a hora científica

Há um tempo relativamente recente, a propósito da mudança da hora que habitualmente se verifica por altura dos equinócios, a Comissão Europeia promoveu um inquérito sobre o assunto. Mesmo que a população da União Europeia esteja perto dos 500 milhões de criaturas, a votação de 4,8 milhões representou uma participação recorde para uma consulta pública. Cerca de 86% dos inquiridos votaram a favor da abolição da dança das horas. Mais: destes votantes, 89% consideraram que essa dupla mudança anual é uma experiência negativa ou, até, muito negativa, apontando o impacto na saúde, o aumento de acidentes ou a falácia de poupança de energia, como factores determinantes. Apesar disso, fica tudo como dantes, quartel general em Abrantes, como diz o povo.
Por cá, o próprio Governo confirmou que não irá abolir a mudança da hora. Disse-o o senhor Primeiro Ministro. E deu a razão: a Ciência, senhores! Isso mesmo. ‘Acho que o bom e único critério é o critério da Ciência e o que foi expresso até ao momento pela entidade competente, que é o Observatório Astronómico de Lisboa, o entendimento que em Portugal devemos manter este regime de horário, com uma hora de Verão e uma hora de Inverno. Não vejo razão para que se contrarie a Ciência e se faça algo de forma discricionária’.
Não se deve contrariar a Ciência.
Concretamente, o que diz a… Ciência sobre o assunto?

Começa por nos dizer que foi Benjamim Franklim o primeiro ser pensante a congeminar o tal de Daylight Savings Time (o nome, dito oficial, para as mudanças horárias), porque essa seria a forma mais eficaz para poupar velas… em 1785.
Seria este, o primeiro argumento científico?
Apagou-se a ideia por uns 122 anos, embora só viesse a ser implementada 10 anos mais tarde, aí com o argumento de poupar recursos durante a Primeira Guerra Mundial.
Retomando a Ciência, o empreiteiro inglês William Willett, em 1907, revelou-se um ardente defensor de um horário de Verão a fim de economizar electricidade. Os seus argumentos baseavam-se na saúde precária da classe trabalhadora. Como na época muitos recrutas do Exército estavam a ser rejeitados, uma hora a mais ao ar livre, argumentava ele, melhoraria as suas condições e torná-los-ia mais aptos a defender o país. A alteração nos relógios resultaria ainda em economia de combustível e impediria toda a espécie de excessos – sob a alegação de que, se a noite chegasse mais tarde, haveria menos tempo para farras.
Mais argumentos…
Willett fez a sua campanha durante quase uma década. Por mais estranho que pareça, os seus opositores eram principalmente os que tinham interesses na agricultura, aqueles que, durante décadas seguintes, mais beneficiaram com uma hora a mais de claridade. O orvalho era um inimigo temível, e acreditava-se que tudo o que era colhido ainda húmido não só se deteriorava, como prejudicava os que colhiam o produto. Os criadores de gado leiteiro, alegavam também que as vacas iriam sofrer com isso.
Com os debates a inflamarem o Parlamento (Winston Churchill era um entusiasta da ideia), outras nações do Império Britânico adoptaram uma ou outra versão do horário. A discussão passou a Mancha e as argumentações surgiram aos molhos.
Em 1916, a Holanda aceitou o Daylight, assim como a Alemanha e a Áustria, logo seguidas pela França. Finalmente, a Inglaterra aprovou a lei nesse mesmo ano, mas houve tanta dificuldade em estruturar os serviços públicos e acertar os relógios das igrejas que a confusão se manteve muito tempo.
Nos anos que se seguiram, os países europeus escolheram diferentes dias para mudar a hora. Só em 1981 é que os relógios da Europa Ocidental acertaram pela mesma hora (excepto os da Jugoslávia).

Partindo destes e outros semelhantes estudos e argumentos, em Março de cada ano adianta-se uma hora e em Outubro atrasa-se outra. Ainda hoje, pelas nossas aldeias se pergunta se a hora é a antiga (ou velha) ou é a nova. E tudo se tem mantido assim até aos dias actuais. Mas…
Agora também passamos a ter uma hora… científica.

 

 

 

 

(em alguma hora a minha pereira dará pêras)

feriados…

Hesitei um bocado antes de decidir contar esta história. É claro que aqui não cabe e, por isso, seria desbragado escrever fosse o que fosse sobre política: não é este o terreiro para rangue-rangue dessas matérias. Mas porque se associa a um tópico que deu brado não há muito tempo, de tão apalavrado que foi, pus de lado os formigueiros, deixemo-nos de chuchadeiras… aí vai. Ora leiam!
O Alfredo, antigo motorista dos STCP, conhecido lá na rua como o Sem bolsos, por nunca trazer dinheiro, militante activista do FêCêPê e sócio, nas horas vagas, do Contra, que é como quem diz a abrangência absoluta do prazer de estar sempre a arriar a giga, seja com quem for e a qualquer pretexto, um destes dias, no café do Domingos, arranjou maneira de me engrupir um cimbalino e uma amarelinha, enquanto, a propósito do ripanço de uns catiatas feriados, se sai a dizer ‘bou passar a botar p’los reis!…

– Hã?!… O quê?… Votar em quem?!…
– Nos reis, carago! Com’é que se chama lá o partido, co’mé?…
– Ah!… O Partido Popular Monárquico, é isso?
– Isso mêmo!…
– Mas… e a que propósito vais tu…
Olhe aqui, ó!... – e rapa do bolso da samarra um livrinho velho, meio desfeito, de folhas acastanhadas – isto era uma agenda do meu abô. Bê?, ‘tá aqui escrito: 1903. – Agora ora manje-me aqui esta folheca! Mostra-ma a folha e, depois, lê:

Dias de Grande Gala em 1903
Dia 1 de Janeiro, por boas Festas, e entrada do Anno Novo.

Dia 21 de Março, Anniversario do Serenissimo Príncipe Real D. Luiz Fillipe.
Dia 29 de Abril, Outhorga da carta Constitucional.
Dia 31 de Julho, Juramento da Carta Constitucional e anniversario do sr. Infante D. Affonso.
Dia 28 de Setembro, Anniversario de Sua Magestade Fidelissima El-Rei D. Carlos, e de Sua Magestade a Rainha D. Maria Amelia de Orleans.
Dia 16 de Outubro, Anniversario de Sua Magestade a Rainha, a Senhora D. Maria Pia de Saboya.

Dias de simples gala em 1903
Dia 17 de Fevereiro, Annos de S. A. A Srª Inf. D. Antonia.
Dia 30 de Março, Domingo de Paschoa.
Dia 1 de Maio, Dia do nome de Sua Alteza o Principe Real D. Luiz Fillipe.
Dia 22 de Maio, Anniversario de casamento de Sua Magestade Fidelissima El-Rei D. Carlos.
Dia 11 de Junho, Procissão do Corpo de Deus.
Dia 19 de Junho, Festa do Santissimo Coração de Jesus.
Dia 10 de Julho, Pronome de Sua Magestade a rainha D. Maria Amelia.
Dia 8 de Setembro, nome de Sua Magestade a Rainha, a Senhora D. Maria Pia de Saboya.
Dia 4 de Novembro, Nome de S. M. El-Rei D. Carlos.
Dia 15 de Novembro, Annos do Senhor Infante D. Manuel.
Dia 1 de Dezembro, Acclamação d’El-Rei D. João IV.
Dia 8 de Dezembro, Dia da Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Reino.
Dia 25 de Dezembro, Dia de Natal.
Dia 31 de Dezembro, Ultimo dia do Anno.

Férias e dias feriados em 1903
De 1 a 6 de Jasneiro e 27 de Fevereiro, de 9 a 23 de Abril, 24 de Julho, 24 de Setembro, 19 de Outubro, de 24 a 31 de Dezembro, e todos os dias de Grande Gala. Nos tribunais é feriado todo o mez de Setembro.

Dias do anno de 1903 em que são prohibidos os espectáculos públicos
28 de Fevereiro, 11, 12 e 13 de Abril, 24 de Setembro, 19 de Outubro, 2 de Novembro, e nos dias de luto por morte do rei, rainha, ou pessoa real, patriarcha, bispo da diocese, e nos dias em que se fizerem préces publicas.

Agora é qu’o mandei p’ra canto, c’o esta! Faça as contas, faça as contas… Isto é qu’é feriados à ganância, topou, hã?!…
Topei!

 

 

 

(na política, uns são alpinistas, outros são degraus)