velho rifão

Aremos, diz a mosca; e estava nos cornos do boi.

A propósito deste provérbio pouco conhecido (bastante antigo e, como creio, de uso muito circunscrito às cercanias de Castro Laboreiro, no Alto Minho), lembrei-me desta história, já com barbas, contada entre as gentes do teatro…
Um autor teatral lê aos actores escolhidos uma representação em três actos, supostamente dramática e erudita. No fim da leitura, todos acharam que seria um êxito garantido. De tal forma assim foi que, feita a apresentação, os artistas saíram eufóricos.
Ao jantar, nesse dia, o actor principal diz à sua namorada:
‘Uma peça magnífica! Uma história soberba, digo-te! Tudo à volta de um rapaz humilde, mas empreendedor (é o meu papel), que se apaixona por uma herdeira e que…’
A actriz, por seu lado, diz à amiga: ‘Espantoso este meu novo desempenho, sabes? É a sobre a filha de um grande industrial (sou eu que faço esta personagem) dono de um enorme complexo fabril que, embora apaixonada por um indivíduo, simpático é certo, mas…’
Outra actriz, confidencia à cabeleireira: ‘
Tive sorte, com este trabalho, digo-lhe!… Uma história muito boa, sobre uma rapariga pobre, mas muito sedutora (é o meu papel), que se envolve com um tipo, meio escaganifobético, que está noivo de uma desmiolada endinheirada a quem… ‘
Um outro actor, este já entradote, ao jantar, diz à mulher: ‘
Desta vez, vá lá, deram-me uma interpretação interessante, queres saber? É um drama sobre um pai generoso, um individuo elegante e atraente (eu, claro!…) que vive um desgosto por causa da filha e de um rapazola que não se sabe bem quem é e que…’
E este, aquele e mais outro actor e actriz da peça, lá vão falando, mais ou menos assim, sobre a dita peça destinada ao sucesso…
Um desses actores, cuja personagem era de criado, conta assim o que vai ser a dramática peça que não tardará a estrear: ‘É uma peça estrondosa! Com muita classe, muita profundidade no tema, vocês vão ver! Trata-se da história de um criado, um criado mas com muita classe, muito estilo, distinto e com aspecto impecável (eu é que sou esse criado!). Trabalha em casa de uma família riquíssima, de influências. Claro que se vão sucedendo algumas peripécias, mas sem grande importância para o caso, a maioria delas por causa de problemas de família, casamentos, condições sociais e coisas assim. Mas, já perto do final do terceiro acto, quase a terminar a peça, aí sim, há um momento crucial! É precisamente o momento em que eu entro na sala, onde estão todos reunidos e digo: senhores!, o jantar vai ser servido!…

.

 

 

(presunção e água benta, cada um toma a que quiser)

14 comentários sobre “velho rifão

  1. Bartolomeu Fernandes 18 Julho, 2020 / 11:23

    Tudo uma questão de…
    Olhar para o próprio umbigo!..simples não é?
    Mas que a história está magnificamente contada, está. Isso é contigo, meu caro!
    Um grande abraço

    • jorgesteves 18 Julho, 2020 / 11:43

      Pois será como dizes, uma questão de umbigo…
      Do mais, são vistas, distorcidas, de amigo.
      Abraço.
      jorge

  2. Susana 18 Julho, 2020 / 00:25

    Presunção e água benta, cada um toma a que quer mas é bom tê-la com conta, peso e medida. Neste aspecto, as nossas vistas ( de uma grande parte) são curtas e muitas vezes não reconhecemos o ridículo a que nos expomos com o nosso próprio discurso. A humildade escasseia.
    No entanto, aqui, nunca escasseia a tua eloquência.
    Saio encantada. Gosto tanto de te ler!

    • jorgesteves 18 Julho, 2020 / 11:40

      Os teus costumados exageros à eloquência…
      Abraço.
      jorge

  3. Renato Araújo 17 Julho, 2020 / 23:07

    Não conhecia esse velho rifão, amigo. Mas que é um espanto, é!
    A história pode ser antiga e muito contada, mas nota-se aqui a sua tinta permanente!…
    Um grande abraço

    • jorgesteves 18 Julho, 2020 / 11:39

      Obrigado pela amabilidade. É verdade, sim, muito antiga e também muito contada…
      Abraço.
      jorge

  4. Mónica Araújo 17 Julho, 2020 / 21:56

    mas que história deliciosa! nesta peça afinal todos tinham o papel principal!…
    beijo

    • jorgesteves 18 Julho, 2020 / 11:37

      Pois é verdade, visto assim, assim seria…
      Abraço.
      jorge

  5. Abílio Cardoso 17 Julho, 2020 / 20:35

    O provérbio antigo é um achado de sarcástica ironia à presunção. Será possível datar a origem? Obrigado por mais esta bela crónica, caro Jorge.
    Forte abraço.

    • jorgesteves 18 Julho, 2020 / 11:36

      Não lhe sei dizer com precisão, mas tenho a referência de já ser conhecido no início do século XVIII.
      Obrigao, Abílio.
      Abraço.
      jorge

  6. Fernando Noronha 16 Julho, 2020 / 00:21

    Uma história engraçada que é uma boa lição sobre a presunção das pessoas.
    Gostei.

    • jorgesteves 18 Julho, 2020 / 11:34

      Obrigado Fernando. Volta sempre.
      Abraço.
      jorge

  7. Diana Monteiro 15 Julho, 2020 / 19:32

    Em primeiríssimo lugar, parabéns ao contador de histórias (não é qualquer um…). Não conhecia este rifão e sou atenta a eles (não fora um professor ter-nos dado em fim de liceu, como mote para uma composição «à guisa de parentes, cata que merendes!»).
    Mas, ultrapassando a «presunção e água benta…», a verdade é que, se cada uma das personagens assumiu, em palco, com essa alma toda, o seu papel, decerto terá sido um espectáculo de sucesso!

    • jorgesteves 18 Julho, 2020 / 11:32

      Gostei desse à guisa de parentes, cata que merendes que me parece uma pérfida rasteira, sim senhora!…
      Também é verdade que, essa presunção seria uma boa rampa para o sucesso da peça, seria. Obrigado pelo seu comentário.
      Abraço.
      jorge

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *