Diógenes e a Dialéctica

A propósito dos seus conceitos filosóficos, conta-se amiúde que, vestido de trapos e de lanterna na mão, deambulava pela cidade à procura de um verdadeiro homem. Ou, quando Alexandre da Macedónia o interpelou, na rua, perguntando-lhe o que mais desejava; como Alexandre lhe tapasse o sol, respondeu-lhe não me tires o que não me podes dar.
Há, porém, uma outra história pouco conhecida…
Um dia, numa das ruas da cidade, um homem armado com um enorme pau corria, em fúria desordenada sobre outro, a gritar:
– Agarra! Agarra!…
Diógenes, que por acaso se encontrava no caminho, desviou-se para que o fugitivo melhor corresse. Furioso, o homem do varapau, increpou-o:

– Você é doido?!… Por que não o agarrou?! É um assassino!
– Um assassino? – volveu-lhe o filósofo – E o que é um assassino?…
– Assassino é um homem que mata…

– Um magarefe?!…
– Não se faça de tolo! Assassino é um homem que mata outro homem!
– Um soldado…
– Não!, claro que não! Um homem que mata outro, mas em tempo de paz!
– Ah!, um carrasco…
– Mau! É néscio?!… Um homem que mata outro na sua própria casa…
– Ah!, então já sei: médico!
Por fim o homem compreendeu a inutilidade de prolongar a discussão, soltou um praga e foi, novamente, em perseguição daquele a quem chamava assassino… 

 

 

 

(não haveria má palavra se não fosse mal tomada)

10 comentários sobre “Diógenes e a Dialéctica

  1. Rita Azevedo 22 Julho, 2019 / 20:04

    Espero que o homem armado não tenha apanhado o tal assassino. Se o apanhou então acho que temos dois assassinos!
    Estas suas histórias são deliciosas.
    beijo

    • jorgesteves 28 Julho, 2019 / 20:00

      Isso já seria outra história que, provavelmente, não interessaria ao Diógenes…
      Obrigado, Rita.
      Abraço.
      jorge

  2. Olinda Melo 21 Julho, 2019 / 20:31

    Olá, Jorge Esteves
    Realmente não conhecia essa.
    E Diógenes conduz-nos nessa sua interpretação da sociedade com perguntas que se apresentam com lógica e ninguém como o meu amigo para contar essa história.
    Abraço
    Olinda

    • jorgesteves 28 Julho, 2019 / 19:59

      Olá Olinda, grato pela sua visita. E pelas exageradas, mas amáveis palavras, claro!
      Abraço.
      jorge

  3. tb 21 Julho, 2019 / 14:41

    É sempre um prazer ler as tuas histórias tão bem contadas.
    Reparei nas ‘novidades’. Gostei!
    Abraços!

    • jorgesteves 28 Julho, 2019 / 19:57

      Olá Teresa! Sempre atenta, pois claro…
      Ainda bem gostaste.
      Abraço.
      jorge

  4. Susana 21 Julho, 2019 / 01:33

    Sofísmico, o gajo!…
    Mas uma boa estória que ainda não conhecia. Só tu para ma (saberes) contar.
    beijo

    • jorgesteves 28 Julho, 2019 / 19:56

      Gostei do sofismicoI Bem apanhado!
      E cá estou a contar-te histórias.
      Abraço.
      jorge

  5. Júlia Cerdeira 20 Julho, 2019 / 23:11

    Há uns dias destes pensava nele, no Diógenes, e na facilidade com que agora há tantas luzes que só nos mostram palhaços.
    Bem vinda até aqui a sua boa prosa que me trouxe estas lembranças!

    • jorgesteves 28 Julho, 2019 / 19:54

      Deverá ser, penso eu, um problema das luzes: ofuscam!…
      Obrigado, Júlia, por cá a espero.
      Abraço.
      jorge

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