sem rei nem roque

A origem desta locução – que não oferece qualquer dúvida – está intimamente relacionada com o jogo do xadrez. Vamos à parte técnica do jogo necessária à explicação:
Entre as várias figuras existentes no xadrez, contam-se duas torres nas peças de cada jogador. Estas torres, de início, situam-se nos extremos da linha mais recuada do tabuleiro, onde, a meio, se posiciona o Rei. Durante o jogo há uma jogada em que, excepcionalmente, se pode mover, seguidamente, duas peças: trocar posicionalmente o rei com qualquer uma das torres. A esta jogada, na gíria do jogo, chama-se rocar ou fazer o roque.
Ainda outra, necessária, achega: o nome da peça torre deriva do persa rukh, rux ou ruk, uma enorme ave de rapina na mitologia popular do Médio Oriente. O europeizado roc aparece em geografias árabes e história natural, popularizado em contos de fadas e folclore de marinheiros. Ibn Battuta e Abd al-Rahman popularizaram a figura do roc tal como a de Sinbad. Se a terminologia entre na Europa por França (o roc francês, talvez em alusão ao senhor local, que significa torre de xadrez), pelo castelhano roque ou, por que não?, directamente do árabe ao português, parece-me uma questão de lana caprina.
Agora, sim, a expressão e o seu significado:
A acepção actual derivou com o uso. Hoje, sem rei nem roque é qualquer coisa ou, especialmente, alguma pessoa, desgovernada, à matroca, sem tutela ou à deriva, usando uma terminologia náutica. Um pouco diferente da usança inicial que era no sentido de significar nem uma coisa nem outra ou, para usar uma outra expressão, nem pau nem bola.
Dizia Prestes, no Auto do Mouro Encantado: Dir-lhe-ei que não tem nem viu amor, Nem se é com roque nem se é com Rei. Ou seja, o resultado é igual, seja de um ou de outro modo.
Apenas como adenda, refira-se que Roque (com R maiúsculo, já que se trata de um nome) nada tem a ver com o roque que aqui tratamos. Será, por exemplo, o caso de Roque e a amiga, duo satírico criado nos anos 80, no programa radiofónico Pão com Manteiga.

 

 

 

(quem tem quatro e gasta cinco, não há mister de bolsa, nem bolsinho)

10 comentários sobre “sem rei nem roque

  1. Javier Fernandes 3 Agosto, 2019 / 17:49

    Nota alta para todo este seu trabalho.

    • jorgesteves 6 Agosto, 2019 / 17:00

      Obrigado, amigo Javier.
      Um abraço direitinho para Corcubion.
      jorge

  2. Manuela Simões 2 Agosto, 2019 / 11:44

    Muito interessantes e cuidadas as suas explicações. Os provérbios nos finais do texto são sempre cheios de humor e propósito. Parabéns.

    • jorgesteves 6 Agosto, 2019 / 16:57

      São escolhidos, sim. E posso assegurar-lhe que a maioria são vozes com mais de dois ou três séculos, é verdade.
      Abraço,
      jorge

  3. Rosa Maritns 30 Julho, 2019 / 01:11

    Histórias interessantes e divertidas.
    Com um professor assim atrevo-me a perguntar: também ensinas a jogar o xadrez?

    • jorgesteves 6 Agosto, 2019 / 16:55

      Não, não posso; pouco do que sei, nem para mim chega…
      Abraço.
      jorge

  4. José Carvalho 29 Julho, 2019 / 16:03

    Caro Jorge, são sempre interessantes e agradáveis os seus artigos.
    Agradeço-lhe as indicações que me enviou e que finalmente explicaram as dúvidas cá em casa.
    Obrigado. Um grande abraço

    • jorgesteves 6 Agosto, 2019 / 16:53

      Não há nada para agradecer, amigo José.
      Abraços para casa.
      jorge

  5. Bartolomeu Fernandes 29 Julho, 2019 / 10:08

    Tinha acabado de ver o telejornal quando li a tua crónica. Fiquei admirado ao ver que sabias que tinha estava a ver uma coisa sem rei nem roque! Pareces bruxo!
    Lembro-me bem do Roque e a Amiga, lembro!
    Grande abraço

    • jorgesteves 6 Agosto, 2019 / 16:52

      O melhor é desligares a televisão; é mais eficaz!…
      Os diálogos do Roque e a Amiga eram um poço de humor, sim.
      Abraço e… férias!
      jorge

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