Pedro Afonso

O rei D. Dinis, aquele de quem a voz popular diz fez tudo quanto quis (o que não é tão verdadeiro assim...) governou durante quase 50 anos. O Lavrador, que porventura nunca viu uma enxada, deve o cognome a um pinhal que, embora tenha sido ele a ordenar a sua plantação, foi idealizado pelo genovês Pessanha que, na primeira década do século XIV, veio para Portugal incumbido de criar a Marinha. Do rei, e do seu reinado, os historiadores, principalmente os prosélitos do  Estado Novo, ao que escreveram, muita fantasia lhe acrescentaram e, como se isso não fosse pouco, alguns mistérios ficaram por esclarecer. Mistérios e conveniências é uma salsada notável…
Por acaso, ou não, Odivelas, parece ter sido o epicentro dos casos menos esclarecidos: exactamente o sítio onde ele, o rei, acabaria sepultado. Uma excepção, e essa, apenas curiosa…
Dos amores com D. Grácia Fróis de Ribeira, jovem de muita formosura, filha do fidalgo João Fróis, nasceria (1282) Pedro Afonso, que viria a ser conde de Barcelos. Este conde, é, provavelmente, o menos conhecido e o mais injustamente obscuro autor da cultura medieval portuguesa. Apenas se conhecem, do seu Livro de Linhagens, algumas poesias esparsas e outras no livro Cantigas, dedicado ao rei de Castela (ainda, em 1950, estudiosos espanhóis concluíram ser dele a Crónica de 1344, sobre o reino castelhano). O conde D. Pedro, depois de uma vida atribulada entre Castela e Portugal, sanados os litígios com D. Afonso IV, seu irmão, acabaria por falecer, aos 71 anos, no seu Paço de Lalim (Lamego).
(o seu mausoléu gótico está numa das alas da igreja do Mosteiro de S. João Baptista, em Tarouca)

Se, até aqui, pouca ou nenhuma curiosidade se pode achar, a verdade é que, em 1653, três séculos após a sua morte, Frei Francisco Brandão, ao escrever na Monarquia Lusitana as referências ao reinado do Lavrador e, falando do seu filho bastardo, Pedro Afonso, relatava:
Foi havido pelo homem de mais galhardas disposições que então havia em Hespanha, por ser quasi agigantado e tão proporcionado, que bem encobria a demasiada grandeza do corpo. No ano de 1643 mudaram os religiosos de S. João de Tarouca, a sepultura deste conde da parte direita do cruzeiro para a nave direita da egreja, e abrindo-a por curiosidade, acharam a armação dos ossos toda inteira: mediram o corpo com uma cana e constou ter de comprido quase onze palmos e meio; a sepultura não prometia menos corpo porque é grande em demasia. Respondia a grossura e mais compaginação a esta grandeza: na meia cabeça da parte direita tinha meio barrete de cetim amarello tostado, forrado a tafetá da mesma côr, tudo mui são ainda, e o cabello desta mesma parte crescido com grande melena, e sobremaneira ruivo: calçava esporas doiradas, e dentro dellas (?) estavam as solas do calçado inteiras de ponta aguda, como então se costumava. Os que estiveram presentes m’o certificaram com mui muideza’.

Este era Pedro Afonso, conde de Barcelos, o primogénito bastardo do rei D. Dinis.
Uma altura de quase dois metros e meio de que (muito) pouco se sabe.
Ou se sabe tudo quanto ele (o pai) quis…

 

 

 

(mais alto é um bastardo em pé do que um fidalgo de joelhos)

 

14 comentários sobre “Pedro Afonso

  1. Afrodite 28 Setembro, 2018 / 00:40

    Sem espanto verifico que ficamos todos embasbacados com os relatos sobre a altura de Pedro Afonso.
    E tal como aconteceu à minha amiga Ju, também eu fiquei com vontade de pesquisar mais um pouco sobre ele e assim fiz. Encontrei até uma descrição das dimensões do seu túmulo, que passo a citar:
    «Túmulo de D. Pedro Afonso, 3.º Conde de Barcelos, filho natural do Rei D. Dinis
    Igreja de S. João Baptista de Tarouca – Dimensões: 3,28m x 1,78m x 1,22m – Peso: 13 toneladas
    ».
    Notável!
    Beijinhos bem medidos
    (^^)

    • jorgesteves 28 Setembro, 2018 / 22:01

      Ora cá estão as medidas, que abaixo não sabia referir. O peso, creio, que está errado m duas toneladas. Li que passa uns quilos acima das quinze… Mesmo que fossem treze…
      Obrigado pela visita. Volte sempre, amiga.
      Abraço.
      jorge

  2. Ju 21 Setembro, 2018 / 15:22

    Um texto muito interessante e que nos incentiva em ir à procura de mais saber sobre o visado e não só. Desconhecia este filho de D. Dinis, bem como a maioria de seus filhos ilegítimos. Claro que só podia ter sido casado com uma Santa!…
    Pode não ter sido um grande homem (e, pelos vistos, até tinha o seu mérito), mas era sem dúvida um homem grande!
    Obrigada, Jorge

    • jorgesteves 28 Setembro, 2018 / 21:58

      Sim, é verdade, amiga Ju. D. Pedro foi um homem notável e, sem dúvida, o mais erudito filho, legítimo ou não, do rei D. Dinis. Eu é que agradeço.
      Abraço
      jorge

  3. Teresa Osório 20 Setembro, 2018 / 22:10

    As suas cróncias são sempre interessantes ,por isso também é grande a expectativa que fica depois de cada uma das suas saborosas leituras. É possível anunciar aqui sempre que faz uma apresentação do livro ou até um encontro informal como foi o da Universidade há uns dias? Obrigada a muitos parabéns, Jorge Esteves.

    • jorgesteves 28 Setembro, 2018 / 21:55

      É uma proposta interessante e a considerar, amiga Teresa. Prometo pensar seriamente no que propõe. E obrigado pelas suas palavras.
      jorge

  4. justine 18 Setembro, 2018 / 15:54

    Era mesmo um homem especial. Seriam ciúmes o que levou o pai a calá-lo??
    Mais uma boa página sobre a nossa história

    • jorgesteves 28 Setembro, 2018 / 21:53

      Atendendo ao percurso da vida deste filho, creio que os ciúmes, a haver, seriam mais prováveis na pessoa do futuro rei…
      Abraço.
      jorge

  5. João Machado Neves 17 Setembro, 2018 / 20:31

    Nem imaginava que pudesse existir alguém desse tamanho. De facto o D. Dinis devia dar não um mas muitos romances. Ainda há uns dias voltei a ler o seu excelente trabalho sobre o tal crime com 700 anos. E lá está, mais um filho, aqui uma filha, do rei D. Dinis. E pelos vistos nem dele foi a ideia do pinhal. O que faltará descobrir, amigo!
    Grande abraço.

    • jorgesteves 28 Setembro, 2018 / 21:50

      Sim, há mais uma ou outra história estranha ou rocambolesca à volta do Lavrador. Embora, como já o referi, a mais estranha de todas seja a que refere à princesa Maria Afonso que, estou convicto, foi assassinada por alguém que teve encobrimento real.
      Abraço, amigo.
      jorge

  6. tb 17 Setembro, 2018 / 15:02

    Sempre histórias interessantes e que nos aguçam a curiosidade da busca!
    Grata.
    Um abraço.

    • jorgesteves 28 Setembro, 2018 / 21:47

      Obrigado, Teresa; é muito gratificante a tua passagem por aqui.
      Abraço
      jorge

  7. Sónia Godinho 17 Setembro, 2018 / 13:23

    Já lá fui e de facto é impressionante o tamanho do túmulo. Não sabia que era filho de D. Dinis. Grata, Jorge por estas páginas tão interessantes.
    beijo
    Sónia

    • jorgesteves 28 Setembro, 2018 / 21:45

      Não sei exactamente as medidas do sarcófago, mas sei que o peso ultrapassa as 15 toneladas…
      Obrigado, Sónia, pelo apoio. É sempre gratificante.
      Abraço.
      jorge

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