abusos no pretérito…


(fragmento de um discurso, aquando da inauguração do Curso Superior de Letras,

em 1859, no reinado de D. Pedro V)

(…) De desperdícios, abusos e corrupções é que se fala, e bom é que se fale para se coibirem e evitarem. Mas se eu aqui lesse o que a tal respeito nos dizem do passado, sérios e graves escritores, credo! Duarte Nunes de Leão, Diogo do Couto, Gabriel Soares, o padre Fernão Guerreiro, a famosa carta de Alexandre Gusmão e tantos, tantos outros depoimentos relativos a diversas épocas!…
Se eu quisesse avivar a memória de como se davam muitas vezes as recompensas nesses tempos que tão fácil é hoje inculcar para modelos, que fale por mim António Galvão, o apóstolo das Molucas, que dezassete anos amargou num hospital os sacrifícios de sangue e fazenda que fez à pátria, a sua ilustração, o seu desinteressa e os seus sacrifícios! Fale Salvador Ribeiro, outros ainda e mais factos e histórias de negritude. Para quê mais? Resumirei tudo isso numa só história, que bem pinta essa e outras épocas.
Havia no tempo da invasão francesa, dois irmãos nobres, um dos quais titular. Escuso os nomes. Um deles, o mais velho, acompanhou a Corte ao Rio de Janeiro, onde fez… o mesmo que ali fazia a corte. O segundo ficou servindo o reino, distinguindo-se na campanha, e derramou o seu sangue em abono do seu patriotismo. Terminada a guerra, o mais velho escreveu ao outro ‘participo-te que Sua Majestade foi servida conceder-me uma comenda. Espero que te regozijes com o novo lustre que esta mercê traz à nossa casa’! O segundo respondeu-lhe ‘agradeço-te a comunicação que me fazes. Estimo muito que alcances por lá o que eu mereci por cá’!
Que época se nos afigura hoje mais opulenta e magnificente do que a do Senhor rei D. João V? Quem não dirá que, então, o povo nadava na abundância?
Mas olhemos para ela mais de perto; tomemos por guia o Visconde de Santarém, no seu Quadro Elementar. Quer esta Academia ver qual o estado da fazenda pública e da administração nesse tempo? Eu o resumo, então. Não chegava a uma quarta parte das rendas públicas aos cofres do estado, tais eram os canais subterrâneos por onde passavam!… Não é minha a frase: empregam-nas as notas do nobre visconde de Santarém. Não se pagava aos empregados nem aos militares. Os oficiais requeriam ao governo licenças para irem servir como escudeiros nas casas nobres, para terem, ao menos, mesa posta. Tais eram, assim, as prosperidades. O estado tinha só quinze navios, a maioria desarmados. Os corsários argelinos davam caça às embarcações mercantes mesmo junto à barra de Lisboa! A rainha queixava-se de não dispor de meios suficientes para se sustentar, em Belas! Dois terços das rendas públicas estavam hipotecados! Multiplicavam-se as ambições, as corrupções e as intrigas. O agente francês Viganego participava ao seu governo que, na capital do reino, os frades pregavam do púlpito a insurreição ‘e não havia honra e virtude que estivesse a coberto da maledicência’! As freiras de Odivelas saíam do convento e insurreccionavam-se em comunidade com outras gentes e muitas foram as vezes que o governo mandou a cavalaria ao encontro da insurreição e as freiras fechavam-se na sua clausura a dali apedrejavam os cavaleiros! No meio destes desconcertos e desta geral penúria, levanta o rei o imenso edifício de Mafra! Monumento grandioso, convenho, mas não sei se o mais urgente para acudir às misérias do povo. Em todo o caso, duvido que semelhante modo de economia pudesse hoje sequer ocorrer! Levanta-se Mafra e vai para ali um general de cavalaria comandando mil e quinhentos cavalos e bestas da força do exército. Sabem para quê? Para puxarem os carros dos trabalhos! Levanta-se Mafra, e arrolam-se, monopolizam-se, transferem-se todos os operários do reino, de tal sorte que a mais ninguém é possível fazer obras! Levanta-se Mafra, e vêm numerosos artistas de fora, vencendo largas retribuições e honrarias. Vêm sinos de Paris e outros de Génova. Os carrilhões chegam de Amesterdão e de Anvers. Os paramentos vêm de Roma. Até o rei manda vir, também de França, os seus trajes e roupa, os dos príncipes reais, as baixelas, as carruagens, os móveis e ocupa nisso tudo o embaixador D. Luís da Cunha! Em Mafra ali se foram mais de dezoito milhões de cruzados anuais!…
E, como comunicava o abade Bernardes ao marquês de Alorna, aos operários, forçados a trabalhar exclusivamente naquela obra, devia o reino mais de seis milhões de cruzados!…
Houvera Deus por bem da pátria que chegasse o tempo e o rei que nos livrasse de mais outros exemplos! (…)

(também ‘houvera Deus’ que tais semelhantes não tivessem hoje tantas semelhanças!)

 

 

 

(ladrão endinheirado nunca morre enforcado)

4 comentários sobre “abusos no pretérito…

  1. Bartolomeu Fernandes 30 Março, 2019 / 18:29

    Dizes tu que o discurso é de 1859? Não te enganaste, não teria sido hoje de manhã?!…
    Abraço

  2. Pedro Soares 27 Março, 2019 / 12:11

    ´Muito bom. Elementos novos numa história que conhecemos e uma chamada (se quisermos) para os desmandos dos dias de hoje. Um abraço e Parabéns.

  3. tb 25 Março, 2019 / 20:13

    Até parece que foi ontem…
    Descobres cada tesouro!…
    Eu agradeço, claro!
    Abraço.

  4. Elisabete 24 Março, 2019 / 22:09

    eh eh eh… eu que vi (parte) no face, afinal vim aqui “à concórdia” do que dizes “das semelhanças”. Pois somos. Fico para saber quem fez o discurso – que bem cabia na AR hoje em dia! Abraços x 2

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