… como o cão do Miguel

Quem será este Miguel que tem um cão? E a que propósito se associa, um e outro, a situações desagradáveis?…
Lerpaste como o cão do Miguel, diz-se de quem fica a perder em qualquer contenda, daquele que se vê a enfrentar grande dificuldade, ou em qualquer outro tipo de situação ingrata.
Por outro lado, a expressão coloquial lerpar encontro-a apenas em dois dicionários que tratam de gíria e expressões idiomáticas. E sempre com o mesmo sentido e significado: perder, prejudicar, enrascar, responsabilizar e isolar. Quanto ao nome, aparentemente parece ser Miguel como poderia ser Eufrásio ou Malaquias.
Daí que o trilho que nos leva até à origem parece destinado ao fra-casso. Apenas sobra uma hipóte-se, com alguma probabilidade, à qual o bom senso não deixa que a explicação fique muito mal na fo-tografia. Vamos lá, então.
Ainda que perto do fim, no século XVIII já há relatos de um mastim, provavelmente apurado com misturas de cães ingleses e fran-ceses. Referido nas ilhas Terceira e S. Miguel, o tempo acabaria por fazer soçobrar a espécie na Ilha Terceira, ainda no século XIX. Em S. Miguel o animal foi adoptado, gradualmente disseminado por to-da a ilha, ensinado e estimado na condução e protecção do gado bovino que era, por longos períodos, deixado nos lugares de pastagens, bem nas cumeadas dos montes. Apelidado de cão das vacas, este solitário guardador e condutor do gado, muitas vezes sujeito às investidas das vacas, tornou-se um elemento fundamental da pastorícia, em S. Miguel. Quando não acompanhava e protegia o gado, era um fiel e resoluto cão de guarda ou, no tempo, ágil a açular o javali quando ia com o dono à caça.
Será nesta emblemática figura de S. Miguel, nos seus difíceis e solitários trabalhos, que achamos a origem deste expressão que nos figura complicações, escolhos ou pesados fardos?
Se não for como o cão de S. Miguel… sorte de cão.

 

 

 

(o cão velho quando ladra dá conselho)

confetes


O Manuel e a Maria casaram-se hoje. Ele de fato preto, colete cinzento, camisa branca e tramelo preto a apontar para os sapatos, apertados, de verniz; ela com vestido e rabona de tule branca, uma grinalda no penteado que a cabeleireira estacou com dez borrifadelas de laca, mais um raminho de miosótis com rosinhas de Nossa Senhora, que é para ficar no altar da Santa Justa. À saída chove arroz, do trinca que sempre é mais barato, e na mesa do repasto já lá está o bolo, que o pai da noiva fez questão que tivesse quatro andares…
Pois claro, isto é coisa lá para os idos sessenta do século passado, ou coisa que o valha. Agora a gente pega os trapos e vive junto, experimente até que dê – sabe-se lá o quê – ou que rebente. Se der raia, vai cada um para seu lado, que é como quem diz, cada qual regressa para a sua mamã e para o seu papá. Pelos entretantos, partilha-se a cama, do resto cada um paga a sua, lava e passa o que é seu, enfim, trabalhos e dívidas à parte, basta o bem-bom…
Mas, toda esta conversa mole para perguntar: de onde raio vem o hábito de despejar arroz (que é caro, que diabo!...) em cima dos noivos?
Ao certo, ao certo não sei, mas vejamos: na Roma antiga, nas celebrações de um casamento, faziam-se uma espécie de bolo (ou pão) feito com base em trigo e cevada, chamado ‘mustaceum‘ que, durante os rituais do casamento era costume o noivo escaqueirar o paparico em cima da cabeça da noiva. Em seguida, os noivos e os reinadios convidados entretinham-se a comer as migalhas, até as apanhar todas. Pelo meio, acontecia que os convivas enchiam as mãos com migalhas (as mais reles…) que depressa faziam voar sobre os noivos.
Também se refere que, nessa época, uma das iguarias presentes nesses festejos era o pequeno ‘confetto’, uma mistura de castanhas, frutos secos e mel, que embora acabasse por ser comida, também servia de arremesso sobre os noivos, numa intenção de prosperidade e futuro doce.
Provavelmente, esses pequenos doces (de pedacinhos de pão de noiva ou docinhos de frutos e mel, tudo passaria a designar-se por confettos), acabaram substituídos, primeiro por pétalas de rosa, depois arroz, até chegar aos quadradinhos de papel colorido. Outros tempos.
Tudo isso acabou? Acha que sim?… Não!
Olhe aqui: confettos! Bem feitos, comprados ontem, doces e bem saborosos!…

 

 

 

(com açúcar ou com mel até as pedras sabem bem)