traje à vianesa

As romarias, Verão adentro, multiplicam-se pelas terras minhotas. Por entre todas, muitas e diversas, belezas e tradições, as roupagens que a mulher minhota usa nas mais variadas situações do seu quotidiano, destacam-se pela policromia e encanto. Mas…
Criou-se a ideia, por demais vulgarizada, que qualquer moçoila com trajos garridos – saias com silvas bizantinas a escorrer da cintura, aventais fora de tom, lenços atados de qualquer modo – é coisa, mesmo como caricatura, para merecer a legenda (transviada!…) de vestida à moda do Minho!…
Se, na maioria, o desconchavo das roupagens justifica reparos, o que importa aqui abordar é, por outro lado, a persistência no uso e abuso da designação… à moda do Minho. Será que alguém sabe o que é isso?!…
Pedro Homem de Mello e Cláudio Basto, este último na sua excelente monografia sobre o Traje à Vianesa, escreveram e falaram sobre a errada vulgarização desse termo. O traje à vianesa, à moda de Viana ou, ainda, à lavradeira (isto porque, de um modo geral, só as lavradeiras, filhas de lavradores, tinham posses para os possuir), o legítimo e inconfundível e, por certo, o mais rico do património folclórico nacional, é somente usado em nove das trinta e seis freguesias do concelho de Viana do Castelo. É verdade, claro, que aparecem noutras localidades minhotas, trajes com poucas ou muitas afinidades mas, flagrantemente diferentes e, em alguns casos até híbridos, dos trajes tradicionais, antigos e religiosamente talhados, que as raparigas das nove localidades vianenses enverga(va)m em dias de religiosidade ou romaria.
Confinado esse costume rigoroso apenas às aldeias litorais da Areosa, Carreço e Afife, ou limianas (do rio Lima) da Meadela, Santa Marta de Portuzelo, Pêrre, Outeiro, Serreleis e Cardielos, é curioso reparar nas diferenças essenciais que, embora em sentido restrito, classificam o traje à vianesa em tipificações distintas, delas derivando os outros. Vejamos.
O fato da Areosa, muito vivo de cores, com predomínio do vermelho (até a barra da saia é toda vermelha), também se distingue pela singeleza no lavor do avental, um tudo-nada semelhante a um tapete de vistosos ladrilhos em vários tons. O fato de Afife, esse ainda mais singelo, mas não menos interessante, ostenta barra (ou forro) da saia em tons de azul-marinho, avental simplesmente vermelho com listas pretas e lenço da cabeça em amarelo vivo. O fato de Santa Marta, de todos o mais complicado e rico, seja ele o traje azul ou o traje vermelho, tem avental em flores e folhas de cores diversas, lenço da cabeça e do peito no mesmo tipo (de fundo azul ou vermelho, conforme o fato), coletinho intensamente bordado, barra da saia em preto, com ou sem silva. O traje de Carreço aproxima-se bastante deste último, como acontece com os demais trajes usados nas freguesias que atrás se referem. Mas, um novo e interessante pormenor: muitas, muitas vezes, raparigas de Santa Marta de Portuzelo e de Carreço, vestem fatos semelhantes, havendo, no entanto, uma pequena divergência de pormenor, que basta para as identificar. É que enquanto as lavradeiras de Santa Marta ajustam, com mil cuidados, a fímbria da saia à orla inferior do colete, as de Carreço usam distanciar as duas peças do vestuário, separando-as a alvura de um refego da camisa de linho…
Se bem que a distância, ao longo da beira-mar, entre Areosa e Afife, seja relativamente curta, nunca se vê uma lavradeira de qualquer desses lugares vestir o traje característico da outra freguesia. Do mesmo modo, também não obstante a proximidade, em nenhuma aldeia da margem esquerda do rio Lima, fronteiras ou próximas de Santa Marta de Portuzelo, como Vila Franca ou Mazarefes, se usa o traje típico daquela freguesia. Daí, também, em terras de Geraz do Lima, mesmo que o fato pareça de desenho idêntico ao de Santa Marta, lá prevalece o verde esmeralda a compor a diferença. Este escrúpulo e rigor estende-se a uma infinidade de pormenores que se interligam e estreitam com uma profunda diversidade de usos e costumes que, há séculos, emergem nas ribeiras(1) do Lima.
Não há, por isso, um traje à moda do Minho. Há, sim, um traje à vianesa. O traje álacre das lavradeiras de Viana ou o negro dourado das mordomas. Diferentes nos desenhos, no vestir, na cor, na tradição, na simbologia, diversos até nos ditames do uso. O que os une é Viana.
(1) por todo o Minho é uso chamar-se ‘ribeira’ ao terreno plano que, em muitos lugares, se acha nas margens (riba) do rio.

(trajes vianeses: fotografia, traje à vianesa; integradas no texto: à esquerda, mordoma de Cardielos; à direita, lavradeira de Santa Marta de Portuzelo.
Aguarelas de Alfredo Morais, 1930)

 

 

 

(veste-te do teu pano e chama-lhe teu)

 

10 comentários sobre “traje à vianesa

  1. Olinda Melo 10 Setembro, 2018 / 11:43

    Caro Jorge
    Estou maravilhada! Penso que não há ninguém que não fique preso à riqueza de pormenores, e não só, desses trajes. Ao lermos este texto ficamos então presos a essa riqueza de detalhes quanto às regiões e origem dos trajes onde cada um é (era) usado, não havendo nenhum igual a outro.
    E mais ainda, vem assinalar com rigor que não se trata de …à moda do Minho mas sim, “Traje à vianesa” . Muito boa gente com obrigações comunicacionais, a nível nacional, deveria ler este seu texto e curvar-se com reverência.
    Abraço
    Olinda

    • jorgesteves 12 Setembro, 2018 / 19:18

      Obrigado, amiga Olinda, pelas suas palavras; peque, embora, por algum exagero.
      É sempre um prazer a sua visita.
      Abraço,
      jorge

  2. Ju 7 Setembro, 2018 / 16:37

    Tal como a minha amiga Deusa Afrodite, sempre me fascinaram os trajes de Viana. Na minha infância e sempre que se realizava uma festa na escola, lá ia eu vestida à minhota, com um traje alugado algures em Braga.
    Não são apenas os trajes que me encantam, mas também aquela “ourama” toda que as “moçoilas” carregam. Creio que deverá haver uma explicação para o seu uso. Será?
    Saudades tenho, do tempo em que o saudoso Pedro Homem de Melo, fazia no mesmo eléctrico que eu, o percurso entre o Palácio e a Rotunda da Boavista.
    E por aqui continuo a aprender, o que, minhota de gema, já devia saber.
    Um abraço da
    Ju

    • jorgesteves 12 Setembro, 2018 / 19:14

      Ourama‘, diz muito bem! Quando se vê aquele cortejo, o desfile infindável de mordomas e lavradeiras, todoas orladas com aqueles refulgentes amarelos a valerem milhões e mais milhões de euros, não é caso para menos: é ficar… ourado.!
      A explicação para o uso? Bom, parece um bom tema, sim, amiga Ju. Fica prometido, aqui, para breve, valeu?
      Abraço, minhota de gema!
      jorge

  3. Afrodite 6 Setembro, 2018 / 23:34

    Sempre me espantou a riqueza dos trajes minhotos, e refiro-me ao Alto e Baixo Minho em simultâneo, pois apesar de saber que há diferenças entre eles, nunca fui sagaz o suficiente para as conseguir distinguir. E com muita pena minha, apesar de ser Minhota de gema, sei muito pouco sobre este tema, um tema que em pequena me encantava pois nos meus tempos de menina sonhava em poder pertencer a um rancho folclórico.
    Gostei imenso de poder aprender mais um pouco.
    Beijinhos minhotos
    (^^)

    • jorgesteves 12 Setembro, 2018 / 19:09

      Fico satisfeito que o texto lhe tenha agradado. Não se entristeça por isso, amiga: a riqueza do traje, na verdade, é muito complexa e, por vezes, diferenciam-se as freguesias por um pequeno pormenor. Espero que volte.
      abraço,
      jorge

  4. tb 6 Setembro, 2018 / 17:03

    O rigor das coisas e a aprendizagem de quem não sabe.
    Grata.
    Um beijo.

    • jorgesteves 12 Setembro, 2018 / 19:03

      É sempre um prazer ter-te por aqui, amiga Teresa.
      Abraço.
      jorge

  5. Bartolomeu Fernandes 5 Setembro, 2018 / 09:48

    A falar e a escrever sobre Viana estás como peixe na água. Conheço bem essa tua paixão! Mas ainda bem porque vamos aprendendo coisas muito interessantes. Quem diria que o traje regional só existe em nove das freguesias? Eu não sabia e estou convencido que a maioria das pessoas não sabe. Vai escrevendo, que a gente agradece,
    Um grande abraço, Jorge

    • jorgesteves 12 Setembro, 2018 / 19:02

      Pois conheces; e sabes que é publicamente confessada. E, por isso, é sempre grato usar esse pretexto. Pois é: lembras-te das lições de folclore, na RTP, do professor Pedro Homem de Mello? Ele explicava isso tudo muito bem explicadinho…
      Um grande abraço, amigo.
      jorge

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