achatar o beque

Engolir sapos, ir à lã e vir tosquiado, passar de porqueiro a porco, dar com os burrinhos na água, dar com o navio nos cachopos, e umas mais tantas expressões ou frases feitas podem irmanar o sentido com esta. Em síntese será o que se aplica – o que se diz – a quem sofre as consequências de, por ingenuidade ou ignorância, dar um tropeço, ser facilmente enganado, actuar ou falar de modo achamboirado, imprudente.
A origem, sem qualquer dúvida, está nos tempos da marinhagem à vela (tal como ir na alheta, andar à toa, perder a tramontana e outras). Beque é, nos lugres, patachos ou caravelas, o mastil que, inclinado, sai na ponta da proa. Tal como, por analogia, nos sai o nariz da cara.
Achatar o beque é, literalmente, navegar de modo tão inepto que esbarre o beque em qualquer obstáculo. Por comparação dar (bater) com o nariz em qualquer trampalho. O que – no caso da penca -, salvo em situações muito concretas de imprevisíveis acidentes, o doloroso embate é quase sempre resultado de desgoverno, irreflexão ou destemida imprevidência.
Aceitemos, no entanto, que alguma dose de imprudência sempre esteve associada aos passos da Humanidade. ‘Imprudência é o único sentimento que pode inspirar as nossas vidas e que não tem argumentos para se defender’, escreveu Françoise Sagan.
O que é mais do que suficiente para achatar o beque aos mais conservadores.

(na fotografia, o patacho Ana Maria, à entrada do rio Douro, em 1957)

 

 

 

(não sejais forneira se tendes cabeça de manteiga)