O dito dito lá no Terreiro do Paço


O mesmo que, não se esqueça você do que disse antes, ou não diga agora outra coisa do que disse ontem, ou ainda não diga uma coisa hoje e outra amanhã. Não troque o dito pelo não dito, em resumo.
Este é um dito porventura muito pouco conhecido nos dias de hoje; (mais) um dos que se perderam no tempo, – vá-se lá saber porquê!… – embora o conceito seja fresco, oportuno, e seja grato recordá-lo mais à sua origem pândega e, simultaneamente, elucidativa dos chistes e historietas vulgares nos primórdios do século XVIII.
Então, vamos à anedota que parece estar na génese do anexim:
No tempo do rei Magnânimo, um padre provinciano foi a Lisboa, procurando ter a benesse de lhe ser dada a outorga de uma freguesia rural, nas proximidades do Paço. Depois de andar de Herodes para Pilatos, e de esgotar todos os recursos para conseguir o que tanto almejava, deslaiado e triste dispôs-se a voltar de abalada para a sua terra. Na véspera da partida, à noite, foi passear para o Terreiro do Paço, e encontrou o rei, que costumava muitas vezes passear de noite, disfarçado, no Terreiro. O rei perguntou-lhe quem era e o que fazia em Lisboa.
O padre contou-lhe a sua história, assim como o abatimento a que havia chegado.
Porque não vai você à fala com Sua Majestade?
Já lhe falei, devo dizer-lhe. Falou El-rei para mandar-me para o Ministro… Falo ao Ministro que me manda para El-rei, e assim tenho andado, aos dias, neste afã que mais parece uma dobadoura…
Eu cá se fosse a vossemecê ainda experimentava outra vez. Por que não vai amanhã ao Paço?…
Olhe!, não vou, porque se o rei me manda outra vez para o ministro… mando-o eu pentear macacos!
O rei instou com ele para que fosse, dizendo que tinha um pressentimento que desta vez era atendido. E o abade resolveu-se a tentar novamente fortuna.
No dia seguinte apresentou-se no Paço, com o seu memorial na mão, pacientemente esperando a vez a sua audiência.
Quando o chamaram apresentou-se a El-rei, ajoelhou, beijou-lhe a mão, e entregou-lhe o memorial.
O rei olhou-o e disse:
Ah! é o bom padre que pretende a entrega de uma paróquia! Já lhe havido dito que fale com o Ministro!
O padre, reconhecendo, pelo som da voz, que era o sujeito com quem cavaqueara na véspera, fica um pouco desarrumado do toutiço, mas readquirindo com ligeireza o sangue frio, levanta-se muito depressa, abeira-se do rei e bichana-lhe ao ouvido:
Olhai real Senhor, olhai o dito dito lá no Terreiro do Paço!…
D. João V deu uma gargalhada, e o bom do pastor sempre alcançou o rebanho que desejava. Nesse dia, nesse mesmo dia.

6 comentários sobre “O dito dito lá no Terreiro do Paço

  1. Otília Martel (Menina Marota) 6 Abril, 2018 / 17:50

    Fossem assim os “El-reis” da actualidade… provavelmente teríamos uma melhor política. Isto digo eu que não percebo nada de política. eheheh

    • jorgesteves 6 Abril, 2018 / 18:47

      os reis(inhos) de agora têm menos olhos e muita barriga…
      abraço
      jorge

  2. M. 31 Março, 2018 / 11:24

    Acho graça a esta coisa das estórias que a História guarda. Com elas muda o pensamento sobre as coisas.
    Bom fim de semana. Ou assustador, depende do que ouvirmos e lermos por aí.

    • jorgesteves 6 Abril, 2018 / 15:58

      Ou do que nós virmos (que, às vezes, é o pior…)
      jorge

  3. Justine 29 Março, 2018 / 15:07

    Pois “dar o dito por não dito” é mesmo muito actual, e é praticado!!!
    (nós estivemos na praia da Memória nesse dia e deliciámo-nos nos Veleiros com um magnífico polvo no forno como nunca tinha comido. Para a próxima seguirei os teus conselhos)
    Um bom fim de semana

    • jorgesteves 29 Março, 2018 / 15:56

      Ainda bem que não comestes fanecas!…
      Fico à espera, então…
      jorge

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