à lágarder

Ó Chico!, mas que foleirice é esta, hã?! Julgas que chegas aqui, arreias a giga e é tudo à lágarder, é?!...’
Dito assim, à moda do Porto, exemplifica bem o agir de modo afoito e irresponsável, actuar desabridamente, levar tudo a torto e a direito, e, consequentemente, disparatar em grande medida.
À lágarder, tem origem no nome Henri de Lagardère, herói do romance Le Bossu (O Corcunda) do escritor francês Paul Fével. O livro narra as aventuras do espadachim Lagardère na sua demanda de vingança contra o poderoso Philippe de Gonzaga, assassino do seu amigo Duque de Nevers. As peripécias desta aventura, pautadas pela irreverência, pelo modo audacioso e atrevido do herói, mais tarde passadas ao cinema e também, na RTP, em série televisiva no começo dos anos sessenta, serviram de ovo à gestação desta expressão que, por colagem ao esgrimista, leva a dizer que à lágarder é, como ele e a sua espada, andar numa fona constante, levar tudo a eito, derrubar tudo e todos.
Esta apropriação – das exuberantes e insinuantes características do herói – estendem-se a outras figuras, humanas, de romance ou do cinema e dão origem a outras expressões em tudo semelhantes
Correr como o Zátopek ou conduzir à Fângio, entre outras.

 

 

 

(quem corre pelo muro não dá passo seguro)

A Portuguesa

Já foi apenas Dia de Camões. E Dia da Raça. Também Dia de Portugal. Agora é quase tudo e mais alguma coisa. É Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Há quem não saiba que também é Dia de São Miguel Arcanjo, Dia das Forças Armadas, Dia dos Cidadãos e Dia da Língua Portuguesa (especialmente com este último sempre fico indeciso se ria ou chore...).   Isto no dia 10 de Junho de cada ano. Que nos outros dias, como disse Almada Negreiros, ‘esta é a pátria onde Camões morreu à fome, e todos enchem a barriga de Camões’.
Nesse dia, vestem-se rendas, dão-se prendas, comendas, oferendas e papam-se merendas. No fim canta-se o Hino. A Portuguesa!
A propósito: como e quando nasceu A Portuguesa?…
Henrique Lopes de Mendonça, autor dos versos, explicava, em Novembro de 1910, ao Diário de Notícias, que (…) tudo começou num período verdadeiramente revolucionário, que o país atravessou durante cerca de um mês, logo após o Ultimatum britânico, de 11 de Janeiro de 1890. Pelas ruas, pelas praças, pelos cafés, botequins, casas de espectáculos, sucediam-se, sem parar, muitas manifestações patrióticas. Abriam-se bocas convulsas em clamorosos vivas à pátria, ao exército e à marinha. Conspurcavam-se os políticos do regime, culpados do abatimento nacional. Era mais um movimento espontâneo de cólera popular contra os governos, do que um desforço contra a violenta afronta do estrangeiro.
A própria Inglaterra o reconhecia, cerrando os olhos a excessos de que era alvo a sua representação diplomática e consular. As pedras das calçadas eram, sobretudo, instrumentos de reivindicação contra algumas casas de ministros nacionais. E o governo demissionário, sem força para deter esta onda de justificada fúria, cruzava os braços à espera de quem tivesse ânimo para o substituir. Era uma corrente irresistível. Ainda revejo, por exemplo, o apaixonado arranco de Fialho d’Almeida, marchando em som de guerra à testa de uma turba heterogénea e tumultuosa. Aventou-se a ideia de uma subscrição nacional para acudir à defesa da pátria. Foi nos últimos dias de Janeiro que me apareceu o Alfredo Keil, sobraçando uns papeis, com os olhos cheios de entusiasmo e me disse que estava à minha espera. E, então, explicou-me a sua ideia: o movimento patriótico, que alastrava por todo o país, tinha-se já traduzido em discursos, versos, gritos, contra o desleixo, a fraqueza e a corrupção da nossa política monárquica, mas precisava de um canto que consubstanciasse a alma da pátria ferida, com as suas aspirações de liberdade e de revivescência vigorosa. Nesse propósito, ele tinha escrito composto um hino e para o qual me pedia, com urgência, a letra. Isso era uma tarefa terrível, disse-lhe eu, isso de compor versos para uma música já feita. E, ainda por cima, com urgência! Mas ele insistiu, dizia, pela tendência patriótica dos meus trabalhos literários, pela parte que eu havia tomado nas manifestações e por outras circunstâncias que em mim via a sua amizade exuberante. E lá me fez ouvir o hino. ‘É preciso que me faça isso o mais breve possível’, insistia o maestro, acrescentado que havia um grupo de amigos que se tinham quotizado para publicar o hino, fazer uma larga tiragem, e distribui-lo profusamente por todo o país, pois convém não deixar arrefecer os ânimos e o entusiasmo do povo, para que, assim, ele o aprenda e o adopte como um canto de reivindicação nacional. Creio que nunca a minha musa se viu em tais apertos, mas, por fim, lá saíram as estrofes, muito a contento do apaixonado maestro que, a cantá-las, interrompia com grandes gestos febricitantes de aplauso. Faltava dar um nome à marcha. Alvitraram-se vários nomes, de significação mais ou menos revolucionária, mas prevaleceu, afinal, a minha sugestão, que todos acharam mais susceptível de congregar as aspirações patrióticas de todos os portugueses. Foi sob o nome de A Portuguesa que, música e letra se imprimiram e logos se divulgaram por todas as formas, em partituras, em folhetos, em leques e jornais. Não tardou que o povo aprendesse de cor e tivesse adoptado, como um protesto de reivindicação democrática, essa marcha que traduzia os estos melancólicos da sua alma irmanados com o ardor revolucionário do seu espírito. E o hino da Carta era relegado, repudiado pelo sentimento popular, como o símbolo nefasto da decadência pátria. E por isso, foi criado um ministério com arreganhos de força e se iniciou a repressão violenta das arruaças. Lisboa esteve, durante uma porção de dias, entregue à brutalidade dos janizaros da Municipal. Recontros sangrentos, agressões a magotes que se defendiam à pedrada, fuzilaria ao acaso, para inspirar terror. Começou assim a proscrição de A Portuguesa, à qual os governos monárquicos, com a sua habitual inépcia, contribuíram para acentuar as cores republicanas. Foi dentro do seu coração que o povo principiou a acalentar a perseguida, até que ela, um ano depois, baptizada por um sangue generoso, explodisse, no Porto, numa apoteose triunfal, embora dolorosamente efémera.(…)
A sua consagração definitiva viria depois, a 5 de Outubro de 1910. Um dos seus autores, Alfredo Keil, já não assistiria à sua glória. Mas a sua música (o texto seria alterado em 1957) continuaria a dar força ao grito do povo, revoltado com a subjugação da Corte à prepotência britânica:
Contra os bretões, marchar, marchar!…
Outros tempos, claro.

 

 

 

(o sol passa todas as fronteiras sem que soldado algum dispare um tiro)