feriados…

Hesitei um bocado antes de decidir contar esta história. É claro que aqui não cabe e, por isso, seria desbragado escrever fosse o que fosse sobre política: não é este o terreiro para rangue-rangue dessas matérias. Mas porque se associa a um tópico que deu brado não há muito tempo, de tão apalavrado que foi, pus de lado os formigueiros, deixemo-nos de chuchadeiras… aí vai. Ora leiam!
O Alfredo, antigo motorista dos STCP, conhecido lá na rua como o Sem bolsos, por nunca trazer dinheiro, militante activista do FêCêPê e sócio, nas horas vagas, do Contra, que é como quem diz a abrangência absoluta do prazer de estar sempre a arriar a giga, seja com quem for e a qualquer pretexto, um destes dias, no café do Domingos, arranjou maneira de me engrupir um cimbalino e uma amarelinha, enquanto, a propósito do ripanço de uns catiatas feriados, se sai a dizer ‘bou passar a botar p’los reis!…

– Hã?!… O quê?… Votar em quem?!…
– Nos reis, carago! Com’é que se chama lá o partido, co’mé?…
– Ah!… O Partido Popular Monárquico, é isso?
– Isso mêmo!…
– Mas… e a que propósito vais tu…
Olhe aqui, ó!... – e rapa do bolso da samarra um livrinho velho, meio desfeito, de folhas acastanhadas – isto era uma agenda do meu abô. Bê?, ‘tá aqui escrito: 1903. – Agora ora manje-me aqui esta folheca! Mostra-ma a folha e, depois, lê:

Dias de Grande Gala em 1903
Dia 1 de Janeiro, por boas Festas, e entrada do Anno Novo.

Dia 21 de Março, Anniversario do Serenissimo Príncipe Real D. Luiz Fillipe.
Dia 29 de Abril, Outhorga da carta Constitucional.
Dia 31 de Julho, Juramento da Carta Constitucional e anniversario do sr. Infante D. Affonso.
Dia 28 de Setembro, Anniversario de Sua Magestade Fidelissima El-Rei D. Carlos, e de Sua Magestade a Rainha D. Maria Amelia de Orleans.
Dia 16 de Outubro, Anniversario de Sua Magestade a Rainha, a Senhora D. Maria Pia de Saboya.

Dias de simples gala em 1903
Dia 17 de Fevereiro, Annos de S. A. A Srª Inf. D. Antonia.
Dia 30 de Março, Domingo de Paschoa.
Dia 1 de Maio, Dia do nome de Sua Alteza o Principe Real D. Luiz Fillipe.
Dia 22 de Maio, Anniversario de casamento de Sua Magestade Fidelissima El-Rei D. Carlos.
Dia 11 de Junho, Procissão do Corpo de Deus.
Dia 19 de Junho, Festa do Santissimo Coração de Jesus.
Dia 10 de Julho, Pronome de Sua Magestade a rainha D. Maria Amelia.
Dia 8 de Setembro, nome de Sua Magestade a Rainha, a Senhora D. Maria Pia de Saboya.
Dia 4 de Novembro, Nome de S. M. El-Rei D. Carlos.
Dia 15 de Novembro, Annos do Senhor Infante D. Manuel.
Dia 1 de Dezembro, Acclamação d’El-Rei D. João IV.
Dia 8 de Dezembro, Dia da Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Reino.
Dia 25 de Dezembro, Dia de Natal.
Dia 31 de Dezembro, Ultimo dia do Anno.

Férias e dias feriados em 1903
De 1 a 6 de Jasneiro e 27 de Fevereiro, de 9 a 23 de Abril, 24 de Julho, 24 de Setembro, 19 de Outubro, de 24 a 31 de Dezembro, e todos os dias de Grande Gala. Nos tribunais é feriado todo o mez de Setembro.

Dias do anno de 1903 em que são prohibidos os espectáculos públicos
28 de Fevereiro, 11, 12 e 13 de Abril, 24 de Setembro, 19 de Outubro, 2 de Novembro, e nos dias de luto por morte do rei, rainha, ou pessoa real, patriarcha, bispo da diocese, e nos dias em que se fizerem préces publicas.

Agora é qu’o mandei p’ra canto, c’o esta! Faça as contas, faça as contas… Isto é qu’é feriados à ganância, topou, hã?!…
Topei!

 

 

 

(na política, uns são alpinistas, outros são degraus)

peculiaridades de um cano

Entre conventuais freiras e frades de Amarante, houve, in ílio tempore, um litígio que foi resolvido por um acórdão proferido pela Relação do Porto, em 1793.
Salvaguardando algumas adaptações na escrita, que em nada alteram o significado, aqui vai o que lá ficou escrito:
Acórdão em Relação, no Porto, vistos os autos e os descritos pelas testemunhas, pelo que convém nos ditos pelas partes. As autoras D. Abadessa, Discretas e mais Religiosas do Real Convento de Santa Clara de Amarante, mostraram ao escrivão ter um cano seu, próprio por onde despejam as suas imundices e enxurradas, o qual atravessa de meio a meio a fazenda dos frades Domínicos da mesma vila. Provaram elas, autoras, a posse em que estão de o limparam quando entendido precisarem. Os réus, Prior e mais religiosos do Convento de S. Gonçalo, assim o confessaram, e se defendem, ao que dizem, que lhes parece mui mal que lhes bulam e mexam na sua fazenda sem ser à sua satisfação: que conhecendo a necessidade de limpeza do cano das Madres, tinham feito unir o seu cano ao delas, por cujo modo vinham elas a receber proveito. Portanto, e o mais que foi dito aos autos, vendo-se claramente que aquela posse só poderá nascer do abuso: – vendo-se mais a boa vontade como os réus se prestam e obrigam a limpar o cano das Madres, autoras, e que, outrossim, da união resulta conhecido benefício – conclui-se visivelmente que há dúvidas e questões da parte das Madres, que podem nascer do capricho sublime, dum temperamento ardente, preciso de mitigar-se para bem de ambas as partes. Pelo que, mandam, que o cano das autoras seja conservado sempre corrente e desembaraçado, unido ou não unido ao cano dos réus, segundo o gosto e interesse destes, e inteiramente à sua disposição, sem que as freiras, autoras, possam intrometer-se no dia, na hora, nem nos modos ou maneiras da limpeza, a qual já fica entregue à vontade dos réus que a hão-de fazer com muita prudência e bem, por terem bons instrumentos seus próprios, o que é bem conhecido das autoras que o não negaram nem contestaram aos autos. E quando aconteça, – o que não é de se presumir – que os réus de seu propósito ou por omissão deixem entupir o cano das autoras, em tal caso lhes deixem o direito salvo contra os réus, podendo desde logo governar na limpeza do dito cano, mesmo por meios indirectos, usando de suspiros, e ainda usando o cano dos réus, procedendo primeiro a uma vistoria feita pelo juiz de fora com assistência do escrivão ou peritos louvados sobre os canos das autoras e dos réus.
Pague-se pelas partes, do modo que lhes foi ditado, as custas do processo aqui passado assim o ofício.
Porto, 10 de Novembro de 1793.
Sobre o que aconteceu posteriormente à sentença, não sei mais nada..

 

 

 

 

(a língua será a melhor coisa do mundo; mas também pode ser a pior)