Diógenes e a Dialéctica

A propósito dos seus conceitos filosóficos, conta-se amiúde que, vestido de trapos e de lanterna na mão, deambulava pela cidade à procura de um verdadeiro homem. Ou, quando Alexandre da Macedónia o interpelou, na rua, perguntando-lhe o que mais desejava; como Alexandre lhe tapasse o sol, respondeu-lhe não me tires o que não me podes dar.
Há, porém, uma outra história pouco conhecida…
Um dia, numa das ruas da cidade, um homem armado com um enorme pau corria, em fúria desordenada sobre outro, a gritar:
– Agarra! Agarra!…
Diógenes, que por acaso se encontrava no caminho, desviou-se para que o fugitivo melhor corresse. Furioso, o homem do varapau, increpou-o:

– Você é doido?!… Por que não o agarrou?! É um assassino!
– Um assassino? – volveu-lhe o filósofo – E o que é um assassino?…
– Assassino é um homem que mata…

– Um magarefe?!…
– Não se faça de tolo! Assassino é um homem que mata outro homem!
– Um soldado…
– Não!, claro que não! Um homem que mata outro, mas em tempo de paz!
– Ah!, um carrasco…
– Mau! É néscio?!… Um homem que mata outro na sua própria casa…
– Ah!, então já sei: médico!
Por fim o homem compreendeu a inutilidade de prolongar a discussão, soltou um praga e foi, novamente, em perseguição daquele a quem chamava assassino… 

 

 

 

(não haveria má palavra se não fosse mal tomada)

Os ‘pês’ do rei D. Carlos

Desde Fernão Lopes, Damião de Góis e Alexandre Herculano que os reis portugueses deixaram a glória e o Olimpo e passaram, como deviam, a ser uns sujeitos normais, contextualizados nas suas épocas, na verdade com muitos mais defeitos de que qualidades. Salvo honrosas excepções. Poucas, diga-se…
Apesar de algumas desvirtuadas minudências, o rei D. Carlos granjeou bastas simpatias e, não fossem as atribulações políticas, os desaforos ingleses e, especialmente, os maus fígados da Carbonária a par de alguns ressabiados republicanos, talvez acabasse o seu reinado com um dos mais profícuos resultados.
Mas aqui, ao caso, vem a sua irreprimível tendência para a bizarria com que sempre procurava surpreender tudo e todos. Foi, tanto quanto se sabe, o único rei que a coberto da noite ou do mais chocarreiro disfarce, deambulava só e tranquilamente pelas ruas de Lisboa. Aliás, por causas dessas clandestinas saídas -muitas das vezes para ir às tabernas ouvir o fado – que, muito mais tarde, lhe foi dedicado um dos mais emblemáticos fados de Lisboa: o Embuçado.
Ora, este furtivo folgar fora do palácio deu azo a muitas e variadas histórias, mais ou menos rocambolescas. Se verdadeiras ou espúrias à conta da imaginação popular, vá-se lá saber. Fiquem-se com esta e, depois, decidam como melhor acharem…
Uma noite, a caminho de uma capelinha onde, constava, apareciam uns bons cantadores, deparou-se com uma rústica habitação que, na porta, tinha pregada uma tosca tabuleta onde se podia ler ’21 pês’. Assim, sem mais nada. Atiçado pela curiosidade, o rei bateu à porta. Logo ela rangeu, abriu-se, e um homem barbudo e surrado aparece e, sem se fazer rogado, desbobina uma ladainha: Pedro Paulo Pereira Pinto Pestana Peixoto, pobre pintor português, pinta perfeitamente paredes, portas, paisagens, presépios, painéis, prometendo prontidão.
O rei, não se deu por achado, e retorquiu: Pois sim, mas só contei 18
Aí, o homem, que já tinha recuperado o fôlego, acrescentou: Por pouco preço!
O soberano riu, e satisfeito com a originalidade do anúncio do negócio, meteu a mão na algibeira com intenção de presentear o pinta-monos.
Mas este, percebeu o gesto e atalhou de pronto: Parai, patrão; pareço pobre, porém, possuo patacas!…

Pronto, palavrório pachola, porém, prefiro parar. Poça!

 

 

 

(lé é lé e lá é lá lá ou cá)