ponto morto

 

No livro ‘Coisas do Arco-da-Velha‘, a minha amiga Maria José escrevia no último parágrafo do seu complacente e laudatício prefácio, ‘não deixes em ponto morto
Falou-se disso nas diversas apresentações que se fizeram. Com a promessa de que, esse ponto morto, seria a primeira expressão ou máxima, das quantas forem possíveis, a vir aqui dar continuidade às trezentas e mais algumas,  ajuntadas no livro. A acatar a promessa, vamos então ao… ponto morto.
Qual é a ideia subjacente ao dito? Quando se procura a definição, quase todas as respostas apontam para o campo da mecânica: posição dos elementos de uma máquina em que não pode haver transmissão de movimento para a produção de trabalho, paragem de actividade, posição central, ou neutra, da alavanca de velocidades, e mais outras com o mesmo sentido. Daí passa-se, por uso ou figurado costume, para unívocos como paragem, estagnação, imóvel, quieto, repouso e outros. Aparentemente, qualquer tentativa de lhe chegar às origens acabava por se enredar em respostas orbiculadas em torno da alavanca das velocidades do automóvel.
É necessário descolar, encontrar o elo comum a todos os seus semelhantes, mesmo que espevitando racionalidades e igualhas paralelas, procurando assim retroceder até à medula do postulado.
Mesmo que os ventos não tenham sido de muita feição, vamos até à alvorada do século XV…
A vida de marinhagem, na época dos Descobrimentos, era compreensivelmente arriscada por ser arrojadiça, exposta a mil apertos e aflições. Por isso, a mortandade era imensa. No meio do sem-fim do mar, as condições, adversidades ou bolandas a que os embarcadiços estavam sujeitos eram de tal monta que, mesmo para além dos naufrágios, o obituário atingia números assustadores. Nestas particulares e endiabradas conjunturas, pensemos que o Homem, nas suas atávicas caracterizações mágicas (desde as cavernas, tal como o cão eriça o pêlo quando uma folha de papel esvoaça e passa à frente do nariz, também o Homem se aturde e sobressalta com o desconhecido), enfrenta a Morte com especial – diria até varada – solenidade.

Com efeito, naqueles tempos de derrota pelos mares, quando havia que fazer as despedidas – as circunstâncias e o próprio cenário exacerbavam o misticismo – ao homem acabado de morrer, era acostumado embrulhar o corpo em pedaço de pano de vela já sem valia, antes de o lançar ao mar. Era preciso, no entanto, prevenir o acerto de que o marinheiro estava, de facto, morto (os erros na percepção da morte eram muito comuns, na época). Na cerimónia o corpo nú era depositado sobre o pano, que o envolvia e se unia sobre a frente. Aí, dos pés ao rosto as abas eram cosidas, cuidadosamente, de modo a que o corpo ficasse amparado e reverentemente envolto na sua mortalha. Com o sudário já cosido até ao rosto, já no final, a agulha, sob o olhar respeitoso, mas agora particularmente atento, fazia o seu último lanço (ponto) saindo de um lado do pano, trespassando a meio o lábio inferior do morto,  de onde, depois de uma breve pausa, rematava para o outro lado do pano(1). Estava feita, assim, a prova da morte (post mortem). O homem – confirmadamente – estava inerte, sem acção, em descanso ou repouso final. O (último) ponto (confirmou o) morto.

(1) esta prática, naturalmente desaparecida, foi usada, embora em situações muito pontuais, durante a saga da pesca do bacalhau, até aos anos sessenta do século passado.