São João, o santo que assim nasceu

Proveniente de mitos e festas solares ligados ao solstício de Verão, nas festividades de S. João ainda sobrevivem alguns vestígios desses antiquíssimos rituais, ligados ás colheitas e ao fogo, embora a Igreja se tenha assenhoreado dessas tradições procurando dar-lhe um cunho religioso.
Curiosa a festividade deste santo que, ao contrário de todos os outros santos, festeja o seu nascimento. A razão é simples: quando nasceu todos sabiam que seria santo…
Conta S. Lucas, que no tempo de Herodes, rei da Judeia, vivia um velho sacerdote de nome Zacarias, casado com Isabel, ambos fieis obedientes à Lei do Senhor. Diz ainda o Evangelho, que Zacarias e Isabel viveram muitos anos, felizes, sem filhos, porque Isabel era estéril. Um dia, dito que seria a Zacarias para oferecer o incenso no Templo do Senhor, o velho sacerdote quando levantava ao Céu as suas orações recebeu a visita de um Anjo que lhe disse: ‘Tua mulher irá dar à luz um filho e a ele chamarás João. Serás feliz e, com esse nascimento, essa alegria e essa satisfação será transmitida a muitos outros. João será Escolhido, porque será grande diante do Senhor e será cheio do Espírito Santo, desde o ventre de sua Mãe. Converterá muitos filhos de Israel ao Senhor seu Deus’. Assim diz S. Lucas. E Zacarias, assombrado com tão santa aparição, não se conteve que não perguntasse: ‘Mas como pode acontecer tal coisa, se eu estou cansado pela idade e minha mulher também?’ . O Anjo respondeu-lhe, então: ‘Eu sou Gabriel, que assisto a Deus, e fui mandado de propósito para te dar a nova e tu não acreditaste. Então ficarás mudo até ao dia em que João nascer e, nesse momento, voltarás a falar, para dar graças ao Senhor Deus, que tudo pode e tudo sabe.’. Assim se passaram os acontecimentos. Nove meses depois nasceu um menino, e todos os amigos e conhecidos de Zacarias supuseram que iria ter o nome do pai. Mas a mãe repetia e repetia sem cessar que o nome de João seria dado ao filho. E como não havia na família parente próximo ou afastado com tal nome, tudo ficava a cismar onde teriam ido buscar tal ideia. A mãe insistia e o pai, mudo, abanava a cabeça em sinal de aprovação. Agarrando uma tabuinha, diz o Evangelho, escreveu nela: ‘João é seu nome’. E, diz S. Lucas, por milagre do Senhor, Zacarias voltou a falar e agradeceu a Deus, perante o pasmo de toda a gente.
Tinha nascido S. João Baptista.
A ele, claro, o povo, na sua forma simplista mas tantas vezes cheia de ensinamentos de estranha profundidade, associou um infindável cotejo de adágios, crenças e dizeres. O Rifoneiro está cheio de provérbios alusivos ao tempo e às colheitas. O bom ou o mau tempo, o sol e a chuva espera-se que sejam doseados de forma certa para que a colheita seja farta e o ano não seja de fome. Há adágios em que o Santo nos aparece a marcar a época para determinados trabalhos ou para realçar algum aspecto da vida das pessoas ou do ambiente. E, quase sempre, na meia dúzia de palavras que geralmente compõe um provérbio, há muita vez conceitos de grande simbologia.
O povo sabe que ‘galinhas do S. João, pelo Natal poedeiras são’, da mesma forma que, saltando para a Botânica, também assegura que ‘ouriços no S. João, são do tamanho de um botão’.
Sem querer lembrar todos os adágios que referem S. João (muitos já aqui foram publicados), fico-me por este, muito curioso, pela característica que o reveste: ‘ S. João e S. Miguel passados, tanto mando o amo como o criado’. A explicação, dos hábitos de antanho no Minho, era esta: quando um senhor pretendia despedir um caseiro, dava-lhe parte em Junho para que ele abandonasse pelos Santos (isto é, no começo de Novembro) a casa dos patrões. Durante esse tempo, o criado está sossegado, porque, não podendo ser despedido, fica tranquilo durante alguns meses e é, por assim dizer, ‘patrão por algum tempo’
Coisas de outros tempos, claro!…

 

 

 

(seja lá qual for o santo, ora pro nobis)

a Justiça
mas calma!… com mais de 400 anos.

Noticia a Gazeta de Lisboa que a senhora Antónia da Costa foi a casa de um corregedor da cidade para tratar de um negócio de família, e como nesse ano (a notícia é de 1607) se ‘estava cumprindo a pragmatica contra o luxo’, um alcaide abelhudo atreveu-se a querer levantar as saias à senhora Antónia da Costa, para modos de verificar se ela trazia rendas proibidas pela pragmatica. A mulher, que tinha brios, pespegou na face do alcaide uma boa bofetada. O corregedor, tendo conhecimento do caso, condenou a mulher por usar rendas, e pela bofetada no alcaide. A ofendida recorreu para a relação e os juízes proferiram a seguinte sentença, bem sentenciosa, por sinal:
Acordam em Relação: – Não é bem julgado pelo corregedor Francisco Gomes Loureiro condenar a ré Antónia Costa em 4.000 réis para captivos e alcaide, pelas barras do manteo, por quanto não houve fé de escrivão que lhas visse; e outro si não foi por ele bem julgado condenar a ré em 5.000 réis pela bofetada dada no alcaide, por quanto foi bem dada pela defensão da sua honra. Revogando sua sentença por todos os seus fundamentos e o mais dos autos, visto como se mostra a ré ser mulher casada e honrada, assim por sua pessoa como por seu marido, mostra-se mais ser o alcaide tão desacatado, com tão pouco senso, que quis levantar a saia a uma mulher casada, o que se não sofre. Absolvem a ré dos 4.000 réis da cadeia, e condenam ao alcaide em 2.000 réis para os seus captivos e nas custas que ela e seu marido fizeram; e outro si a absolvem da bofetada que deu, muito bem merecida, ao alcaide por este ser mal ensinado. E vós, corregedor, para que outro dia saibais atentar pela honra das mulheres que forem a vossa casa, vos condenam em 4.000 réis para as despesas da relação, e outro dia vos não aconteça fazer outra tal, porque o ha-de saber Sua Magestade, e então não passareis com 4.000 réis de pena.
Lisboa, Relação, 23 de Agosto de 1607, – Gaspar Lançarote Leitão.

 

 

 

(Deus Nosso Senhor nos livre de justiças novas e de chaminés velhas)