achatar o beque

Engolir sapos, ir à lã e vir tosquiado, passar de porqueiro a porco, dar com os burrinhos na água, dar com o navio nos cachopos, e umas mais tantas expressões ou frases feitas podem irmanar o sentido com esta. Em síntese será o que se aplica – o que se diz – a quem sofre as consequências de, por ingenuidade ou ignorância, dar um tropeço, ser facilmente enganado, actuar ou falar de modo achamboirado, imprudente.
A origem, sem qualquer dúvida, está nos tempos da marinhagem à vela (tal como ir na alheta, andar à toa, perder a tramontana e outras). Beque é, nos lugres, patachos ou caravelas, o mastil que, inclinado, sai na ponta da proa. Tal como, por analogia, nos sai o nariz da cara.
Achatar o beque é, literalmente, navegar de modo tão inepto que esbarre o beque em qualquer obstáculo. Por comparação dar (bater) com o nariz em qualquer trampalho. O que – no caso da penca -, salvo em situações muito concretas de imprevisíveis acidentes, o doloroso embate é quase sempre resultado de desgoverno, irreflexão ou destemida imprevidência.
Aceitemos, no entanto, que alguma dose de imprudência sempre esteve associada aos passos da Humanidade. ‘Imprudência é o único sentimento que pode inspirar as nossas vidas e que não tem argumentos para se defender’, escreveu Françoise Sagan.
O que é mais do que suficiente para achatar o beque aos mais conservadores.

(na fotografia, o patacho Ana Maria, à entrada do rio Douro, em 1957)

 

 

 

(não sejais forneira se tendes cabeça de manteiga)

10 comentários sobre “achatar o beque

  1. Justine 11 Março, 2019 / 16:02

    És um poço sem fundo, amigo! E em cada post, um ensinamento, uma novidade. Assim dá gosto!
    Um abraço

    • jorgesteves 13 Março, 2019 / 19:53

      A verdade é que os teus elogios são, sim, um enorme poço de estima!
      Ainda bem que gostas. Satisfaz-me sabê-lo.
      Abraço.
      jorge

  2. Olinda Melo 7 Março, 2019 / 09:53

    Bom dia, Jorge
    Gosto muito desses ditos, expressões que parecem adaptar-se a todas as situações e a explicá-las. Sinto ecos dos que trouxe agora a soar aos meus ouvidos. Quase nunca sei a sua origem mas adivinho-lhes o sentido. Ainda bem que temos na sua obra “Coisas do Arco-da-Velha” e neste seu blogue tão preciosa e agradável ajuda.
    Muito obrigada, meu amigo.
    Abraço
    Olinda

    • jorgesteves 13 Março, 2019 / 19:51

      Obrigado, amiga Olinda. Fico grato pela sua vinda aqui. Procurarei manter agradáveis estes momentos de leitura, nestas bandas.
      Abraço.
      jorge

  3. tb 6 Março, 2019 / 14:45

    Sempre o prazer de ler aliado ao de aprender.
    Gosto muito, muito!
    Também gostei do novo cabeçalho. 🙂
    Beijo

    • jorgesteves 13 Março, 2019 / 19:49

      É um prazer saber-te por aqui, amiga.
      O cabeçalho da página inicial, sim, mudou de cara. E, já agora, também o rodapé das duas páginas, já viste?
      Abraço.
      jorge

  4. Susana 5 Março, 2019 / 21:12

    Muito interessante a sua explicação, não conhecia o termo. Concordo que há algumas frases ou provérbios ligados aos barcos, lembro-me de embamdeirar em arco. Será ou estou errada?
    è sempre um prazer vir aqui, Jorge. Para mais é uma expeirência interessante já que como é a continuação do seu livro parece que ainda não acabamos de o ler.
    Obrigada.
    bjos.

    • jorgesteves 13 Março, 2019 / 19:47

      Isso mesmo, Susana: ’embandeirar em arco’ e outras. A elas virei brevemente, fica assente.
      Obrigado pelas suas palavras e presença amigas.
      Abraço.
      jorge

  5. Bartolomeu Fernandes 4 Março, 2019 / 21:08

    Há muito tempo que não lia ou ouvia esta frase! Fizeste-me lembrar a do água no bico, que aprendi no teu livro.
    Abraço, companheiro

    • jorgesteves 13 Março, 2019 / 19:45

      Tens razão, a frase já está um tanto em desuso. Embora haja muita gente a precisar de ‘achatar o beque’. E com força…
      Abraço, companheiro.
      jorge

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