casca grossa

Casca grossa pode ser qualquer um: homem ou mulher, novo ou velho, muito ou pouco letrado. É um espécime que fala alto, berra, atropela tudo e todos à sua volta, bolsa dez palavrões em frases de cinco palavras, cospe para o chão e coça-se sem freio nem recato. Mais ou menos isso.
O que significa não ser propriamente lisonjeiro dizer-se que fulano é um casca grossa.
A origem desta frase tem alguma coisa de singular e de humor. Sabe-se, exactamente, qual a sua origem. E também se sabe quem foi o autor.
A peculiaridade está no facto de ter sido a seu próprio respeito que ele a usou e daí ter ficado para memória futura.
Comecemos por algumas referências sobre a personagem que, com certeza, aos poucos, irão desvendando a identidade.
Viveu apenas 36 anos, mas de uma forma intensa, agitada e inspirada. Dizem que é dele a célebre frase independência ou morte, mas não é seguro que seja verdade. É verdade, sim, que foi herói nos dois lados do Atlântico, mas não é menos que tenha herdado de sua mãe o temperamento estouvado, grosso, imprudente e leviano. Igualmente agressivo, colérico, era notória a sua fúria no insucesso em qualquer litígio, por mais banal que fosse a causa ou disputa. Alegam os que de perto o conheceram (Alexandre Herculano e Garrett, entre outros) que a sua desconchavada personalidade se devia ao facto de ser epiléptico e ter sofrido alguns ataques em público.
Nem mesmo a sua sabida incapacidade para resistir a um rabo de saias, que deu azo a um sem fim de episódios, pode ensombrar a glória de…
(já descobriram de quem se trata?)
… Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim, assim mesmo. Pedro de Alcântara – em homenagem a S. Pedro de Alcântara, padroeiro da Casa Imperial do Brasil – Pedro I do Brasil e IV de Portugal, era um rei que sabia reconhecer os defeitos da sua personalidade e carácter: ‘Eu sou imperador, mas não me ensoberbeço com isso, pois sei que sou um homem como os demais, sujeito a vícios e a virtudes como todos o são’.
Não era muito ilustrado, mas tinha perfeita consciência disso: ‘A fruta é fina, mesmo que a casca seja grossa’, dizia frequentemente, humorado (1), a propósito de si próprio.
Apesar de tudo isso, no entanto, sempre teve uma enorme preocupação com a educação da sua numerosa prole: ‘Eu e o mano Miguel haveremos de ser os últimos malcriados da família’, escreveu.
E foram. Pelo menos, que se saiba.

(1) – Leia ‘o jantar de D. Pedro IV’. Pesquise por ‘jantar

 

 

 

(se queres ser polido traz agulha; e mais fio)