fazer caixinha

É verdade (triste…) que alguns portugueses apreciam imenso armar ao fino, neste caso, quando falam. Há os que se empáfiam para botar palavra, outros até mudam de tom e, mais amiúde, os que vertem na arenga umas palavritas da estranja a compor.
De tal forma que, por vezes, acabamos por esquecer algumas, muitas, palavras da nossa língua. O que é uma pobreza!
Até nos jogos de azar (que a sorte é sempre rala…), lá temos o king, o bridge, o poker e mais uns quantos.

E, pelo meio, ainda se arranja maneira de fazer… bluff.
Ora, como sabem, estebluff, quer dizer fingir que se tem bom jogo e, genericamente, por isso mesmo se usa comummente como sinónimo de fanfarronice, engano, intrujice, patranha, mentira, e por aí fora.
Um trecho de uma elegia de Camões que começa Aquele mover d’olhos excelente, diz assim, mais à frente mostrando refrear o pensamento, oh! que doce fingir! que doce cacha!
Esta cacha, que anda na língua portuguesa há quatro ou cinco séculos (encontrei andão nus da cinta para cima, e para baixo cachados com pannos de seda,  Damião de Góis, Elucidário 1821), é exactamente o bluff bretão, que por cá se introduziu há menos de um século. Percebe-se bem, nos versos de Camões, que cacha significa engano, artifício; e, como no uso em jogo, dizia-se envidar de cacha quando algum dos jogadores, como no bluff, fazia uma jogada, sem pontos suficientes para ganhar, fingindo o contrário e, assim, induzir os adversários a desistir da parada.
Há, porventura, quem creia que, isso sim!, o tal cacha vem do francês cacher, esconder, ou do inglês to catch, apanhar. Que grande calinada (sabe qual a origem? Veja no livro…)! Cacha é bem portuguesa. E velha. Pobreza franciscana!
Ora, que tem isso a ver com fazer caixinha?…
Caixinha é uma caixa pequenina que se entende por uma delicada, preciosa, valiosa caixa, um cofre, uma caixa de segredos. Onde escondemos, dissimulados alguma coisa. Assim entendemos a expressão, assim pode ser e assim será. Também pode acontecer que esta moderna maneira de a dizer seja a velha fazer cacha que tomou uma forma adulterada por se ter, em certa altura, perdido a noção do sentido antigo. Será?…

os Arcos


Era incontornável que, entre todos quantos quiseram acolher o Coisas do Arco-da-Velha, uma ou outra vez, alguém perguntasse porquê o ‘arco da velha’. E, logo a seguir… que arco e que velha?
Do porquê do arco, até ao baú da velha, bem se poderia escrever um (outro) livro!
Íris, (que, hoje, designa a parte colorida dos olhos) para os gregos, era uma mensageira (deusa menor, talvez) da palavra dos deuses para a humanidade; como que, de modo figurado, fazia a ponte – o arco – entre o Céu e a Terra. Esta concepção, adoptada por vários folclores, tomou variadíssimas roupagens ao longo do tempo. Na origem, asseguram os gregos, Íris teria sido uma falsa identidade de Hera, mulher de Zeus, que ia jogando com os interesses de deuses e homens ao sabor dos seus humores. Vestia-se com um cendal colorido e, como era muito veloz, deixava um rasto das cores do xale por todo o céu. A mesma história conta que Zeus, levado no engano e zangado com o resultado de tais erradas e confusas mensagens, tiraria Íris do céu e poria Hermes no seu lugar. Ao que parece, Hera, por cautelas e cuidados, deixou de passear o seu matizado véu…
É o Arco-Íris. ou Arco Irisado. Ou, como já li, o Arco das Sete Cores.
(se quiser lembrar-se de todas elas diga ‘vermelho, lá vai violeta’; e, assim, ‘l.a.v.a.i’ já ajuda a lembrar ‘laranja’, ‘amarelo’, ‘verde’, ‘azul’ e ‘índigo’)
Depois de Íris (ou Hera, tanto faz…), a Bíblia narra que após os 150 dias do Dilúvio, o Senhor mostrou a Noé um imenso arco de cores brilhantes que colocara no Céu e que lhe disse ‘Eis o sinal da aliança que faço entre mim e vós, e todos os seres vivos que estão convosco para todas as gerações futuras’. E disse também ‘Porei o meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra’. (Génesis 9:12.13).

Agora é o Arco do Céu ou o Arco Celeste. Arco da Aliança ou Arco de Deus.
Talvez que nenhum outro fenómeno da Natureza tenha exercido fascínio semelhante. No decurso de milénios, o Arco-Íris esteve presente na História e na Mitologia de, praticamente, todas as culturas conhecidas, nos cinco continentes. Se os artistas de todos os quadrantes da arte lhe renderam homenagem é óbvio que a religiosidade e o folclore não deixariam de o divinizar. E de que maneira!
Na Lapónia, os antigos viam na resplandecente faixa de cores o Arco do seu Deus Trovão, que utilizava esta arma para disparar as suas flechas de raios. Tribos do norte de África chamam-lhe A Noiva de Deus, os japoneses dizem que é a Ponte Flutuante do Céu. Os italianos chamam-lhe o Arco dos Relâmpagos, os ingleses dizem que é um Arco de Chuva e os franceses acham que se trata do Arco no Céu.
O aspecto científico do Arco-íris é tão fascinante como o mitológico.
‘Em 1637, o filósofo e matemático francês René Descartes foi o primeiro a usar cálculos matemáticos para determinar a razão por que este fenómeno é visível de um ângulo de 42 graus. As suas experiências levaram-no a pressupor que os arcos-íris surgem quando a luz solar penetra numa gota de água, esférica, sendo reflectida, uma vez no seu interior, e emergindo depois. Trinta e cinco anos mais tarde, o cientista britânico Sir Isaac Newton encontrou a resposta para a questão secular de como se formavam as cores do arco-íris através de duas refracções e de uma reflexão interna dos raios de luz solar, à medida que incidem sobre as gotas de chuva que estão a cair. Estas actuam como prismas, decompondo a luz branca (a luz solar) em cores variadas, cada uma delas requerendo um ângulo de reflexão ligeiramente diferente, condição essencial para a sua formação.
Um arco-íris parecerá mais amplo quando o Sol se encontra mais baixo, na linha do horizonte; assim, os mais espectaculares surgem de manhã bem cedo ou ao fim da tarde. Quanto mais alto se encontra o Sol menos amplitude terá o arco. Se o Sol ultrapassar um ângulo de 42 graus, não poderemos vê-lo; mas, se o observador estiver ‘por cima’ dele, digamos num avião, o arco-íris apresentará uma forma circular perfeita. Outro facto curioso: nunca poderá acontecer dois observadores verem exactamente o mesmo arco-íris, pois, mesmo que se encontrem o mais perto possível um do outro, eles verão sempre a luz solar sendo refractada e reflectida por diferentes grupos de gotas de chuva.
Poucas pessoas sabem que a Lua também é capaz de originar arcos-íris tão facilmente como o Sol. Isso acontece nas noites em que a lua cheia brilha rodeada de uma ligeira neblina. Os arcos-íris nocturnos possuem as mesmas cores dos que se formam durante o dia; o olho humano, porém, não consegue detectá-las devido à baixa intensidade luminosa. Um observador atento consegue ver, durante alguns instantes, estes arcos-íris tão peculiares – largas faixas de cor preta e cinza ou branca atravessando o escuro do céu.’
Arco da Bonança, Arco da Chuva ou Arco de traga-chuvas.
Existem muitos tipos de arcos-íris. Mas, sobre nós que hoje vivemos, tal como sobre os nossos mais remotos antepassados, os efeitos continuam a ser os mesmos: às vezes espanto e até medo, em geral devota admiração.
Voltando à lenda, o ‘pote de ouro’ que existiria no fim do arco-íris tem sua origem no folclore europeu. É apenas uma das muitas lendas inspiradas no fato de as extremidades do arco-íris serem inacessíveis. Uma lenda francesa afirma que existe ali uma pérola mágica, à espera de quem quer que seja suficientemente hábil para encontrá-la.
Arco da Velha – era este o nosso destino – alude à formação luminosa e colorida no céu. A expressão deriva de Arco da Lei Velha, referente à Lei judaica do Antigo Testamento, que nos remete exactamente ao arco do episódio com Noé – que já vimos – na consagração da Lei Nova, o Arco da Aliança.
E porque se fala em velha e no arco, pode-se, por extrapolação, de arco passar a arca e… uma história do arco-da-velha seria, assim, uma fábula, lenda ou fantasmagórica invencionice, tirada do ‘baú da velha’, quem sabe se… bruxa.
Já agora, a palavra ‘carochinha’, dos contos infantis, vem de ‘carocha’, regionalismo bem português que quer dizer ‘mulher velha, feiticeira’.
Como diz no livro ‘Coisas do Arco-da-Velha(1), por mim prefiro a definição dos poetas que assegura ser a fita que a Natureza põe na cabeça depois de lavar os cabelos.

(1) –  Já leu?…