estás a fazer fosquinhas

É claro que toda a gente sabe o significado e a origem da expressão ‘fazer macacadas’; tão antiga quanto, provavelmente, o nosso contacto com macacos. Também de ‘fazer pantominices’, lhe sabemos a origem: do grego pantomimos, é o acto, ou a arte, de se expressar por gestos, normalmente executados de modo lento e propositadamente exagerado. Daí, outrossim, a associação com ‘fazer palhaçadas’. De pantominices (que origina pantominice e pantomineiro), também se chega a ‘fazer momices’; da raiz momo – do latim momu, representação mímica, actor da farsa, de trecho satírico ou de escárnio – em tudo semelhante.
Momices ou pantominices, macacadas ou palhaçadas, tudo estaria bem, se fazer trejeitos, caretas, esgares, gaifonas, cabriolas ou saracoteios ficassem por aqui.
Mas, e… fazer fosquinhas (ou fosquices)?
Se tem a mesma igualha ou servência e aplicação… qual é a origem?
É preciso recuar até meados do século XV para lhe achar a fonte. Que, no caso português, começa através da procissão do Corpo de Deus.
(a festa de Corpus Christi – sessenta dias depois da Páscoa, na quinta-feira seguinte ao Domingo de Pentecostes – foi instituída pelo papa Urbano IV, no ano de 1264. Não teve grande impacto no interior da Igreja. Porém, pouco tempo depois da criação da festa o papa morre e, aos poucos, a festa foi ganhando repercussão e depressa se espalhou, em força, por todo o mundo. Ordenada em Portugal desde D. Dinis, se bem que hajam referências a ela ao tempo de D. Afonso III. Associam-se à festa litúrgica, mas também a várias tradições laicas, como é o caso de Penafiel, com os seus ferreiros, pedreiros e floreiras e, essencialmente, no Minho, no caso Ponte de Lima e Monção).
Diferentes elementos míticos se encontram nos emblemas e símbolos hieráticos da procissão do Corpo de Deus. Encontramos, entre eles, os cavalinhos fuscos, ordenados no Regimento de 1482: ‘Os trapeiros, que são os mercadores de pano de linho, e os mercieiros todos com suas tochas accesas e caslellos de estanho: e levarão sua bandeira e atabaque, e dois cavallinhos fuscos.’ (Annaes das Sc. e das Lettras). No Regimento da Câmara de Coimbra para a Procissão de Corpo de Deus, de 1517, ‘os cordoeiros, albardeiros, odreiros e tintureiros levam quatro cavallinhos fuscos bem feitos e bem pintados.’ E no Regimento da Câmara do Porto para a mesma procissão, esta em 1621, ‘os celeiros, esteireiros e correeiros irão com os cavallinhos e o Anjo ornado no meio’ (Pedro Ribeiro, Diss. Chro.). O emblema dos cavalinhos fuscos não pertencia a uma classe especial. D. Francisco Manuel de Mello refere-se a este costume, que acabaria por se tornar divertimento popular: ‘Sempre está no cavallinho da alegria, mas vigie-se dos cavallinhos fuscos… Onde enterra o senhor os que mata? Entre as unhas em valle de cavalinhos.’ (Feira dos Anexins).
A origem está na apropriação, ao tempo, de partes e figuras das superstições, lendas e costumes da França, Bretanha e Germânia, especialmente esta última de onde nos chegaram os celtas. Deles vieram referências a histórias Getas e Scithas que popularizaram a adivinhação e o prognóstico tirado do relinchar dos cavalos. Era hábito nas tribos, depois em aldeias em cidades, em bosques e florestas próximas, o povo sustentar cavalos brancos, consagrados ao Sol, livres de todo o trabalho profano. De longe, ‘na hora final do crepúsculo, ministros, chefes ou o rei, seguiam-nos pelo solo sagrado, para observar os seus rinchos’.
A essa hora tão dilúcula, a silhueta dos cavalos seria, naturalmente, turva, difusa, turva e fosca. Ou fusca.
Em Lisboa o rei vai oficialmente na procissão de Corpus Christi. Gil Vicente, no Auto das Fadas, cita o valle de cavallinhos, como um lugar magico ‘Cavalgo no meu cabrão – e vou a valle de Cavallinhos…’ Na lenda histórica, S. Jorge aparece nas batalhas montado num cavalo branco (ainda hoje assim é obrigatório, nas procissões ou cortejos), no qual também há-de vir D. Sebastião da Ilha encantada.
O linguista e historiador francês Edelestand du Méril explica que a origem de existir na linguagem popular a expressão fazer fosquinhas responde à imagem lendária e tradicional de ver o cavalo dar saltos e fazer trejeitos, ao referir a ‘imitação do cavalo com as suas diferentes posições, vivacidades, saracoteios e requebros’.
No Hyssope de D. Diniz, já há a referencia a um divertimento vulgar:
E por dar mais prazer aos convidados,
De cavallinhos fuscos, depois d’elle
Na vaga sala, com soberba pompa
O galante espectaculo prepara.
Fosquinhas, está visto!

 

 

 

(cavallo alazaõ muitos o querem e poucos o haõ.)

 

14 comentários sobre “estás a fazer fosquinhas

  1. Afrodite 6 Setembro, 2018 / 23:49

    Conheço os termos, já os usei com toda a certeza… mas estava longe de imaginar a sua origem.
    Ficou-me porém uma dúvida: se “a origem de existir na linguagem popular a expressão fazer fosquinhas responde à imagem lendária e tradicional de ver o cavalo dar saltos e fazer trejeitos”, poder-se-á então dizer que os cavalos que vemos nas praças de touros a fazer as lides tauromáquicas, naqueles movimentos graciosos que fazem as delícias de quem aprecia esse tipo de espectáculo, estão a fazer fosquinhas ou fosquices? :)))
    Beijinhos sem pantominices
    (^^)

    • jorgesteves 10 Setembro, 2018 / 14:43

      Muito lógica, pertinente e interessante a sua pergunta. Dir-se-ia que sim. Mas a verdade é que os cavalos, nessa circunstância, não se movimentam ao seu saber, jeito, prazer e vontade, mas antes ao ditame de quem o comanda com a rédea ou com as esporas. Daí que os movimentos executados pelo animal não são, de todo, as fosquinhas que as lendas, usos ou as tradições referem. Serão mais o resultado de pantominices humanas, diria eu…
      Agradado pela visita, amiga. Volte sempre.
      Abraço
      jorge

  2. Justine 3 Setembro, 2018 / 16:58

    Uma completíssima lição de etnografia, com aproximações à linguística, è religião e à história. Quem precisa de compêndios?
    Um abraço, amigo

    • jorgesteves 9 Setembro, 2018 / 11:22

      Exageros, exageros!…
      Quanto aos compêndios, não só continuam a ser precisos, como são sempre estimados e acarinhados; é ou não é?
      abraço, amiga Justine.
      jorge

  3. Ju 31 Agosto, 2018 / 16:46

    Sem dúvida que quem procura conhecimento, principalmente na origem das palavras, deveria ser assíduo leitor deste blog!
    Que dá trabalho, dá! É uma página aberta no blog e outra no dicionário. Mas também dá prazer . Não uso , ou melhor, acho que nunca usei a palavra “fosquinhas”, embora a conheça. Uso sim outras, como seja, pantominices e macacadas.
    Como sempre, um artigo muito interessante.
    Um abraço
    Ju

    • jorgesteves 3 Setembro, 2018 / 09:52

      Curiosamente na região litoral do Minho, de Viana do Castelo para norte, usa-se mais o termo ‘fosquices’. O facto de usar mais ‘pantominices’ ou ‘macacadas’ será, porventura, derivado do uso na sua regiaõ. Será?
      Obrigado pelas suas palavras, Ju.
      Abraço,
      jorge

  4. Anabela Leitão 28 Agosto, 2018 / 15:07

    Também se pode dizer trampolinice? Acho que sim, mas fiquei na dúvida.
    Obrigado pelas seus artigos tão interessantes, Jorge.
    beijo.
    Anabela

    • jorgesteves 3 Setembro, 2018 / 09:49

      Creio que não, Anabela: trampolinice é sinónimo de aldrabice, o que, claro, não é a mesma coisa. Grato, amiga.
      jorge

  5. Fernando Andrade 28 Agosto, 2018 / 09:19

    Muito bem, não conhecia as fosquices. Há muito tempo que não via e ouvia referências a pantomineiro que era uma palavra muito usada antigamente. Continuo a seguir esta página religiosamente amigo Jorge.Um abraço.
    Fernando Andrade

    • jorgesteves 3 Setembro, 2018 / 09:47

      Com o tempo, pantomineiro, ganhou uma certa ingenuidade face aos atributos dos actuais mestres da trafulhice, não acha? Obrigado pela sua visita, amigo Fernando.
      Abraço,
      jorge

  6. tb 26 Agosto, 2018 / 17:13

    Sempre um interessante encantamento do saber!
    Muita grata pela partilha.
    Um abraço.

    • jorgesteves 3 Setembro, 2018 / 09:44

      Sempre encantado cos as suas palavras, amiga.
      Abraço,
      jorge

  7. laerte 25 Agosto, 2018 / 20:34

    Gostei imensamente da elucidação de origens de palavras! Gostei da citação de Dom Dinis, o Rei Trovador. Sou escritor e arrisco-me em produzir poemas narrativos em décimas do Cancioneiro Ibero-português criada pelo Rei Trovador no séc. XII reavivada por Camões no séc. XVI e restabelecida (a forma literária de compor) pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em nossos dias. E viva Dom Dinis! Parabéns pela postagem e gratidão pela partilha! Grande abraço. Laerte Tavares.

    • jorgesteves 3 Setembro, 2018 / 09:43

      O meu agradecimento pelas suas palavras. E, claro, o êxito completo para os seus poemas narrativos.
      Abraço,
      jorge

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