jogos tradicionais

(do Livro de Leitura da 1ª classe, meados do século passado)
Um aspecto curioso, e riquíssimo, do nosso acervo popular é. sem dúvida, o jogo. Jogam ou brincam as crianças, os adolescentes e até os adultos. Hoje, é claro, de forma bem diferente, e porventura sem as principais (ia a escrever fundamentais) caracterizações do passado. Não cabe aqui teorizar sobre essa actividade lúdica, nem mesmo defender-lhe explicações de natureza vária, seja psicológica, sociológica ou mesmo biológica, como defenderam alguns eminentes pedagogos. É óbvio, porém, que o jogo é, de alguma forma, um exercício preparatório da criança (ou mesmo, até, de todos os animais) para as actividades sérias da vida que se lhe advêm.
Os jogos têm, também, várias condicionantes sejam elas, por exemplo, para crianças ou para adolescentes que, se já diferem, com certeza mais diferenças consubstanciam os jogos para adultos; também diferem consoante a época do ano e a região a que se lhes agregam determinados ritos ligados ao jogo. Um outro aspecto não menos importante e, porventura, o mais singular e interessante é a associação que muitas vezes é feita com aquilo a que chamamos ladainhas, lengalengas, aranzel, choradeira, algaraviada – ou os anfiguris, como vimos aqui, na última publicação. À primeira vista pode parecer-nos ouvir palavras sem sentido e desprovidas de censo ou de valor. O que é redondamente errado. Elas desempenham, essencialmente, uma ginástica vocálica, por vezes de execução difícil, associando à dinâmica do jogo um certo ritmo e animação, que alicia e entusiasma as crianças.
Bem antigas são, de facto, estas formas de juvenil brincadeira, de tal forma que hoje não passam de recordações já, infelizmente, esfiapadas por lapsos de memória e inexoráveis percas no descaminho do Tempo…
O jogo às escondidas, era talvez, um dos mais populares, já que permitiam ao jogo crianças de ambos os sexos. Antes de se esconderem, procedia-se à escolha dos jogadores que se hão-de livrar. Todos numa fila, sentados no chão, de pernas estendidas, enquanto um deles, começando numa das extremidades, batendo com a mão na bota de cada jogador, ia dizendo:
Sola
sapato
rei
rainha
foi o mar
buscar sardinha
para o filho do juiz
que está preso
pelo nariz
salta a pulga
da balança
dá um salto
até à França
os cavalos
a correrem
as meninas
a aprenderem
qual será a mais bonita
que se irá
esconder?…

Depois de todos se livrarem, claro, que o último irá procurar todos os escondidos; o primeiro a ser achado será o próximo a procurar.
Como disse este é um jogo para rapazes e raparigas, mas, entre outros, lembro um – este, ao tempo, por razões óbvias, só de rapazes – dos mais vulgares da minha velha Primária: o jogo do eixo. Depois das lengalengas para saber quem há-de ficar por baixo (curvado, tronco flectido e a cabeça entre os joelhos), os outros, em linha, atrás uns dos outros, começam a saltar, abrindo bem as pernas e firmando apenas as palmas das mãos nas costas do que faz de eixo. Em cada salto, dizem, seguidamente, a arenga do costume:
Eixo
ribaldeixo
caramelo ou pau do eixo
uma de alamua
duas batatas cruas
três pulinhos holandeses
(depois de saltar dá três pulinhos com um pé no ar)
quatro, belo arroz
faz o pato
cinco, Maria do brinco
seis, reis
sete, escarrapachete
(dá uma sulipa no rabo do que está debaixo)
oito, biscoito
(torna a dar outra sulipa, agora com mais força)
nove, dá dez reis ao pobre
dez, comichões nos pés
(depois de saltar, faz o gesto de coçar os pés)
onze, bronze
doze, palmada perdoada
(dá ou pode perdoar uma palmada no rabo do que está debaixo)
treze, mais bem dada
(dá uma palmada, agora com força)
catorze, atira o boné
(atira o boné ou o chapéu para a frente e para o chão, no acto de saltar)
quinze, apanhar bonés
(tem de o apanhar com a boca, mas de joelhos, firmando apenas os cotovelos no chão. Se não fizer assim, perde e será ele o próximo a abaixar).

Outros jogos também aqui mereceriam destaque: o jogo da apanha, o jogo do alho, o jogo da cabra-cega, o jogo do bom barqueiro, o jogo do pião, o jogo da bilharda – o meu preferido, o jogo do arrebenta, o jogo do chinquilho, o jogo da malha, o jogo da rolha, o jogo do prego e o jogo da babona, estes dois na praia, tantos, tantos outros…
Talvez que, um dia, a eles voltaremos; entretanto escusam de os procurar nas prateleiras dos centros comerciais: não há nenhum em versão para a PlayStation…

 

 


(jogar com pau de dois bicos é perder ambos)

anfíguris…
ou a menina dos caracóis

Foi já no declínio do século XVIII que principiaram a vulgarizar-se em Portugal as burlescas arengas rimadas que, em Poesia, se chamam anfiguris (cantilena confusa, desordenada, algaraviada).
Espalhadas por quase todo o território, ganharam algumas peculiaridades de várias regiões, se bem que, na sua maioria, estas estiradíssimas composições, propositadamente abstrusas, por isso fastidiosas, e até impertinentes, tenham sido muito da predilecção das gentes de antanho, ao revés da sua vida prática e dura, e da imaginação e espírito pouco dados a coisas supérfluas e irritantes.
Os anfiguris, já divulgados desde o século XVI, por grande parte da Europa, especialmente França, por Scarron e Racine, encontram-se coligidos no Romanceiro Português e nos Ensaios Etnográficos, de Teófilo Braga e Leite de Vasconcelos, onde se pode apreciar este popular género literário despido de galas empavesadas, congeminados pela inspiração, ingenuidade e sagacidade do povo, ressumantes de simplicidade e matreira observação.
Para exemplo, aqui fica um anfiguri, tipicamente lisboeta, que supomos muito pouco conhecido. A par de uma pitoresca simplicidade, que recreou os nossos avoengos, nele encontraremos um saboroso evocar de velhos costumes, de passados acontecimentos e memórias de curiosos recantos vetustos. Assim perdurou na memória de algumas gerações:

Vi certa menina
Com os seus caracóis,
Catando os lençóis
Ao Rei Salomão.
O pai Maranhão
Com todo o capricho
Foi matar o bicho
Ao Cais do Sodré.
Muito pontapé
Levou o rapaz
Que traz no cabaz
Palha de tábua;
Passeiam p’la rua
Peraltas aos centos,
Engolindo ventos
Em lugar d’almoço.
Namora o meu moço
Aquela menina
Que mora à esquina
Do Arco do Cego.
Aquele galego
Que vende melões
Rompeu os calções
Com vento do sul.
Aquele taful
Comendo rosbife;
Passear de esquife
É grande descoco!
Escovas de coco
São convenientes
P’ra limpar os dentes
De quem tem ramela;
Caldo da panela
É bom alimento,
Se lhe dá o vento
Não cai de maduro.
Lá no Val-Escuro
Quebrei o nariz;
Isso não se diz
Diante da gente;
Ó senhor Vicente
Não mangue comigo;
Lá dei no umbigo
Uma canelada;
Está gente parada
Por essas travessas,
Sentada em tripeças
Tocando zabumba.
Zumba, catrapumba
Zás traz catrapaz.
Os canos de gás
Cheiram muito a pez;
O porco-montês
Tem grande focinho;
Quem não bebe vinho
Mal sabe ao que vai;
Rapazes sem pai
Ficam malcriados;
Seis vinténs safados
Ninguém os aceita;
É boa receita
Para as quebraduras
Pôr-lhe ligaduras
De teia de aranha.
Espanhóis de Espanha,
Franceses de França,
Armam contradança
Lá nos Pirenéus.
Pois então… Adeus,
Findou a cantiga
Da tal rapariga
Com seus caracóis.

Aqueles que por aqui costumeiros se agastam com este tipo de velharia tocada pelo pó dos tempos, roídas pela traça e trescalando a bafio, me perdoem o ter trazido esta velhusca frivolidade. Não será de esquecer, porém, que é a recolha destas e doutras bacatelas, que torna possível reconstituir e preservar a memória de épocas passadas e, assim, manter viva a herança que nos foi legada. Acabo o dito.

 

 

 

 

(cantiga velha não custa a entoar)