outra fava dos três magos

A amiga Olinda, a propósito do texto anterior ‘a fava do bolo-rei’, perguntou-me ‘será a galette du roi o mesmo que bolo-rei?’. A mesma coisa não será, mas é, sim, um parente. E não muito afastado…
A Galette des Rois é uma sobremesa tradicional muito vulgarizada em França (também no Quebeque, na Suíça e na Bélgica) que, basicamente, comemora a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. Daí o nome, bolo (ou tarte) dos reis.
De alguma forma, tal como o Natal conserva usos e tradições que remontam à época romana e, posteriormente, à doçaria francesa (já lá vamos), também o Dia de Reis conserva alguns desses costumes pagãos.
Assim, a Epifania (palavra de origem grega que significa aparição; no caso dos Magos, refere-se à estrela que os guiou até ao presépio de Belém), que corresponde ao período de tempo que decorre entre a Natividade e o encontro dos Magos com o Menino – 6 de Janeiro -, vai apropriar-se dos festejos da romana Saturnália, por ocasião do solstício de Inverno, em que à hora do meio dia, os senhores e os escravos revertiam o seu papel e poder: o servo que ganhasse a fava da lotaria, seria mestre até o sol se pôr. Depois tudo voltava ao seu curso habitual, onde o servo tanto poderia retomar a sua vida costumeira como ser colocado perante e morte.
Já nos finais do século XIX, com a recuperação da tradição doce, em França, a fava (ou moeda de prata ou ouro) romana dá lugar à fava em porcelana ou, então, uma nova variante, ser substituída por diminutas imagens de santos (designados por santons).
Desde aí (depois dos tempos conturbados da Revolução), especialmente os franceses, celebram o Dia de Reis – o último dia da Epifania, 12º após a Natividade – com o tradicional bolo conhecido por Galette des Rois. O bolo é dividido por inteiro de forma a que cada comensal receba uma fatia e, mesmo assim, que obrigatoriamente haja uma fatia de sobra, simbólica, para qualquer visitante inesperado ou então qualquer pobre que, na altura, possa deambular nas redondezas (tal e qual como na representação do costume romano). Curioso que um pequeno pormenor se lhe acrescentou: as fatias do bolo são atribuídas geralmente por uma criança que, previamente colocada debaixo da mesa, as distribui sem, desse modo, poder haver outra possibilidade de acerto na fava ou no santon, que não o mero atributo da sorte.
A quem calhar a sorte da fava ou do santon caberá a incumbência de garantir o bolo no ano seguinte. Honra-o ser rei (ou rainha) por um ano e o direito de receber uma coroa feita com papel dourado, que usará durante todo o dia da festa.
Mesmo que sem este atributo do bolo, o Dia de Reis é, em algumas regiões da França e outros países com reminiscências francófonas, tão ou mais importante que os festejos do Natal. Assim como em Espanha, mesmo que aqui o Bolo-Rei pouco ou nada tenha a ver com as favas ou os santinhos de porcelana…
Não ficaria completo o artigo se não registasse a receita da Galette des Rois. Cá vai:
Dois pedaços de massas folhadas
Dois ovos para o recheio e outro para dourar a massa
150 gramas de amêndoas em pó
80 gramas de manteiga meio derretida
125 gramas de açúcar
1 fava ou uma prenda (o santon)
Comece por colocar a primeira massa folhada numa forma. Com um palito grande, faça pequenos furos na massa, para evitar que ela atufe no forno – por vezes forma-se uma bolha de ar que estraga o aspecto da tarte.
Noutro recipiente, prepare o recheio – que, em França se designa por frangipane: misture as amêndoas em pó, a manteiga derretida, o açúcar e os dois ovos.
Com uma espátula espalhe o recheio sobre a massa que já deve estar na forma.
Coloque onde desejar, escondida, a fava ou a prenda, dentro do recheio e tape com a outra massa folhada. É importante que as bandas de cada uma das massas fique bem solidificadas uma contra a outra.
Faça desenhos na massa, com um garfo ou qualquer outro utensílio, o que poderá ser mais ou menos elaborado conforme a sua habilidade ou saber.
Num copo à parte misture a gema do outro ovo com um pouco de água. Com um pincel, vá passando-a sobre a massa de modo a que o seu bolo dos reis tenha um tom dourado quando sair do forno.
Deixe no forno cerca de 30 a 40 minutos a 180 °C. Este valores são muito dependentes das características do seu forno. Saberá como controlar este aspecto.
Depois… bom appétit. E, já agora. Bonne année a tous!

 

 

 

(nunca tam doce que as moscas acentem)

8 comentários sobre “outra fava dos três magos

  1. Maria Amélia 7 Janeiro, 2019 / 09:52

    Rapidez, saber e mestria na aula. Se assim fosse o governo, amigo…
    Desconhecia de todo.
    bjos

    • jorgesteves 11 Janeiro, 2019 / 21:13

      Óptimo que tenha gostado.
      Abraço.
      jorge

  2. Elvira Carvalho 6 Janeiro, 2019 / 21:35

    Não conhecia o bolo “galette des rois”. Muito interessante a história.
    Abraço, boa semana e bom ano.

    • jorgesteves 11 Janeiro, 2019 / 21:11

      Obrigado, amiga Elvira.
      Bom ano, também para si.
      Abraço.
      jorge

  3. Olinda Melo 6 Janeiro, 2019 / 20:31

    Caro Jorge
    Adorei ficar a saber a história e tradição da “galette des rois” e ainda mais com direito a receita.
    Muito obrigada.
    E Bonne Année também para si.
    Abraço.
    Olinda

    • jorgesteves 11 Janeiro, 2019 / 21:10

      Espero que a receita funcione! Não testei!…
      Abraço.
      jorge

  4. tb 6 Janeiro, 2019 / 20:08

    Cá está mais uma preciosa curiosidade e receita a preceito.
    Não sendo eu nada tradicionalista é sempre um primor vir por cá.
    Abraços.

    • jorgesteves 11 Janeiro, 2019 / 21:09

      Grato pelo comentário, Teresa.
      Abraço.
      jorge

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *