extremos do Arco-da-Velha

A conversa à volta de aforismos, adágios ou frases feitas, também tem servido para desmontar alguns chavões que revoluteiam à sua volta. Ora de uma ou outra forma, há quem manifesta alguma jactância e, seja pela cor do burro ou pelos ouvidos das paredes, desdenhe a leiguice do povo ao criar tais bacoquices. Outros há que tomam por peixe tudo que a rede traz…
Se é verdade que o burro não muda de cor e as paredes, sim, podem ter ouvidos, também será verdade que…

A cavalo dado não se olha o dente?
É claro que a cavalo dado devem-se olhar sempre os dentes. Ele pode precisar tanto de dentista que o agradecido acabe na falência por causa da conta Lembre-se do que aconteceu com os troianos!
E, quem hesita está perdido?
Mas quem anda depressa não vê o que procura, quem não hesita cai da escada. Ou, não é? De modo bem mais eloquente, diz o Almanaque de Rosten, quando diz: aquele que hesita perde menos dedos do que o que usa a serra eléctrica apressadamente. Então…
Vulgar, tão vulgar dizer-se que dinheiro não traz felicidade.
Tanta risota trouxe defender o contrário, é verdade. Mas, além disso, todos concordamos que se não traz felicidade a algumas pessoas, traz a outras. E, em geral, traz mais felicidade do que a falta dele. Essa é que é essa.
Uma imagem vale mais do que mil palavras. Será?

Então para que é que são precisas palavras para a explicar? Melhor ainda: faça um desenho do Monólogo de Orfeu, do Vinicius, ou do poema If de Kipling…
E este: diga a verdade, doa a quem doer!
Um aforismo dos mais perversos. Será que pode realmente dizer a alguém que lhe é próximo (feio como o diabo, coitado) que é um verdadeiro pavor? Diz-se a um amigo sensível que o hálito dele é tão mau que devia ser engarrafado e enviado à Divisão de Guerra Química? Atreve-se a dizer à sua mulher, quando estão de saída para um jantar de cerimónia, que o vestido dela a faz parecer um judas em sábado de aleluia?
Na verdade, a verdade é tão preciosa (segundo afirmou Winston Churchill, referindo-se à propaganda no tempo da guerra) que tem de ser protegida por uma guarda pessoal de mentiras.
Daí que, no mar das contradições o povo também saiba que as contradições servem para dar ponderação aos extremos.

Deus ajuda quem madruga? Sim, o filho da vizinha, por madrugar, achou um saco. Mas mais madrugou quem o perdeu
Então… qual é a moral?
É que aqui os extremos não se tocam, perduram por si.

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