a fava do bolo-rei


Muitos e variados são os elementos associados ao Natal que se estendem pela passagem de ano até ao Dia de Reis. Na doçaria, quedemo-nos um pouco sobre a peculiaridade da tradição de meter uma fava na massa do bolo-rei. Como em outros costumes da época, também esta é uma clara aglutinação por parte da Igreja, de hábito oriundo das seculares festividades pagãs por alturas do solstício de Inverno.

Ao que parece a origem estaria nas festas saturnais dos romanos que usavam o jogo da fava escondida no doce para eleger o rei do banquete. Integrado no ritual cristão, ficaria incorporado na tradição do nascimento de Jesus, simbolizando a oferenda dos três Magos do Oriente (Gaspar, Baltazar e Belchior): a côdea do bolo seria o ouro, as frutas cristalizadas eram a mirra e o seu perfumado aroma seria o incenso. Por sua vez o jogo da fava, que o hábito romano havia popularizado por todo o império, viria a sofrer uma adaptação e, de modo bem pragmático (adaptado a circunstâncias económicas bem mais escassas…), quem tivesse o calhar da fava, simplesmente obrigava-se a comprar o próximo bolo-rei. Deste modo, a fava ganhava uma função diametralmente oposta.
Os registos históricos mais concretos relativos ao bolo-rei aparecem com evidência, em França, no reinado de Luís XIV. Curiosamente a receita seria (quase…) esquecida pouco anos mais tarde, por força da Revolução Francesa que iria proibir a sua confecção, dada a sua proscrita real designação. Acabaria por voltar à ribalta nos meados do século XIX, já com a forma, sabor e carga tradicional, que hoje se lhe conhece.
Curiosamente, tal como em França, por cá e na sequência da implantação da República, esboçou-se a sua proibição (houve quem tentasse o subterfúgio de criar um bolo-prersidente, mas a ladinice não pegou…)
A propósito da fava do bolo-rei, Carlos Malheiro Dias descreveu um episódio interessante e insólito, pelo desfecho, decorrido no Palácio das Necessidades com o príncipe D. Luís Filipe e o infante D. Manuel (o futuro – e último – rei de Portugal).
Durante a sobremesa do jantar no dia de Reis, em 1907, ao servir-se o bolo-rei, havia grande expectativa para saber a quem caberia a fava. Recaiu no príncipe D. Luís Filipe, que, aproveitando a distracção momentânea do infante D. Manuel, trocou os pratos.
O 6° Marquês do Lavradio, oficial às ordens do príncipe e secretário de D. Manuel, sorrindo, quis saber a razão do patusco engano.
Alteza, porque faz isso? -, perguntou Lavradio ao príncipe ao perceber a troca das fatias por causa da fava. D. Luís Filipe respondeu:
Cale-se…  Aquilo vai causar-lhe tanto prazer! Ah! Ele será rei tanto quanto eu puder!
A 1 de Fevereiro do ano seguinte, a carabina de Buíça e a pistola de Costa abatiam mortalmente o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. Foi assim que D. Manuel ascendeu ao trono. Cumpria-se, por uma dessas ironias do destino, o equívoco em redor da fava, no Palácio das Necessidades.
Não se poderia dizer, como então era uso, a fava calha ao Rei… da festa.

 

 

 

(às vezes a coisa dita acirra a desdita)

8 comentários sobre “a fava do bolo-rei

  1. Olinda Melo 5 Janeiro, 2019 / 20:59

    Caro Jorge
    Muito me apraz encontrar aqui mais uma história tradicional e, neste caso, relacionado com o bolo-rei. Hoje tenho pena de já não encontrar a fava e também o prémio (um pequeno objecto embrulhado em papel). Era sempre uma festa ver a quem cabia a fava.
    Referiu o facto de o bolo-rei ter sido proibido em França. Será a “galette du roi” o mesmo que bolo-rei?
    Desejo-lhe um Bom Ano.
    Bem, agora vou ver se consigo publicar o comentário.
    Abraço
    Olinda

    • jorgesteves 6 Janeiro, 2019 / 19:03

      Ora ainda bem que já deu acerto à entrada aqui, amiga Olinda!
      Aprecio a sua visita.
      E quanto a galette du roi, depois me dirá se a resposta a satisfez!
      Um óptimo ano, amiga!
      Abraço.
      jorge

  2. Maria dos Santos 3 Janeiro, 2019 / 18:46

    Sempre muito interessantes leituras aqui. Hoje tive uma surpresa especial: o provérbio que está lá no fundo lembro-me bem de o ouvir da boca da minha avó paterna. Bom ano Jorge.

    • jorgesteves 6 Janeiro, 2019 / 19:00

      É bem antigo, é, Maria! Creio que do tempo da avó da tua avó…
      Bom ano também para ti.
      Abraço.
      jorge

  3. tb 3 Janeiro, 2019 / 15:47

    São são as voltas da vida… quanto às favas no bolo-rei, agora apenas ficou a história. (mas continuam a querer mandar-nos à fava) 🙂
    Gosto sempre das histórias, meu amigo.
    Um Ano Novo cheios de vida e inspiração.
    Um beijo

    • jorgesteves 6 Janeiro, 2019 / 18:58

      Lá para as minhas bandas costumam dizê-lo com acrescento: ‘vai à fava, enquanto a ervilha cresce‘…
      Por mim até nem me importo; gosto imenso de favas!
      Tudo de bom para ti, amiga.
      Abraço.
      jorge

    • jorgesteves 6 Janeiro, 2019 / 18:55

      Igualmente para si.
      Abraço.
      jorge

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