guarda-chuva

A invenção do guarda-chuva (ou chapéu-de-chuva...) ou do guarda-sol, remonta a tempos antiquíssimos e, curiosamente, nos seus primórdios, as pessoas serviam-se dele mais como sinal de dignidade e poder, do que como meio de se resguardarem do sol ou da chuva.
A Tartária, a Pérsia e a China foram os primeiros locais onde se usou; tal como em Marrocos, onde só o Imperador tinha direito de se cobrir com ele. Na Itália, depois em França, começaram a aparecer nos finais do século VII, e é provável que daí os tivéssemos herdado, embora que não haja um absoluto consenso sobre isso, já que são poucas as referências à forma e ao tempo em que eles se foram vulgarizando pela Europa. Sabe-se, isso sim, que os guarda-chuvas, hoje de finos tecidos, antigamente eram fabricados de couro ou oleado.
A propósito de guarda-chuvas, num antigo exemplar do extinto Jornal do Porto, lia-se o seguinte trecho, tão prosaico quanto jocoso:
(…) Em algumas aldeias de Portugal é o guarda-chuva um traste de luxo e de etiqueta, como a casaca e a gravata o são nas cidades.
Nunca algum Romeu de tamancos, acudiu ao prazo dado ao amor, que não levasse um suspiro para saudar a bela e um guarda-sol, de ponteira de latão, para lhe escrever garatujas no chão.
Matrimónio também ninguém o contrai, na maior parte das freguesias do Minho, sem ter um capote forrado de baeta verde e um avantajado guarda-chuva de doze varas. Com esses dois objectos vai o noivo para a igreja, entre os parentes e amigos, preparado para receber a esposa como quem fosse receber uma tempestade (…).
Como quem fosse receber uma tempestade?!
Ora, já vi comparações piores, já!…

 

 

 

(chuva e sol só em casamento de espanhol)

oração (de cordel)

No dia da eleição
O povo todo corria
Gritava a oposição
– Avé-Maria!
Viam-se grupos de gente
Vendendo votos na praça
E a urna dos governistas
Cheia de graça
Uns a outros perguntavam:
— O senhor vota connosco? —
Um chaleira respondeu:
— Este o Senhor é convosco
Eu via duas panelas
Com miúdos de dez bois
Cumprimentei-a, dizendo:
Bendita sois
Os eleitores
Das espadas dos alferes
Chegavam a se esconderem
Entre as mulheres
Os candidatos andavam
Com um ameaço bruto
Pois um voto para eles
É bendito fruto
Um mesário do Governo
Pegava a urna contente
E dizia – Eu me gloreio
Do vosso ventre!
Ámen.

Leandro Gomes de Barros, nasceu em Paraíba em 1865 e é considerado o maior escritor brasileiro da literatura de cordel (no Brasil mais conhecida por folheto ou, simplesmente, cordel), introduzida no Brasil pelos portugueses, desde os primórdios da colonização. A característica fundamente deste tipo de literatura é, por um lado a questão central vir a ser resolvida através da argúcia e a destreza para atingir o objectivo, outrossim o imaginário feudal europeu, povoado de duques, cavaleiros, damas e castelos, onde o herói sofre desgraças e martírios, fiel ao rei ou ao amor à volta de intrigas, dificuldades e traições que dificultam o feliz final junto do rei ou da mulher amada. Ao longo dos anos adaptada às mudanças sociais, sempre manteve o ponto comum da consagração do herói e a humilhação dos opositores.
A Ave-Maria da Eleição foi escrito em 1916. De brasileiro para brasileiros.
Não tem, por isso, qualquer semelhança, no tempo e com portugueses.

 

 

 

(mente Marta como sobrescrito de carta)