Os ‘pês’ do rei D. Carlos

Desde Fernão Lopes, Damião de Góis e Alexandre Herculano que os reis portugueses deixaram a glória e o Olimpo e passaram, como deviam, a ser uns sujeitos normais, contextualizados nas suas épocas, na verdade com muitos mais defeitos de que qualidades. Salvo honrosas excepções. Poucas, diga-se…
Apesar de algumas desvirtuadas minudências, o rei D. Carlos granjeou bastas simpatias e, não fossem as atribulações políticas, os desaforos ingleses e, especialmente, os maus fígados da Carbonária a par de alguns ressabiados republicanos, talvez acabasse o seu reinado com um dos mais profícuos resultados.
Mas aqui, ao caso, vem a sua irreprimível tendência para a bizarria com que sempre procurava surpreender tudo e todos. Foi, tanto quanto se sabe, o único rei que a coberto da noite ou do mais chocarreiro disfarce, deambulava só e tranquilamente pelas ruas de Lisboa. Aliás, por causas dessas clandestinas saídas -muitas das vezes para ir às tabernas ouvir o fado – que, muito mais tarde, lhe foi dedicado um dos mais emblemáticos fados de Lisboa: o Embuçado.
Ora, este furtivo folgar fora do palácio deu azo a muitas e variadas histórias, mais ou menos rocambolescas. Se verdadeiras ou espúrias à conta da imaginação popular, vá-se lá saber. Fiquem-se com esta e, depois, decidam como melhor acharem…
Uma noite, a caminho de uma capelinha onde, constava, apareciam uns bons cantadores, deparou-se com uma rústica habitação que, na porta, tinha pregada uma tosca tabuleta onde se podia ler ’21 pês’. Assim, sem mais nada. Atiçado pela curiosidade, o rei bateu à porta. Logo ela rangeu, abriu-se, e um homem barbudo e surrado aparece e, sem se fazer rogado, desbobina uma ladainha: Pedro Paulo Pereira Pinto Pestana Peixoto, pobre pintor português, pinta perfeitamente paredes, portas, paisagens, presépios, painéis, prometendo prontidão.
O rei, não se deu por achado, e retorquiu: Pois sim, mas só contei 18
Aí, o homem, que já tinha recuperado o fôlego, acrescentou: Por pouco preço!
O soberano riu, e satisfeito com a originalidade do anúncio do negócio, meteu a mão na algibeira com intenção de presentear o pinta-monos.
Mas este, percebeu o gesto e atalhou de pronto: Parai, patrão; pareço pobre, porém, possuo patacas!…

Pronto, palavrório pachola, porém, prefiro parar. Poça!

 

 

 

(lé é lé e lá é lá lá ou cá)

8 comentários sobre “Os ‘pês’ do rei D. Carlos

  1. tb 11 Julho, 2019 / 21:54

    Até fiquei sem folêgo! 🙂
    Sempre bom o teu contar.
    Abraço

    • jorgesteves 13 Julho, 2019 / 15:34

      Não é caso para menos, Teresa!…
      Abraço.
      jorge

  2. José A Pereira 10 Julho, 2019 / 00:39

    Verdadeira ou não, uma divertida história muito bem contada. Como sempre, caro Jorge.
    A propósito queria perguntar-lhe onde posso arranjar o livro, é que em três locais diferentes dizem-me que está esgotado e o email que mandei para a editora não teve resposta. Grande abraço.

    • jorgesteves 13 Julho, 2019 / 15:32

      Obrigado, José.
      Quanto à questão do livro, nos próximos dias darei notícias sobre isso. Aguarde um pouco.
      Abraço.
      jorge

  3. Susana Teixeira 9 Julho, 2019 / 18:27

    Interesssante e divertido. Lembrei-me da linguagem dos pês de quando era adolescente. beijos.

    • jorgesteves 13 Julho, 2019 / 15:30

      Lembro-me, sim, desse linguajar habitual nas meninas.
      Abraço.
      jorge

  4. Bartolomeu Fernandes 3 Julho, 2019 / 10:04

    Portanto, porreiro pá.
    Portolomeu

    • jorgesteves 13 Julho, 2019 / 15:29

      Prontus!..
      (acho que ficaria melhor Partolomeu…)
      Abraço.
      jorge

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