o último à direita…

(na Ilha do Padeiro, frente à Ribeira da Granja, as garças descuidam-se
à brisa e ao sol, na subida da maré)

É o último afluente da margem direita do Douro. É o maior curso de água que atravessa a cidade, com os seus quase quinze quilómetros e uma bacia hidrográfica larga e profusamente abastecida. A sua nascente mais distante vem do Padrão da Légua (já nos arrabaldes, afora do burgo, na velha estrada para Viana do Castelo) e outro, ali para o Jardim da Arca d’Água, onde ainda existe um lavadouro público. Juntam-se em Ramalde, no antigo Lugar do Moinho e, assim, o túrgido leito vai desaguar no Ouro, junto ao Fluvial. Hoje, maioritariamente encanado (cerca de 80%) ainda possui pequenos trechos com sugestões de antiga beleza, como uma pequena cascata próxima ao Bairro Pinheiro Torres, embora a maioria apresente grandes sinais de poluição e abandono (o contrário seria de espantar…). Em 1758 escrevia-se assim:
Tem hum regato que comesa nos montados do Padram da légoa, freguesia de Sam Tiago de Costóyas, ele não tem nome particular, recebe aquelle que têm as terras por onde passa. Nasce com muita pouca ágoa, e pello São João athe às entradas de Agosto seca. Nele entra outro regato, aonde lhe chamão de Codiçins, e nasce no lugar do Seixo. Aonde chamão lugar do Moinho, em Ramalde do Meyo, entra outro regato que vem de Arca d’Ágoa, freguesia de Paranhos, e passa pelo lugar da Prelada, desta mesma freguesia. Corre de Norte para Sul. Tem como já se diçe o nome dos lugares por onde passa; no seu princípio chamase regato do Padram, no lugar de Ramalde do Meyo, Ryo do mesmo nome, no Lugar de Ramalde de baixo se chama como o mesmo lugar, e dahi caminha para a freguezia de Lordelo do Ouro. Entra no Ryo Douro, num lugar aonde chamão a Ponte do Ouro.” Teve, através dos tempos e dos lugares onde passa nomes diversos, tais como: Ribeira da Agra, Ribeira de Ramalde, Ribeira de Lordelo, Ribeira de Grijó, Ribeira de Penoucos, Ribeira do Ouro, Ribeira das Naus.’
Ribeira da Granja, da Agra, do Ouro, de Lordelo, das Naus, de Grijó, das Ratas, de Penoucos ou da Nossa Senhora da Ajuda, chame-a da forma que melhor lhe agradar.
Ela vai abraçar o Douro e os dois, mesmo defronte, envolvem a Ilha do Padeiro, ali a um pincho se a maré estiver de feição. Faz lembrar, a propósito, a história dos amores impossíveis do padeiro… Um dia conto.

9 comentários sobre “o último à direita…

  1. Otília Martel (Menina Marota) 5 Abril, 2018 / 23:32

    Magnifico texto para preciosa imagem.
    Não conheço o local. Os nomes referidos não me são estranhos.
    Apesar de ter nascido em Lisboa, permanecido alguns anos em África, percorrido com os meus Pais muitos Países, caí de paraquedas no Norte. Direi, no Porto. Direi, em Vila Nova de Gaia. E, finalmente, em Miramar.
    Posto isto direi que, para além de ser muito caseira, perdi a conta aos anos que não saio da minha redoma.
    Para dizer que…não conheço o local. Mas adorei a explicação.
    Um abraço

    • jorgesteves 6 Abril, 2018 / 15:54

      Ah!, mas conhece, com certeza, amiga Otília! É mesmo em frente à Afurada, que é das suas bandas: no Ouro, junto ao Clube Fluvial, onde desagua a ribeira de que falo no texto.
      Então, conhece, ou não?…
      abraço.
      jorge

      • Otília Martel (Menina Marota) 6 Abril, 2018 / 17:17

        Bem… a Afurada conheço, sim… mais como passeio ou ir petiscar…
        Do outro lado do rio, ou seja no Porto, isso já é pior, conheço, por fora, o Clube Fluvial.
        Prometo que o próximo passeio que der, especialmente de eléctrico que gosto muito, vou estar atenta ao local. 🙂
        Um abraço

  2. Justine 3 Abril, 2018 / 15:10

    E de repente aqui estou eu, estremenha entre portuenses ou seus descendentes, a gostar cada vez mais dessa cidade burguesa que nunca “deu cavaco” à aristocracia, orgulhosa e com razão, bela na sua traça intacta.
    Este meu amor pela cidade deve-se também a ti, ao que escreves e me dás a conhecer sobre ela, pois não há amor sem conhecimento.
    Mas para não ficar muito fora do grupo, recuo até aos primeiros meses da minha primeira classe(que frequentei em Matosinhos, apenas por razões ligadas à profissão do meu pai), cujo edifício de dois andares, fachada em azulejo verde e pátio para recreio ainda recordo (pelo que me disse um amigo de Matosinhos, esse edifício já não existe).
    Abraços daqui deste centro chuvoso…

    • jorgesteves 6 Abril, 2018 / 15:49

      A tua, as minhas, a de Viana do Castelo e do Porto, também não resistiram ao camartelo… Lá foram, deixando apenas as memórias, mesmo que aqui e ali tivessem sido protagonizadas ora pela cana, ora pela ‘menina dos cinco olhos’…
      Abraços, pois, molhados!
      jorge

  3. M. 31 Março, 2018 / 11:20

    Dos lugares que descreves só alguns dos nomes recordo de ouvir a minha avó paterna falar, que os meus avós eram do Porto e o meu avô veio trabalhar para Lisboa. Achei graça especial à palavra “pincho” que conheço de a ouvir, entre muitas outras, ditas pela minha avó. Memórias da minha longínqua infância, repartida entre influências nortenhas e outras mais a sul.

    • jorgesteves 1 Abril, 2018 / 10:18

      ‘pincha daqui p’ra fora!…’, dizia-me a avó, na cozinha, quando cheirava a creme.
      jorge

  4. bettips 30 Março, 2018 / 15:10

    Desconhecia… e conhecia todos os lugares de que falas! Que não se nos percam as memórias. Padrão da Légua.. meus pais viveram aí. Apesar de passar tantas vezes nessa estrada, antes e depois, só há poucos anos vi (e fotografei) a placa que diz: 5 km. “Daí a légua…” pensei comigo.
    A foto, uma maravilha, aqui tão perto.
    Abraços e recordações

    • jorgesteves 3 Abril, 2018 / 11:43

      Também lá morei, no Padrão da Légua (pois… os tais 5 quilómetros…).
      abraços, Betti
      jorge

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