aos tombos…

O meu contacto formal com o Arquivo Nacional da Torre do Tombo foi em 1976 quando procurava documentação que me ajudasse a desenredar a urdidura que parecia envolver aquele mistério(a) que, então, me sugestionava.
Como muita boa gente, acreditava que o nome do Arquivo Nacional derivava de uma antiga torre, necessariamente muito alta, donde alguém tivesse dado, ou fosse forçado a dar, um tombo de tal ordem que tivesse ficado para a história. Ou coisa parecida…
Mas não. Se formos ler a Crónica de D. Pedro, diz-nos Fernão Lopes, lá para o Capítulo VI, sobre a maneira como os reis, até então, procediam para criar tesouros e os acrescentar de sobras a cada ano (o nosso conhecido superávite…) que eram convertidos em ouro e prata ‘para se poer no castelo de Lisboa (Paço Real e Paço da Alcáçova, no seu apogeu, finais do século XIII), em uma torre que para esto fora feita, que chamavam a torre alvarrã’. ‘Esta torre’, continua o cronista, ‘era mui forte e nom foi porém (por isso) acabada. Estava em cima da porta do castelo, ali poínham o mais do tesouro que os Reis juntavam em ouro e prata e moedas e tinham as chaves dela um guardiam de S. Francisco, e outra o Priol de S. Domingos, e a terceira um beneficiado da Sé’.
Torre alvarrã, ou albarrã parece significar torre exterior, o que pode harmonizar-se com a indicação que Fernão Lopes nos dá, quando diz estar a torre por cima da porta do castelo. Ora nessa torre albarrã, ou do Aver (Haver), – como também ele a designa noutras páginas das suas Crónicas – mandou o rei D. Fernando guardar não só o tesouro, mas ainda o arquivo geral do Reino que, antes disso parece não ter tido poiso certo e seguro, acrescenta Fernão Lopes.
Com esta nova ordem passou a torre alvarrã a chamar-se, ora do Aver, ora do Tombo, pois esta palavra significa não só trambolhão ou queda, mas também arquivo.
Lá vem o Francisco Torrinha que vai da etimologia grega ‘tómos’, ou seja, parte, pedaço, porção; daí, é fácil saltar para inventário dos bens e terras de alguém, com suas confrontações, rendas, direitos, encargos, demarcações. Também, extrapolando da origem para tomo e volume, assim acrescentando à torre a guarda e a conservação dos livros, registos, ou originais das leis, escrituras públicas, contratos, tratados e todas as outras mais importantes publicações do reino.
Torre do Tombo – expurgado o tesouro, que seguiu outros ínvios caminhos… – significa, portanto, torre do arquivo e assim se chama ainda hoje ao Arquivo Nacional, desde 2006 designado por Instituto dos Arquivos Nacionais Torre do Tombo.
Mas, voltando à História, a torre albarrã desapareceu, a porta também e quase todo o castelo, no fatídico dia 1 de Novembro de 1755. Isto é: deram uma espécie de tombo, esse sim, não vinha nada a propósito!
Felizmente que, Manuel da Maia, então guarda-mor da dita torre, era um homem cioso e digno da sua responsabilidade, conseguiu salvar praticamente todo o seu precioso arquivo que, em 1757, foi transferido para o Mosteiro de São Bento da Saúde, hoje transformado na Assembleia da República. Primeiro para uma ala do lado da Estrela e, mais tarde, em 1862, para os baixos do edifício, do lado do antigo mercado de S. Bento. Aí se manteve até 1990, altura em que seria transferido para a sua localização actual, na Cidade Universitária. 
Da albarrã não há memória. O castelo foi, sim, reerguido, mas sem honra ou glória. Desde 1755 não foi mais do que umas poucas, toscas e fracas muralhas a acobertar quartéis e cavalariças até ao empenho de António Ferro, sob a égide de Salazar – nos finais dos anos 30 do século passado -, em louvor do Estado Novo, devolver ao castelo a sua imponência de outrora.
No entanto, fosse nas caves do Palácio de S. Bento ou, agora, no seu actual espavento, continuamos a chamar-lhe torre do tombo, sem quaisquer considerações pelas novas circunstâncias ou tempos. Porquê?
Vou meter-me em assados (a que propósito vem a culinária?…), mas não resisto a concluir que, provavelmente, será pelo mesmo motivo por que os franceses continuam a remonter os seus relógios, embora já não haja quase nenhum com aqueles pesos que era preciso fazer subir de novo. Para quê inventar e decorar outra palavra se a gente (pouca, muito pouca…) se entende perfeitamente com o velho dar corda, ou o velho remonter?
Por exemplo, no caso de chumbar os dentes, podíamos falar como os dentistas empregando o verbo obturar; mas parece-nos isto falar caro e preferimos dizer o que todos dizem, falar como toda a gente, a ter carinha de nos darmos a ares de querer falar muito bem, Falar muito bem, nos usos correntes da comunicação, parece-me sempre falar bem de mais, e os bem falantes são gozados com muito mais crueldade do que aqueles que erram ao falar. É só lembrar o Eça…
Voltando ao assunto, e para armar bagunçada até podia dizer alguma coisa, certa e segura, sobre a etimologia de tombo (que é inventário, arquivo) e de tombo (que também é queda). Mas os estudiosos da matéria, é sabido, não estão de acordo a este respeito.

Adolfo Coelho propõe para étimo de tombo (inventário, arquivo) a palavra grega tomo. Cortesão e Figueiredo inclinam-se para tumula, que é latina e que (cá vai o escangalho…), até meados do século XIX, significava montículo, por serem assim os primitivos túmulos: simples montículos de terra e pedras. Ainda hoje, os arqueólogos chamam tumuli a esses montículos ‘artificiais ou monumentais, de origem pré-histórica’.
Mas a voz popular, de sabedoria bem mais prosaica, a esses e outros semelhantes, mesmo que não sejam pré-históricos, chama-lhes mamoas (‘e parte pela mamoa, que está a par da estrada’, lê-se em documento de Pendorada, Santo Tirso, de 1345, como se vê no Elucidário, de Rosa Viterbo, 1865), em comparação com os seios da mulher. Mas, por outro lado, é curioso observar que, em Trás-os-Montes às mamoas dão o nome de tombeirinhos. Ora, então, o tombo com sentido de inventário ou arquivo podia muito bem originar-se na ideia de amontoar. Ou não? A considerar a verosimilhança neste processo etimológico teríamos a palavra monte com sentido de herança. Foneticamente o tumulo deveria dar tombro como cumulu deu combro. Está a ver?…
Não, não está a ver! É que tombar, donde vem tombo, também é tomber, tumbar ou tombolare, se for em francês, espanhol ou italiano. Mas há quem queria colocar a origem em taumeln, que em alemão é tombar, mas também cambalear. Mais: e se o verbo for de origem onomatopaica (tum! tum! tumb!), pela imitação do ruído de um corpo a cair?…
Não? É que nós, por cá temos a expressão tumba!, que dá razão a essa hipótese, lembra-se?…
Olhe!, e já agora, no século passado, durante os apertos económicos, por causa das guerras, quando era preciso aproveitar o calçado gasto, sabe como se chamavam os remendos que se aplicavam? Tombas! Será que as tombas que o pagode metia nas botas e nas chancas eram parentes dos montículos?…
Olhe, a isso já não sei responder…

(a)Na caixa, à direita, em ‘procurar por palavra’ escreva crime com 700 anos.

 

 

 

(Parentes? Só os dentes.)

 

10 comentários sobre “aos tombos…

    • jorgesteves 20 Agosto, 2018 / 10:26

      Cá a espero, amiga!
      Abraço.
      jorge

  1. Olinda Melo 18 Agosto, 2018 / 10:22

    Amigo Jorge
    Juro que fiz um comentário, há dias, sobre este interessante tema.
    Será que não cheguei a publicá-lo?
    Voltarei.
    Abraço
    Olinda

    • jorgesteves 20 Agosto, 2018 / 10:25

      Provavelmente, no último instante, tocou a tecla errada! Acontece.
      Mas tem a vantagem a de a trazer de volta. Que é sempre agradável, amiga Olinda.
      Abraço.
      jorge

  2. Sofia Antunes 10 Agosto, 2018 / 11:40

    Também acreditava que deveria haver um tombo qualquer. Enganei.me. Gostei da explicação e gostei muito daquele mistério com 700 anos. Que grande mistério!
    E que bem se aprende aqui.
    Bjo.

    • jorgesteves 14 Agosto, 2018 / 11:43

      Disse bem, ‘um grande mistério’! Ainda hoje o é!…
      Obrigado pelas suas visitas.
      Abraço.
      jorge

  3. Mário Ventura 5 Agosto, 2018 / 21:18

    A leitura ia bem, mas acabei embrulhado no fim. E mais fiquei com a sentença de que só os dentes são parentes. Com crédito. Boa.
    Um abraço,

    • jorgesteves 14 Agosto, 2018 / 11:42

      É bem verdade, amigo. Pelo menos para mim.
      Abraço.

  4. Bartolomeu Fernandes 5 Agosto, 2018 / 10:07

    E pá, quantos anos! Lembro-me muito bem que foi essa tua história de Odivelas que nos levou a conhecer o velho Fraga que tanto nos deu na fotografia.
    Não estava à espera dessa, meu caro! A Torre do Tombo ser o BES daquele tempo!
    Grande abraço,

    • jorgesteves 14 Agosto, 2018 / 11:41

      O nosso velho amigo (e professor…) Fraga! Quantos anos? É Melhor nem fazer contas…
      Essa do BES teve piada!…
      Abraço.
      jorge

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