a propósito…

As efemérides, os dias disto, daquilo e daqueloutro, são o que são, valem o que valem e não sou eu (nem tão-pouco para isso ‘tou virado…) que as vou discutir. Mas, a verdade, é que por vezes, e a propósito delas, dá um certo jeito trazer uma ou outra lembrança à baila…
Maio, é um mês, dos doze do calendário, como qualquer outro. Podia ter sido antes ou depois, mas se foi em Maio que me lembrei…
No começo da década de sessenta do século passado, por esta altura, ainda estavam bem vivas as feridas do terramoto de Agadir; enquanto Kruchtchev ia a Paris trocar umas palavrinhas com De Gaulle, morria Albert Camus, Fellini estreava, em Roma, a sua La Dolce Vita e os jornais anunciavam o noivado oficial da princesa Margarida, de Inglaterra.
Uma princesa, ainda era (naqueles tempos de livre pensamento e de repúblicas…) um distante mas estimável assunto decorativo que ajudava a esquecer as oito horas de trabalho, as agruras da fome e da resignação. Curioso que, no fim do século XVIII, quando Maria Antonieta atravessava Paris, era apupada pela populaça; em meados do século XX, a princesa Margarida atravessa a mesma Paris (mas , agora, republicana…) e é aclamada pela mesma multidão.
As voltas que a Vida dá! Acha? Nem tanto, nem tanto…
A revolução industrial inglesa (essa mesma de que tanto se fala, mas tanto se cala que foi feita à custa do ouro que os portugueses traziam dos Brasis…) e a revolução política francesa, é verdade que tiveram tudo para mudar a face da sociedade humana. Dir-se-ia que estavam ali todos os ingredientes para o cadinho de uma sociedade mais equilibrada, mais justa, mais solidária, mais fraterna. Parecia que do feudalismo e da opressão apenas restavam longínquas referências asiáticas. As desigualdades certamente se iriam diluir com os reis que, um a um, lá iam fazendo as malas para o exílio ou, na melhor das hipóteses, se contentavam com uma figura (triste) meramente decorativa.
Mas enganou-se quem assim julgou a capacidade imaginativa do género humano. Morreu o rei? Viva o rei!…
Talvez, necessariamente, tudo seja diferente, para que possa ser tudo igual. Ou, se quisermos ser condescendentes, igual não, mas semelhante.
Outros tomaram os lugares dos reis, dos príncipes, dos duques, condes e barões. Que se desviam das misérias, sentem-se senhores do mundo, apagam a luz quando qualquer problema os perturba e não ambicionam mais nada do que ambicionar ainda mais, e tudo isto enquanto a turba ainda não percebeu que, mais uma vez, o rei vai nú


E porque aos costumes se disse que aqui é lugar de apropositados aforismos, achei bom completório este burlesco dito, que ainda se ouve pelas aldeias do Alto Minho:
Guarde-vos Deus da ira do senhorio, do alvoroço do povo, da moça adivinha e de mulher ladina, de pessoa assinalada, de mulher três vezes casada, de homem conflituoso em caminho, de longa enfermidade, de médico experimentador e asno ornejador mais vigarista que seja doutor, do oficial novo e barbeiro velho, de amigo reconciliado e vento encanado, de hora minguada e de gente que não tem nada.
Por hoje está tudo dito.

 

 

 

(néscio é quem cuida que o outro não cuida)

8 comentários sobre “a propósito…

  1. Justine 14 Maio, 2019 / 17:17

    Sempre poços de sabedoria, os ditos populares. E ainda mais, os ditos populares minhotos!!
    Assim como as reflexões do teu texto, que dão que pensar!

    • jorgesteves 17 Maio, 2019 / 21:41

      Para ir pensando, devagarinho…
      Obrigado, amiga.
      Abraço.
      jorge

  2. tb 12 Maio, 2019 / 14:31

    Está tudo dito e muito bem dito!
    Um pedaço de boa escrita que parecendo a brincar aborda coisas tão sérias…
    Gostei muito.
    Grata pela partilha deixo abraços.

    • jorgesteves 17 Maio, 2019 / 21:40

      Obrigado, Teresa. Uma forma mais suave de dizer verdades, é?…
      Abraço.
      jorge

  3. Fátima Sousa 11 Maio, 2019 / 18:35

    Já percebi que não és monárquico e és um republicano descrente.
    Viva o Rei!

    • jorgesteves 17 Maio, 2019 / 21:38

      Nem mais, Fátima!
      Abraço, Viva!
      jorge

  4. Teresa Gomes 11 Maio, 2019 / 11:28

    Curiosa e divertida a comparação entre a Antonieta e a Margarida. Todo o texto é uma beleza de ironia, Jorge. Mas tenha paciência, o dito lá dos seus lados minhotos ganha aos pontos. Fartei-me de rir! Obrigado.

    • jorgesteves 17 Maio, 2019 / 21:37

      Divertido, sim, e não o publiquei todo!…
      Grato, eu, amiga.
      Abraço.
      jorge

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