anfíguris…
ou a menina dos caracóis

Foi já no declínio do século XVIII que principiaram a vulgarizar-se em Portugal as burlescas arengas rimadas que, em Poesia, se chamam anfiguris (cantilena confusa, desordenada, algaraviada).
Espalhadas por quase todo o território, ganharam algumas peculiaridades de várias regiões, se bem que, na sua maioria, estas estiradíssimas composições, propositadamente abstrusas, por isso fastidiosas, e até impertinentes, tenham sido muito da predilecção das gentes de antanho, ao revés da sua vida prática e dura, e da imaginação e espírito pouco dados a coisas supérfluas e irritantes.
Os anfiguris, já divulgados desde o século XVI, por grande parte da Europa, especialmente França, por Scarron e Racine, encontram-se coligidos no Romanceiro Português e nos Ensaios Etnográficos, de Teófilo Braga e Leite de Vasconcelos, onde se pode apreciar este popular género literário despido de galas empavesadas, congeminados pela inspiração, ingenuidade e sagacidade do povo, ressumantes de simplicidade e matreira observação.
Para exemplo, aqui fica um anfiguri, tipicamente lisboeta, que supomos muito pouco conhecido. A par de uma pitoresca simplicidade, que recreou os nossos avoengos, nele encontraremos um saboroso evocar de velhos costumes, de passados acontecimentos e memórias de curiosos recantos vetustos. Assim perdurou na memória de algumas gerações:

Vi certa menina
Com os seus caracóis,
Catando os lençóis
Ao Rei Salomão.
O pai Maranhão
Com todo o capricho
Foi matar o bicho
Ao Cais do Sodré.
Muito pontapé
Levou o rapaz
Que traz no cabaz
Palha de tábua;
Passeiam p’la rua
Peraltas aos centos,
Engolindo ventos
Em lugar d’almoço.
Namora o meu moço
Aquela menina
Que mora à esquina
Do Arco do Cego.
Aquele galego
Que vende melões
Rompeu os calções
Com vento do sul.
Aquele taful
Comendo rosbife;
Passear de esquife
É grande descoco!
Escovas de coco
São convenientes
P’ra limpar os dentes
De quem tem ramela;
Caldo da panela
É bom alimento,
Se lhe dá o vento
Não cai de maduro.
Lá no Val-Escuro
Quebrei o nariz;
Isso não se diz
Diante da gente;
Ó senhor Vicente
Não mangue comigo;
Lá dei no umbigo
Uma canelada;
Está gente parada
Por essas travessas,
Sentada em tripeças
Tocando zabumba.
Zumba, catrapumba
Zás traz catrapaz.
Os canos de gás
Cheiram muito a pez;
O porco-montês
Tem grande focinho;
Quem não bebe vinho
Mal sabe ao que vai;
Rapazes sem pai
Ficam malcriados;
Seis vinténs safados
Ninguém os aceita;
É boa receita
Para as quebraduras
Pôr-lhe ligaduras
De teia de aranha.
Espanhóis de Espanha,
Franceses de França,
Armam contradança
Lá nos Pirenéus.
Pois então… Adeus,
Findou a cantiga
Da tal rapariga
Com seus caracóis.

Aqueles que por aqui costumeiros se agastam com este tipo de velharia tocada pelo pó dos tempos, roídas pela traça e trescalando a bafio, me perdoem o ter trazido esta velhusca frivolidade. Não será de esquecer, porém, que é a recolha destas e doutras bacatelas, que torna possível reconstituir e preservar a memória de épocas passadas e, assim, manter viva a herança que nos foi legada. Acabo o dito.

 

 

 

 

(cantiga velha não custa a entoar)

contar pelas pedrinhas
sabe como é?…

 

Um velho manuscrito de 1731, de Bernardo Anes, comerciante das Índias, narra que passou algum tempo na Etiópia e que, entre outras coisas, aprendeu uma velha forma nativa de contar. Diz ele que, no passado, os aborígenes daquela região só conseguiam duplicar ou dividir pela metade os números, e isso só com o auxílio de pedrinhas. Mas, apesar disso, sabiam encontrar o produto exacto da multiplicação de quaisquer dois números, simplesmente duplicando-os ou dividindo-os pela metade.
E dava um exemplo: suponhamos que um pastor deseja comprar 15 ovelhas ao preço de 13 birr, que é a sua moeda. Quanto iriam custar? O mercador explicava que o resultado se encontrava deste modo: Punha 13 pedrinhas numa coluna à esquerda e 15 numa outra coluna, à direita. Dividia por metade o número da esquerda. Obteria 6 e ½. Desprezava o ½, pois era norma não ligarem a qualquer valor fraccionado. Dobrava, depois, o número das pedrinhas da direita. Vai-se, em seguida, dividindo pela metade o número da esquerda e dobrando o da direita até chegar, finalmente, ao número 1, na esquerda. Assim:
13     15
6       30
3       60
1     120
Os números pares na coluna da esquerda são maus, dizem eles. E precisam de ser destruídos, juntamente com os seus parceiros da direita. Sendo assim, risca-se o 6, e o 30, correspondente da sua direita. Depois de feita esta extirpação dos pares, soma então os números restantes da coluna direita e obterá o resultado exacto: 195. Sem mais.
Faça a sua experiência com dois números quaisquer. Não importa qual seja o número dobrado, qual o reduzido a metade: a resposta estará sempre certa.
Termina, Bernardo Anes, dizendo que a mentalidade primitiva dos etíopes, ainda hoje (1731) não consegue compreender como se opera com o nosso sistema.
Não há dúvida é que, quase 300 anos volvidos sobre esta narrativa, nós compreendemos, num relance, como funcionava o deles. É fácil, não é?…

 

 

 

(mais se sabe por experiência do que por aprender)