pulgas & piolhos

Em tempos que já lá vão (1850) o Regulamento do Regimento da Rainha determinava que para um mancebo ser oficial de regimento bastava que fosse ‘filho de boas famílias’. Ditava ainda que não era condição saber ler e escrever, pois para isso bastavam os escrivães. Um pouco mais de cem anos depois qualquer magala que começasse as primeiras marchas na tropa, sabia que de nada valia, ao fim parada, ir queixar-se ao sargento da unidade que as botas eram demasiado apertadas e, por isso, lhe magoavam os calos. Era sabido que o sargento vociferava ‘Calos, sua besta?! Borregos tenho eu e sou sargento. Calos é para oficial!...’
A pilhéria serve (e não aperta…) de mote a um velho aforismo, ‘As pulgas são dos cães e os piolhos dos fidalgos’ que pretende encerrar a mesma sentença, ou seja, o mesmo que dizer, por ex. cada macaco no seu galho.
Diz-se que a sua origem vem desta história que muito se contava pelos botequins de Lisboa, na última década do século XIX. Vamos à história:
Chegou-se um pobre ao pé de um indivíduo que parecia asseado, e reparando-lhe para o pescoço, disse:
Dá-me licença de lhe tirar uma pulga?
O outro deu consentimento, e assim que viu a pulga, meteu a mão na algibeira e deu 5 réis ao pobre, em recompensa.
Um outro pobre, que observou o acontecido, entendeu para si que, se ele dava 5 réis a quem lhe tirava uma pulga, o que não daria a quem lhe achasse um piolho. Aproximou-se também do indivíduo, e disse:
– Dá-me o senhor, licença de lhe tirar um piolho da gola da casaca?
De facto tirou-lhe um piolho, mas o homem não lhe deu nada e até o repeliu.
– Então o senhor dá 5 réis a quem lhe tira uma pulga, e escorraça quem lhe cata um piolho?
– É verdade! Fique você sabendo que as pulgas são dos cães e os piolhos dos fidalgos!
E foi-se andando com ar de quem está bem certo da sua nobreza.
Piolhos, hã!…

assim começou o Cinema em Portugal

No dia 18 de Junho de 1896, os lisboetas puderam assistir no Real Coliseu de Lisboa da rua da Palma, entre outras atracções anunciadas em cartaz, à estreia do Animatógrafo, uma série de quadros de fotografias animadas que o projeccionista Edwin Rousby, trazido pelo empresário António Manuel dos Santos Júnior, andava a exibir nas principais cidades da Europa. Este dia ficou nos anais do espectáculo em Portugal como a data das primeiras imagens cinematográficas projectadas no nosso país. Numa das sessões apresentadas depois no Porto, encontrava-se o portuense Aurélio da Paz dos Reis. Este conhecido floricultor e fotógrafo amador ficou tão entusiasmado com o que viu que, em Agosto desse ano, partiu para França e de lá trouxe uma máquina de filmar e projectar.
A 12 de Novembro de 1896, com a primeira sessão comercial de documentários realizados por ele, começou a história do cinema português. Os filmes exibidos mostravam episódios da vida portuguesa, que ficariam como, de facto, os primeiros filmes nacionais: Cenas de Rua (a rua do Ouro, em Lisboa), Feiras (a feira do Gado na Corujeira), Folclore (o jogo do pau) e A Saída da Fábrica (saída do pessoal operário da Fábrica Confiança, este uma imitação do filme dos Lumiêre La Sortie des Usines de Lyon).
Em 1904, é inaugurado o Salão Ideal, no Loreto, em Lisboa, a primeira sala destinada exclusivamente à exibição cinematográfica com sessões regulares. O seu proprietário, Júlio Costa, contratava pessoas para falarem por trás do écran durante a exibição das películas. Era uma espécie de ‘cinema sonoro’, um êxito que, consecutivamente, enchia a sala de cinema.
O primeiro filme verdadeiramente sonoro feito em Portugal por portugueses só viria a ser realizado cm 1933 pela Tobis Portuguesa. Foi a Canção de Lisboa, interpretado por Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva, entre outros, Este filme marcou também o início de um género cómico – uma mistura do teatro de ‘vaudeville’ com a revista à portuguesa – que foi adaptado com grande êxito pelos nossos cineastas em filmes realizados na década de 40 (entre eles, O Pai Tirano, de António Lopes Ribeiro, O Pátio das Cantigas, de Francisco Ribeiro, e O Leão da Estrela, de Arthur Duarte), que ainda hoje fazem as delícias dos espectadores portugueses.