sofrido transformações ao longo do seu percurso, ainda vigoram nos dias de hoje, sem que, na maior parte dos casos, nos dêmos conta de que também elas têm uma história de vida para nos contar; revelações que poderão surpreender-nos, provocar-nos sorrisos ou arrepios, tão tenebrosa é a origem de algumas. Esta é uma obra de leitura aprazível, destinada a um leque amplo de leitores; interessa ao cidadão comum, aos jovens estudantes, aos estudiosos de todas as idades e, seguramente, aos que têm a Língua Portuguesa como ferramenta de trabalho.
(nota dos Editores)

Apresentações:
Porto, dia 27 de Outubro, 18:30 horas, na Biblioteca Municipal (S. Lázaro)
Viana do Castelo, 28 de Outubro, 11:00 horas, na Biblioteca Municipal

Lisboa, em local e data a anunciar.

o jantar de D. Pedro IV

 

(…) Rebolos pela areia! Ó praia da Memória! Onde o Sr. Dom Pedro, Rei soldado,
 atracou, diz a História,no dia… não estou lembrado (…)

Assim escreveu António Nobre, no seu Lusitânia no Bairro Latino referindo-se ao desembarque de D. Pedro IV, vindo dos Açores. Ao cabo de dez dias de viagem, a 8 de Julho de 1832, o rei e mais uns 7500 soldados, desembarcam na praia da Memória. Praia de Pampelido também ou, se quisermos ser mais precisos e recorrendo a uma crónica da época ‘(…) era Domingo e o céu estava azul sem que qualquer nuvem o toldasse. O desembarque fez-se na pequena enseada que serve de porto de abrigo a uns quantos pescadores das redondezas e que, por via de episódios antigos de pirataria, dão aquele lugar o nome de Porto dos Ladrões. Nos primeiros alvores da manhã, o estandarte real, azul e branco, é içado no mastro mais alto da nau Rainha e Portugal, onde viajava o Rei. Logo os outros barcos da armada saudaram o pendão real com salvas de tiros. Pelo começo da tarde as tropas começaram a saltar para o areal e de imediato ali foi cravado um mastro com a bandeira azul e branca que as senhoras do Faial haviam bordado e oferecido a D. Pedro. Exactamente nesse mesmo local, oito anos mais tarde, seria erguido o obelisco da Memória desse acontecimento (…)’.
No dia do desembarque as tropas liberais pernoitaram por ali, nas redondezas de Perafita, em Pedras Rubras. O jornal O Panorama tempos depois, conta um episódio curioso, que porventura ocorreu nesse dia, ao entardecer. A história teria como cenário uma taberna local. E diz o jornalista, usando a descrição do próprio criado da taberna: ‘… já era quase noite quando entrou por aqui adentro um militar de barbas grandes e perguntou-me se tínhamos alguma coisa para a sua ceia. Logo lhe respondi, temos sim, patrão, temos o peixe dos três efes! E c’um raio vem a ser isso?, perguntou ele. É faneca, fresca, frita!, respondi-lhe eu a rir. O tropa olhou-me com cara de quem não percebeu nada do que lhe disse e pediu, também, que lhe fizesse uma xícara de café. Lá comeu as fanecas, bebeu o café e meteu a mão ao bolso para pagar a ceia. Parou, ficou quedo por uns instantes e, antão, desrepente, desatou a rir e me disse que acrescentasse outro efe ao peixe. Um efe de fiado, porque ele não trazia dinheiro para pagar…’.
O jornalista acrescenta que o tal soldado voltou no dia seguinte e perguntou ao rapaz se ele era da família do dono da taberna. Como o rapaz lhe tivesse respondido que não, mas que era quase, pois estava para casar com a filha do taberneiro, o soldado então disse-lhe ‘eu não levo tenção de voltar para trás, por isso aqui tens para comprares uns brincos à tua noiva’. E pousando-lhe duas peças de ouro na mão, D. Pedro IV (pois era ele o soldado desta espirituosa história), logo a seguir montou o cavalo e se colocou à frente das tropas a caminho do Porto.


(o peixe deve nadar três vezes: em água, em azeite e em vinho)