rua… quê?!

 

fotografia de 1901

Rua Áurea (vulgarmente conhecida por Rua do Ouro), que já foi Rua Ourivesaria do Ouro ou Rua Nova dos Ourives, ou ainda Rua dos Ourives do Ouro. Quem hoje percorre esta artéria de Lisboa não faz a mínima ideia de como ela seria antes de 1 de Novembro de 1755. O que é compreensível. Mas é possível perceber um pouco…
Se nos debruçarmos sobre o que nos diz Gomes de Brito na sua notável obra ‘Ruas de Lisboa, notas para a história das vias públicas lisbonenses’, onde o seu autor, com uma paciência franciscana, um escrúpulo de sábio e um amor de filho enternecido de Lisboa, estuda as diferentes vias públicas, desde a sua génese em sítios desabitados até ao alinhamento da rua ou da travessa. E tudo alfabetado, para tornar a consulta mais fácil e acessível. Como amostra, aqui fica o seguinte fragmento da história da rua dos Ourives do Ouro, quando se procedeu ao seu alargamento:
Vejamos agora as obras nesta rua. Em 13 de Setembro de 1686 ordenou o rei ao presidente do senado que trate do alargamento desta rua por ser o concurso de tôda a cidade e por esta causa haver sempre nela contendas nas passagens por não caberem dois coches por ela (Elem. VIII, 564). Em carta de 27 de Setembro o senado respondeu considerando o estado em que se acha a fazenda da camara e a importância da despesa d’esta obra lhe não ê possível assistir a ella por estar exausta de suas rendas, cuja declinação procedeu das dividas, que pagou (Elem. VIII, 572).

Em carta de 13 de Novembro, de 1686 elucidava a Câmara que el-rei tinha consentido na venda dos ofícios trienais de que o senado podia dispor por irem vagando; êsses ofícios eram dos reais, de água velhos, que se reputam património da Câmara e deviam vender-se, na forma, que se costumam vender , os ofícios da corôa. (Elem. VIII, 578).
Esta obra continuava por isso em 1692 e em 1693, dizendo o decreto de 4 de Dezembro de 1693 :Tendo consideração ao cuidado e zelo com que o dr. Sebastião Rodrigues de Barros se tem aplicado à obra da rua dos Ourives do Ouro. hei por bem que continue com ella até se acabar, ainda que o pelouro das obras caia em outro vereador. (Elem. IX, 337). Para a obra demoliram-se casas da rua dos Ourives do Ouro, da rua das Esteiras, fizeram-se plantas e cordeamentos, chamaram-se arquitectos e peritos e não faltaram os embargos e as demandas. Mas a Câmara alegava que a nova obra da rua dos Ourives do Ouro, é a mais publica e mais principal d’esta cidade e a mais magnifica e magestosa que ha. E assim, pedindo ao rei para usar do seu poder real e absoluto, conseguiu até vencer sentenças do Dezembargo do Paço, agarrando-se inclusivamente ao aplauso do povo. (Elem. IX, 367). Da consulta da Câmara de 11de Março, de 1687 se vê como a venda dos reais de água se iam executando, falando-se nela dos lanços que se deram pela propriedade do oficio de almocharife dos reais de água do vinho para o intento da nova edificação da rua dos Ourives do Ouro. (Elem. VIII, 586).
Na consulta da Câmara, de 22 de Setembro de 1690, se lê que o senado procurou empregar o dinheiro resultante das vendas de alguns ofícios em compra de algumas das casas, das muitas de que se necessita para se alargar a rua dos Ourives do Ouro, para se ir dando principio a ela, o que não pôde executar até ao presente, por causa de alguns dos donos das ditas casas, depois de avaliações feitas e ajustadas, com embargos e agravos que interpuzeram para o desembargo do paço, terem empatado derribarem-se casas, principiando-se à obra. Por isso a Câmara pretende que essas expropriações sejam declaradas de utilidade pública como se procedeu quando se fez a rua nova do Almada e a rua dos Ourives da Prata e com isso se conformou o rei. (Elem. IX, 222).’

Afinal, pelo século XVII, as urbanidades tinham dores intestinas um tudo-nada semelhantes às que ainda acontecem nestes tempos do vigésimo primeiro século…
Já agora, a quem me souber explicar: Rua Áurea porquê? Será pela mesma razão que a Rua da Prata, coitada, não se chama Argêntea?…

 

… como o cão do Miguel

Quem será este Miguel que tem um cão? E a que propósito se associa, um e outro, a situações desagradáveis?…
Lerpaste como o cão do Miguel, diz-se de quem fica a perder em qualquer contenda, daquele que se vê a enfrentar grande dificuldade, ou em qualquer outro tipo de situação ingrata.
Por outro lado, a expressão coloquial lerpar encontro-a apenas em dois dicionários que tratam de gíria e expressões idiomáticas. E sempre com o mesmo sentido e significado: perder, prejudicar, enrascar, responsabilizar e isolar. Quanto ao nome, aparentemente parece ser Miguel como poderia ser Eufrásio ou Malaquias.
Daí que o trilho que nos leva até à origem parece destinado ao fra-casso. Apenas sobra uma hipóte-se, com alguma probabilidade, à qual o bom senso não deixa que a explicação fique muito mal na fo-tografia. Vamos lá, então.
Ainda que perto do fim, no século XVIII já há relatos de um mastim, provavelmente apurado com misturas de cães ingleses e fran-ceses. Referido nas ilhas Terceira e S. Miguel, o tempo acabaria por fazer soçobrar a espécie na Ilha Terceira, ainda no século XIX. Em S. Miguel o animal foi adoptado, gradualmente disseminado por to-da a ilha, ensinado e estimado na condução e protecção do gado bovino que era, por longos períodos, deixado nos lugares de pastagens, bem nas cumeadas dos montes. Apelidado de cão das vacas, este solitário guardador e condutor do gado, muitas vezes sujeito às investidas das vacas, tornou-se um elemento fundamental da pastorícia, em S. Miguel. Quando não acompanhava e protegia o gado, era um fiel e resoluto cão de guarda ou, no tempo, ágil a açular o javali quando ia com o dono à caça.
Será nesta emblemática figura de S. Miguel, nos seus difíceis e solitários trabalhos, que achamos a origem deste expressão que nos figura complicações, escolhos ou pesados fardos?
Se não for como o cão de S. Miguel… sorte de cão.

 

 

 

(o cão velho quando ladra dá conselho)