da tigela ao bucho

Embora não tenham significado comum, idade ou origem, a verdade é que acabaram por se interligar, diria até miscigenar. Como vamos ver…
Na Idade Média, o pessoal que cirandava nos paços da Corte, fossem criados, trabalhadores, cavaleiros, serventes ou mesmo religiosos, a todos eles eram servidas refeições que sempre respeitavam as normas e regras previstas nas ‘Receitas da Cozinha del Rei’. E aí, especificava-se, entre outras coisas, a porção certa para cada comensal, de acordo com a sua importância e, também, atendendo ao seu trabalho para a Corte. Desse modo, pelo preceituado, era habitual que a uns lhe era servida uma tigela inteira, a outros cabia apenas meia tigela.
O significado de valer pouco, ser insignificante, terá, provavelmente, esta origem e, claro, decorrente do uso depreciativo e de vulgaridade que sempre teria nas cozinhas e refeitórios da Corte.
Por outro lado, mais tarde, quando começou a exploração mineira no Brasil, nos começos do século XVII, ao escravo que não rentabilizasse o seu trabalho, o castigo era reduzir para metade a sua ração de alimento. Ele só tinha direito a meia tigela. Se isto só bastasse para ampliar a difusão da expressão, outro pormenor lhe veio dar parentesco com outra elocução igualmente comum.
O escravo que só tinha direito a meia tigela era, então, o que menos produzia, o que menos ouro, prata ou cobre (além de diamantes e esmeraldas) recolhia ao longo da sua faina. Era vulgar, especialmente nas minas de ouro, depositarem os grãos, as pepitas encontradas, em determinados buracos propositada e estrategicamente cavados nas paredes da mina. Era o enchimento, ou não, desses buracos que iria diferençar a sua ração: teria tigela inteira ou meia tigela, consoante o buraco estivesse cheio ou não.
Agora a, curiosa, miscigenação: esses buracos nas paredes das minas eram conhecidos por ‘bucho’, entendível como bojo, uma convexidade, daí um buraco; mas também traduzível por barriga ou pança. Que redundou na criação caricatural de encher o bucho (ou ficar de bucho cheio), saída da extrapolação estar bem alimentado, porque se come a tigela inteira.
Trabalhar pouco ou mal, na Corte apenas dava direito a meia tigela, enquanto que nas minas brasileiras só com tigela inteira se enchia o bucho. Ou ao contrário…
      

 

 

 

(Inda que entres na vila e soltes o teu gabão, se não trabalhares, não te darão pão)

 

6 comentários sobre “da tigela ao bucho

  1. Bartolomeu Fernandes 25 Julho, 2018 / 19:46

    Enchi o bucho, Jorge. E tu que me conheces sabes bem que não sou nenhum meia tigela!
    E gostei da fotografia que fica bem na tua excelente aula.
    Abraço

    • jorgesteves 26 Julho, 2018 / 18:56

      Ora não que não o enchesses! Sei-o bem. Olha que também eu fiquei fascinado com esta imagem, bifada à má fila dos arquivos do Museu Português. Diz lá que não foi em malgas parecidas que comeste aquela sopa de pedra, lá para os lados da Portela?… Lembras-te?
      Abraço.
      jorge

  2. Ju 25 Julho, 2018 / 16:14

    Muito interessante saber a origem desta e outras expressões!
    Grata por esta transmissão de conhecimentos!
    Abraço.

    • jorgesteves 26 Julho, 2018 / 19:00

      É agradável saber que, por estes lados, encontra algum motivo para uns instantes aprazíveis. Espero que continue a achar boa leitura, por aqui. Obrigado.
      Abraço.
      jorge

  3. tb 25 Julho, 2018 / 15:16

    Muito interessante esta explicação!
    É sempre um prazer!
    Um abraço.

    • jorgesteves 26 Julho, 2018 / 18:57

      Prazer meu, amiga. É compensador saber disso.
      Abraço.
      jorge

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