otário

(…) – Com aquela bronca na Bolsa, o Armando arranjou uma encrenca dos diabos!… – ia passando o polegar e o indicador unidos, por aquele bigode, tipo escova de dentes.
Ó pá!, tem dó! Ele é que meteu o cachaço na corda. O teu cunhado é um otário chapado!... – atirou-lhe o outro, assim, sem meias tintas. (…)
virtudes do avesso, in Péssanga

Consensualmente um otário é um tolo, ingénuo, crédulo, papalvo, ou seja, uma vítima fácil para qualquer trapaceiro. Cabe referir anjinho, uma outra gíria sinónima.
Quanto à origem, ao contrário do que possa parecer numa primeira pesquisa, não é fácil. Dir-se-á que talvez seja mais correcto dizer que não será de todo assertiva qualquer opção das que se propõem.
Os dicionários referem ser uma espécie de crustáceos ou, então, género de mamíferos carnívoros pinípedes, que habitam as regiões geladas dos mares do Norte e do Sul e cujo tipo é a otária. Além disso apenas acrescentam mais uns quantos sinónimos de tanso.
Há quem proponha uma origem castelhana, mas por aí não se vai além do gila, tonto ou imbecil, afinal sinónimos da preposição que a nossa gíria indica.
Por esta via, a tentativa de solução pela incursão nos sinónimos leva-nos a situações, por vezes, hilariantes. Otário é um trouxa. Ora trouxa pode conduzir-nos ao universo do Harry Potter, já que trouxa é a pessoa dita normal, aquela que não teve o privilégio de nascer no seio de uma família de mágicos (para os entusiastas desta saga, os pais de Hemione eram trouxas). Se conhecer alguém ligado à polícia, qualquer experimentado agente dir-lhe-á que otário é toda a pessoas comum, sem ficha ou antecedentes criminais. Mais esta: o vírus de Otário, conhece? É o nome, em Português, que se generalizou para designar os badalados HOAX (embustes) que são mensagens electrónicas criadas por internautas de muita imaginação, mas pouco trabalho, com o único e básico intuito de fazer de otários aqueles que recebem as suas parvoíces, levando-os a reenviar para todos os seus amigos e conhecidos, originando assim uma torrente de milhares de mensagens a circular inutilmente na rede, mas que na realidade acabam por criar constrangimentos diversos, por vezes graves. São vulgares os assuntos do tipo ‘cuidado’, ‘atenção’, ‘desapareceu’, ‘avise os seus amigos’. Estes vírus têm raízes de diverso tipo, embora na sua maioria apelem ao sentimento ou ao sensacionalismo ou, por vezes, à falsidade ou deturpação de notícias mais ou menos relacionadas com actualidades.
Mas, por este caminho, é verdade que também encontramos uma das soluções propostas. O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1955) diz que palerma (um admissível sinónimo de otário) ‘é m. f. e adj., pessoa tola, néscia, imbecil, pacóvia, idiota. Terá alguma relação com a localidade de Palermo? Não há referências históricas conhecidas’. Por aqui haverá alguma correlação de palerma com otário? Intrincada, mas há! Se se considerar a similitude e, daí, a derivação, entre palerma e Palermo, assim como otário com Ontário. Palermo é uma antiquíssima localidade (hoje aglutinada em Oakville), perto de Toronto, na província de Ontário, no Canadá. Os naturais de Palermo seriam, pois, cidadãos de Ontário. A cacafonia é sugestiva e apelativa. E a presença portuguesa naquela zona, mais assiduamente na época dos lugres bacalhoeiros, também, já que a poderiam ter trazido. No entanto parece-me um tanto (ou muito…) forçada.
A proposta mais linear: o que é uma otária? È um pinípede (ordem de mamíferos aquáticos, carnívoros, com membros espalmados e adaptados à natação), da família Otariidæ, mais conhecidos por lobos ou leões marinhos, A norte e a sul (mais frequentemente na costa canadiana e Argentina ou Chile) estes animais não são esquivos, por isso facilmente tendem a socializar. Permitindo a aproximação humana, tornaram-se presa expectável e acessível ao abate para a comercialização das suas peles. Esta característica docilidade dos animais teria feito com que os caçadores, por associação, designassem por otárias as pessoas mais desatentas com os perigos ou com o aproveitamento alheio.
Mais linear e, neste caso, mais consistente esta proposta.
Decida-se: agora escolha.
A este propósito escrevia a amiga Rita Ferreira supor que ‘otário deverá ser uma gíria, um jargão de qualquer lado’. Lembrando uma célebre sentença do professor Vasco Botelho de Amaral, ‘a língua portuguesa não tem sinónimos’, vejamos então quais as diferenças entre gíria e jargão.
A primeira (gíria) refere essencialmente um falar com pouca ou nenhuma erudição, rude, desconexado ou com associação enviesada, mas não com exclusividade de uma região ou de uma actividade. Presumivelmente terá origem no grego gýroma (bola, redondo e encurvado), passado através de do latim girare (dar voltas).
Por sua vez, jargão, tal com o jergo espanhol, descendem do jargon francês que diz ser palavreado próprio dos trabalhadores de um ofício, o que é, exactamente, a sua explicação em língua portuguesa. Curiosamente, o espanhol tem jeringonza para o mesmo sentido, acrescentado ser ‘linguagem difícil de entender ou acção ridícula ou estranha’. Palavra que, em Português, originou geringonça, inicialmente com o sentido de ‘confusão, fala ininteligível, objecto de nome desconhecido’ e que, actualmente, fixou o seu sentido apenas em ‘objecto estranho de funcionamento incerto e imprevisível’.
Voltando ao jargão, a origem não é muito consensual. Há estudos que apontam para o latim gergo, que teria derivado do grego hyerós (sagrado), o que levaria a concluir ser uma linguagem dos iniciados. Hoje é usada para definir o linguajar próprio de uma actividade, seja ela profissional ou não. Por isso, restrito.
Outrossim, sendo então diferentes, têm um ponto comum: por uma ou outra via, gíria ou jargão, é o uso de vocábulos ou siglas, que afinal têm por objectivo abreviar e tornar mais rápido e ou singular o entendimento de qualquer coisa, lugar, acção ou pessoa.

(otária, na fotografia da National Geographic)

 

 

 

(quem tolo vai a Santarém, tolo vem)

10 comentários sobre “otário

  1. Olinda Melo 12 Abril, 2019 / 17:20

    Uma teia, amigo Jorge! E como se desembaraça tão bem. Eu é que tenho de ler e reler essas pesquisas para assimilar toda essa informação. As voltas que uma palavra dá! Desculpe mas não me contenho, só sei fazer frases exclamativas, neste contexto. :)))
    Abraço
    Olinda

    • jorgesteves 14 Abril, 2019 / 18:27

      Gostei das exclamativas; deu para sorrir, claro.
      Obrigado, amiga Olinda.
      Abraço.
      jorge

  2. Bartolomeu Fernandes 9 Abril, 2019 / 15:04

    Não sabia. Sabia é que és um furão nestas coisas de descobrir o que nem o diabo sabe.
    Já sabes que estou sempre à espera de mais.
    Abraço, amigão

    • jorgesteves 14 Abril, 2019 / 18:25

      Olha que não escrevi sobre furões; foi sobre otários!…
      (ora diz lá que esta não foi bem artilhada…)
      Abraço.
      jorge

  3. Fernanda Pereira 5 Abril, 2019 / 17:17

    Este Coisas do Arco-da-Velha é sem dúvida uma referência histórica e linguística. E só me dá razão quando lhe disse que uma segunda edição do seu livro é obrigatória, Jorge.
    No próximo mês, como já lhe falei, vamos combinar a sua vinda cá para a Conversa prometida. Obrigado, amigo.

    • jorgesteves 14 Abril, 2019 / 18:23

      A segunda edição vai ficar para as calendas. As Coisas do Arco-da-Velha, por enquanto vão andando por estas bandas…
      Espero o seu contacto, claro. Terei todo o prazer.
      Abraço.
      jorge

  4. Justine 5 Abril, 2019 / 15:58

    Acabei de ler o teu texto, Jorge, mas vou lê-lo mais algumas vezes, pois os caminhos propostos, as derivações, as pistas são de tal modo ricos que merecem ser estudados.
    Um primor de pedagogia, amigo. Quem disse que os livros de história da língua eram necessários?
    P.S.: acho as otárias um encanto! Já os otários…
    Abracinhos

    • jorgesteves 14 Abril, 2019 / 18:21

      Espero que te dê um agradável entretenimento, amiga!
      Os otários, esses, os outros, de facto têm pouco encanto…
      Abraço.
      jorge

  5. Sandra Sá Pereira 3 Abril, 2019 / 21:39

    Isto sim é trabalho! Nem imagino por onde andou em pesquisas! Obrigado Jorge é um grande prazer vir aqui saborear estas belissimas e curiosas lições. Um grande abraço.

    • jorgesteves 14 Abril, 2019 / 18:18

      Nem é para imaginar! Obrigado pelas simpáticas palavras, Sandra. Ao dispor.
      Abraço.
      jorge

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