estar à brocha

Estar à brocha, amiga Alexandra, tem razão quando considera que não é uma frase feita a partir de um jargão. De facto não é. A sua dúvida, no entanto, torna-se sem solução porque deriva de um pressuposto enviesado, consequente de um caso homófono; brocha e broxa. Broxa, sim, pincel de pintura grosseira ou de caiação, é que não parece – e não é – o miolo da origem deste dito que se crê de raiz nortenha. Daí a sua perplexidade (…) o que é que um pincel tem a ver com estar aflito? (…). 
Nesta caso, será, então, brocha. Que, é bom que se diga, tem várias significações: pode ser a lingueta que segura a roda, na extremidade do eixo, nos antigos carros de tracção animal; no Minho também é a correia ou tira de couro ou de pano que segura as tamancas ou os socos e – esta é que importa – é a correia de couro que liga a canga ao pescoço do boi.
Ora, qual é o sentido genérico da expressão? É, como sabemos, estar em aflições, em dificuldades, em quaisquer situações mais ou menos críticas ou angustiosas.
Estar à brocha é estar em circunstâncias de dificuldades psicológicas, mas também no meio de entaladelas físicas. Que é o caso dos bois quando acontecia terem de puxar os carros excessivamente carregados na parte traseira, o que originava que a correia (a brocha) que os cinge por baixo da barbela, esticando-se, lhes provocasse um tormentoso sufoco.
Ficavam à brocha!…

 

 

 

(a carga bem se leva, a sobrecarga é que pesa)

a Justiça
mas calma!… com mais de 400 anos.

Noticia a Gazeta de Lisboa que a senhora Antónia da Costa foi a casa de um corregedor da cidade para tratar de um negócio de família, e como nesse ano (a notícia é de 1607) se ‘estava cumprindo a pragmatica contra o luxo’, um alcaide abelhudo atreveu-se a querer levantar as saias à senhora Antónia da Costa, para modos de verificar se ela trazia rendas proibidas pela pragmatica. A mulher, que tinha brios, pespegou na face do alcaide uma boa bofetada. O corregedor, tendo conhecimento do caso, condenou a mulher por usar rendas, e pela bofetada no alcaide. A ofendida recorreu para a relação e os juízes proferiram a seguinte sentença, bem sentenciosa, por sinal:
Acordam em Relação: – Não é bem julgado pelo corregedor Francisco Gomes Loureiro condenar a ré Antónia Costa em 4.000 réis para captivos e alcaide, pelas barras do manteo, por quanto não houve fé de escrivão que lhas visse; e outro si não foi por ele bem julgado condenar a ré em 5.000 réis pela bofetada dada no alcaide, por quanto foi bem dada pela defensão da sua honra. Revogando sua sentença por todos os seus fundamentos e o mais dos autos, visto como se mostra a ré ser mulher casada e honrada, assim por sua pessoa como por seu marido, mostra-se mais ser o alcaide tão desacatado, com tão pouco senso, que quis levantar a saia a uma mulher casada, o que se não sofre. Absolvem a ré dos 4.000 réis da cadeia, e condenam ao alcaide em 2.000 réis para os seus captivos e nas custas que ela e seu marido fizeram; e outro si a absolvem da bofetada que deu, muito bem merecida, ao alcaide por este ser mal ensinado. E vós, corregedor, para que outro dia saibais atentar pela honra das mulheres que forem a vossa casa, vos condenam em 4.000 réis para as despesas da relação, e outro dia vos não aconteça fazer outra tal, porque o ha-de saber Sua Magestade, e então não passareis com 4.000 réis de pena.
Lisboa, Relação, 23 de Agosto de 1607, – Gaspar Lançarote Leitão.

 

 

 

(Deus Nosso Senhor nos livre de justiças novas e de chaminés velhas)