D. Pedro I casou ou não com Inês de Castro?…

Entre as mensagens que vou recebendo a propósito de Coisas do Arco-da-Velha, pareceu-me pertinente e interessante uma questão que dizia (…) se D. Pedro efectivamente casou com D. Inês, o que aconteceu para que houvesse uma confusão no direito de sucessão? (…)
A verdade é que se há episódios de amor sobre os quais a poeira dos séculos não os tenha feito votar ao esquecimento, nenhum, para os portugueses, se acha mais vivo e mais empolgante do que o dos malogrados amores de Pedro e Inês. De alguma forma, até o génio de Camões contribuiu decisivamente para que o drama da que depois de morta foi rainha se perpetuasse pelos tempos e, até, transcendesse as fronteiras pátrias. Apesar da morte de Inês de Castro ser um facto muito escrito e divulgado, isso não impede (ou talvez por isso…) que o seu conhecimento deixe de se revestir de alguns erros, mais ou menos grosseiros.
Ora vamos lá aos factos…
Durante a vida e reinado do pai (Afonso IV, o aclamado Bravo do Salado), Pedro casou-se duas vezes: a primeira, com a infanta castelhana D. Branca de Castela, que viria a repudiar pouco tempo depois, sob o pretexto oficial de esterilidade; com a segunda os factos complicam-se e, aqui, talvez seja atilado fazer um pequeno, mas importante parêntesis.
(
Afonso IV de Portugal, pai de D. Pedro, tinha uma filha, D. Maria, que viria a casar com um outro Afonso, este XI de Castela que, passados que foram os cerimoniais do casamento, infligia maus tratos à esposa, ao que, parece, não seria alheio ao desvario do rei por uma tal D. Leonor de Gusman. Mas isso já é outra história…
Ora, por ver a sua filha, D. Maria, rainha de Castela a sofrer agruras no casamento, D. Afonso IV não quis ir buscar a segunda esposa para o filho ao seio da família real castelhana. Com a intenção clara de humilhar o genro (o outro Afonso, XI de Castela) escolheu para nora a filha de D. João Afonso, um dos fidalgos mais poderosos, mas com quem o rei – o Afonso de Castela – andava de candeias às avessas.
..)
Esclarecido e ressaltado este ponto, voltemos à história: a segunda esposa de D. Pedro foi, então, D. Constança (a filha do tal D. João Afonso), com quem viria a casar em Agosto de 1340. Com ela vieram as aias, todas elas bonitas, lindas ao ponto de deslumbrarem os fidalgos da Corte que, amorosos, volitavam em torno delas como pirilampos ao redor da luz. Entre elas destacava-se uma, de ‘longos e sedosos cabelos dourados, como se neles se tivesse fixado o sol, feições finas e altivas, pela majestade do porte senhoril, pela estatura mais elevada que o normal das mulheres portuguesas, pelo busto esbelto e forte, que fez com que, desde logo, os poetas da Corte lhe chamassem a colo de garça‘…
Chamava-se Inês Pirez de Castro(1) a bela galega que, diziam, descendia de Reis.
Na verdade, ela tinha outra irmã (que, curiosamente, também viria a conhecer um trágico destino...), de nome Joana, que apesar de bastarda, era neta de Sancho, de Castela. Mais uma história…
Como é sabido, Pedro entrou em desvario pela bela dama e não quis – ou não soube – esconder, a sua inclinação. D. Constança procurou, com o subterfúgio de criar um parentesco espiritual tornando Inês Castro madrinha do seu primogénito varão (D. Luís, que viria a falecer ainda criança), obviar à onda avassaladora da paixão do marido pela bela galega. Todas as tramas e trabalhos foram em vão. Afonso IV desterra Is e Constança morre de parto aquando do nascimento de Fernando (que viria a ser o último rei da dinastia afonsina). Ainda não haviam terminado os elogios fúnebres à princesa, já Pedro faz com que a amante volte a Portugal, em clara desobediência à decisão paterna, ‘passando os dois apaixonados a viver fazendo maridança‘.
O resto é mais ou menos conhecido: D. Afonso IV que havia pegado em armas contra o pai (D. Dinis) pelos (infundados) receios de que o seu irmão bastardo(2), em conluio com o pai, o viesse a prejudicar na sucessão do trono, não encara com bons olhos tudo que fosse… filhos bastardos!
E, pior ainda, ele sabia que a Castro tinha dois irmãos ambiciosos, que exploravam as relações dela com o herdeiro da coroa portuguesa. Ora, juntando bastardos com galegos, para Afonso IV, não podia haver pior…
Estão explicadas as razões que levaram à morte de Inês. Claro que, aqui, a lenda mistura-se com os factos, embora que, convenhamos, sem muita relevância para História. Conta-se que Inês, acompanhada pelos três filhos pequenos apela ao rei, que a morte é executada pelos três (ou por qualquer um deles) conselheiros de Afonso IV (Diogo Lopes Pacheco, Álvaro Gonçalves ou Pero Coelho), entre outras histórias. Na verdade, Inês de Castro não volta à presença do rei desde que foi por ele desterrada e sucumbe às mãos do carrasco da cidade de Coimbra.
Também é mais ou menos conhecida a reacção de Pedro. Com algumas nuances e outras tantas omissões. Mas já lá vamos…
Quando subiu ao trono, Pedro I (o Até-ao-Fim-do-Mundo-Apaixonado, como chegaria a ser cognominado), jamais se referiu ao seu suposto casamento com Inês. Três anos mais tarde, então, viria a declarar e jurar sobre os Santos Evangelhos que, na verdade, teria casado secretamente, em Bragança, ainda na regência de seu pai Afonso. Ora, anos antes, quando O Bravo soube que Inês voltara do desterro e estava em Coimbra onde, assiduamente, se encontrava com Pedro, também lhe disseram correrem rumores que D. Pedro casara com Inês, em segredo. Para averiguar a que ponto isso era verdadeiro, o manhoso monarca, temente do perigo que corria a sucessão, sugeriu ao filho o casamento com Inês. ‘Não me peça mais casamento para que não haja ocasião de lhe desobedecer, como não desejo‘ teve como resposta
(3).
Continuando o que dizíamos atrás, feita a declaração por D. Pedro, levantaram-se autos das declarações e não foi difícil encontrar aceitação nos dóceis cortesãos, todos sabendo bem o carácter violento e desequilibrado do rei. Talvez receando que as suas declarações fossem, mais tarde, contestadas o monarca indicou o
bispo da Guarda, que os teria casado, e Estêvão Lobato, fidalgo que teria testemunhado o acto. O casamento, esse, ter-se-ia efectuado num dia 1 de Janeiro, data bem firme na memória de Estêvão Lobato mas que, nem o apaixonado Pedro nem o bispo da Guarda se recordavam…
Se fosse outro dia qualquer, o esquecimento talvez não fosse tão estranho assim; mas, o dia 1 de Janeiro, que marcava uma festa tão comemorada, quer nos Paços Reais, quer nos lares mais humildes e assim esquecido ao cabo de um período tão curto…
A verdade é que, na época, o inconsistente boato do casamento, teve vida efémera, depressa caiu no esquecimento. Crê-se que o propalado casamento secreto de D. Pedro com D. Inês, só proclamado três anos depois da subida ao trono, não passou de uma falsidade, talvez com o intuito de D. Pedro garantir a sucessão por um dos seus bastardos se, porventura, o atrofiado D. Fernando não vingasse e viesse a falecer criança.
Para a História fica que D. Fernando, embora morresse jovem (com 37 anos) , haveria de ser cognominado O Formoso. Mesmo que, outrossim, o houvessem apelidado de O Inconsciente.
Outra história, é claro…

(1) Dá-se a coincidência (ou não…) da bela Inês ser filha Aldonça Lourenço, sendo esta irmã de Branca Lourenço. Branca Lourenço que foi mãe de Maria Afonso, filha bastarda de D. Dinis (pesquise aqui o artigo ‘Crime com 700 anos’)
(2) – Pesquise aqui o artigo ‘Pedro Afonso’
(3) do cronista de D. Pedro, o padre José Casimiro Bayam.
(no início do artigo, fotografia do túmulo de Inês de Castro, Mosteiro de Alcobaça) 

.

 

 

(onde vistes vós amor guie-se vós por razão)

a propósito…

As efemérides, os dias disto, daquilo e daqueloutro, são o que são, valem o que valem e não sou eu (nem tão-pouco para isso ‘tou virado…) que as vou discutir. Mas, a verdade, é que por vezes, e a propósito delas, dá um certo jeito trazer uma ou outra lembrança à baila…
Maio, é um mês, dos doze do calendário, como qualquer outro. Podia ter sido antes ou depois, mas se foi em Maio que me lembrei…
No começo da década de sessenta do século passado, por esta altura, ainda estavam bem vivas as feridas do terramoto de Agadir; enquanto Kruchtchev ia a Paris trocar umas palavrinhas com De Gaulle, morria Albert Camus, Fellini estreava, em Roma, a sua La Dolce Vita e os jornais anunciavam o noivado oficial da princesa Margarida, de Inglaterra.
Uma princesa, ainda era (naqueles tempos de livre pensamento e de repúblicas…) um distante mas estimável assunto decorativo que ajudava a esquecer as oito horas de trabalho, as agruras da fome e da resignação. Curioso que, no fim do século XVIII, quando Maria Antonieta atravessava Paris, era apupada pela populaça; em meados do século XX, a princesa Margarida atravessa a mesma Paris (mas , agora, republicana…) e é aclamada pela mesma multidão.
As voltas que a Vida dá! Acha? Nem tanto, nem tanto…
A revolução industrial inglesa (essa mesma de que tanto se fala, mas tanto se cala que foi feita à custa do ouro que os portugueses traziam dos Brasis…) e a revolução política francesa, é verdade que tiveram tudo para mudar a face da sociedade humana. Dir-se-ia que estavam ali todos os ingredientes para o cadinho de uma sociedade mais equilibrada, mais justa, mais solidária, mais fraterna. Parecia que do feudalismo e da opressão apenas restavam longínquas referências asiáticas. As desigualdades certamente se iriam diluir com os reis que, um a um, lá iam fazendo as malas para o exílio ou, na melhor das hipóteses, se contentavam com uma figura (triste) meramente decorativa.
Mas enganou-se quem assim julgou a capacidade imaginativa do género humano. Morreu o rei? Viva o rei!…
Talvez, necessariamente, tudo seja diferente, para que possa ser tudo igual. Ou, se quisermos ser condescendentes, igual não, mas semelhante.
Outros tomaram os lugares dos reis, dos príncipes, dos duques, condes e barões. Que se desviam das misérias, sentem-se senhores do mundo, apagam a luz quando qualquer problema os perturba e não ambicionam mais nada do que ambicionar ainda mais, e tudo isto enquanto a turba ainda não percebeu que, mais uma vez, o rei vai nú


E porque aos costumes se disse que aqui é lugar de apropositados aforismos, achei bom completório este burlesco dito, que ainda se ouve pelas aldeias do Alto Minho:
Guarde-vos Deus da ira do senhorio, do alvoroço do povo, da moça adivinha e de mulher ladina, de pessoa assinalada, de mulher três vezes casada, de homem conflituoso em caminho, de longa enfermidade, de médico experimentador e asno ornejador mais vigarista que seja doutor, do oficial novo e barbeiro velho, de amigo reconciliado e vento encanado, de hora minguada e de gente que não tem nada.
Por hoje está tudo dito.

 

 

 

(néscio é quem cuida que o outro não cuida)