era uma vez um urso

Quando se fala em espécies cinegéticas existentes em Portugal, é vulgar a referência à passada existência do urso castanho, especialmente nos montados do Gerês onde, também se conta, ter sido ali abatido o último da espécie, por volta do fim do século dezanove.
De tão propalada, a narrativa acabou consensualmente aceite como genuína e, assim, tornou-se mais um dos muitos mitos do nosso quotidiano.
A verdade é que a fantasia do urso castanho contém, de facto, um pequeno laivo, um pormenor de realidade. Talvez até aí esteja a origem da história…
Comecemos pelo cenário. A Serra da Mourela. Conhece? Já ouviu falar dela?
Situa-se na parte mais ocidental e a norte do Parque da Peneda Gerês. Não sendo dos picos mais elevados da Reserva, a Serra da Mourela diferencia-se pelo sua cumeeira achatada, formando um extenso planalto que abocanha toda a envolvente de Tourém (uma das últimas aldeias comunitárias), até Pitões da Júnias (casa de D. Pedro Pitões, o maior atiçador de el-Rei, na demanda na conquista de Lisboa, em 1147) e, a nascente, a espraiada Albufeira de Sales.
Vale a pena subir até às enfestas do Gerês para apreciar os matizes da urze e ir adivinhando os trilados e requebros das gralhas, picanços ou uma ou outra laverca.
Por ali, nas sombras de algum carvalho, uma bétula ou uma súcia de freixos – que quase sempre escondem o rumorejo de algum fresco e cristalino ribeiro -, haverá, ou não, caminho que nos leve à gruta da moura. Pedra da Moura, melhor dito, que afiançam ser por ela, ou dela, nascido o nome da serra.
(diz-se que em tempos há muito perdidos, quando os cristãos expulsavam os mouros das terras de riba, uma mulher, com dores de parto, aquietou-se ao coberto da pedra, entre moitas e o côncavo da terra; ali lhe nasceu o filho. Não foi tão má a sorte, diz o povo que assegura ter escutado a mourisca a cantar bonitas canções de embalar).
Ora, por estas bandas, sabe-se lá em que vereda ou covelo do monte, em Dezembro de 1843, os homens do lugar fizeram caça a um corpanzudo urso que há dias danava o gado comunário largado na pastura. Este animalejo, escreve um jornal de Lisboa, talvez viesse de lugar estranho pois que as gentes, de muitas léguas em redor, nunca viram tal.
Diz a Revista Universal Lisbonense, com o título ‘Féra Estranha’:
No dia 2 de dezembro no sítio do Sapateiro, Serra da Mourella, sobre a raia da Galiza, foi morto em montaria um urso, que pela sua corpolencia, e raridade causou admiração nos povos, que affluiram a vel-o na vila de Mont’Alegre; julga-se que desceria das Asturias, porque é fera alheia a estes Paises
A notícia veio de S. Vicente da Chã, perto de Montalegre, escrita por J. Adão S. M., e foi publicada em 7 de Dezembro de 1843.
Não há notícia de surgimento de qualquer outro urso.
Este teria sido o (primeiro e o) último, sim, mas era um viajante perdido…

 

 

 

(Conta-se história para fazer dormir menino sem ceia)

 

8 comentários sobre “era uma vez um urso

  1. Bartolomeu Fernandes 16 Julho, 2018 / 09:02

    Sabia desta história desde os nossos tempos das aventuras fotográficas. Da história que como contas afinal é uma grande história. Mesmo assim fiquei a saber mais, que não sabia da moura que deu Mourela. E se lá voltássemos?
    Grande abraço, Jorge.

    • jorgesteves 16 Julho, 2018 / 15:31

      Lembras-te daquela ida aos Prados da Messe à procura do lírio (que nunca encontramos)? Há uns tempos vi umas fotografias ‘valentes’ do João Paulo. Sempre acabou por o encontrar! Do mais… podemos pensar nisso!
      Abraço, amigo!
      jorge

  2. Justine 15 Julho, 2018 / 10:46

    Amigo, o teu texto fez-me ouvir o silêncio do Gerês, fez-me viajar até tempos muito distantes, fez-me imaginar o mundo que foi sendo perdido. Até me fez pensar em acordos ortográficos…
    Qualidade, informação, formação, prazer. Que mais se pode desejar de um texto?
    Soube-me muito bem ler-te!
    (um dia destes devias escrever uma coisa meio assim-assim, para eu mudar o meu discurso!!!!!!!!!!!!!!!!!)
    Abraço

    • jorgesteves 16 Julho, 2018 / 15:27

      Quando resolveres vires a ares, ao Norte, podemos pensar em dar um saltinho até lá. Com toda a certeza irias deslumbrar-te.
      Alegro-me saber que por aqui tens uns instantes agradáveis (mesmo que, como já te disse, sejas uma exagerada). Obrigado.
      Abraço.
      jorge

  3. Olinda Melo 13 Julho, 2018 / 09:16

    Olá, Jorge
    Nunca tinha ouvido falar de tal. Mas dentro da história do urso vem uma outra de uma moura quase…encantada.
    Lindos os seus textos e linda a forma como nos conduz a esses usos, costumes e tradições.
    Não me esqueci do comentário ao seu livro “Coisas do Arco-da-Velha”. Tenho de ir ao meu e-mail ver os termos e, também, relembrar a password para entrar no “Pessanga”.
    Abraço
    Olinda

    • jorgesteves 14 Julho, 2018 / 11:59

      Duas histórias a propósito do urso, é verdade; lenda da Pedra da Moura só a soube há pouco tempo. Um dia, se puder, vá até lá, vai ver que dará o passeio por bem merecido!
      Se precisar de alguma coisa por causa do acesso ao Péssanga, diga!
      Abraço.
      jorge

  4. Maria do Carmo 12 Julho, 2018 / 09:35

    Já tinha lido sobre a morte do urso a propósito de haver mais ursos por lá. Como se costuma dizer quem conta um conto acrescenta um ponto. Agora a história ficou bem explicada. É um prazer ler os seus post. Obrigado.

    • jorgesteves 14 Julho, 2018 / 11:55

      De facto, não consta que o urso tenha habitado aquelas paragens. Isso não obsta a que outros animais (já agora, flora também), esses sim, autóctones do Parque, tenham sido extintos (por exemplo, a cabra); o próprio garrano há muito que deixou de ser selvagem…
      Abraço
      jorge

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