Quinto dos Infernos

Quinto, era o imposto de 5 por cento que o reino português cobrava das minas de ouro, no Brasil. A nau que trazia esse imposto para Portugal ficou conhecida, na gíria da altura, como a nau dos quintos. Ora, como nessa mesma nau eram enviados os degredados, o povo, acreditando que Quintos era, porventura, o nome das paragens distantes e terríficas do destino desses desgraçados, costumava dizer, lastimando-os, à partida: ‘foram para os Quintos dos Infernos’…
Cabe aqui, a este propósito (e a mais algum que possa também calhar, já agora…), transcrever um soneto de Nicolau Tolentino, alusivo ao assunto:
No dia em que chegou a nau dos quintos
Se a larga popa trazes alastrada,
c’os prenhes cofres de metal luzente,
que importa, ó alta nau, se juntamente
vens de pranto e penhoras carregada?
Para ver tanta cara envergonhada
e pôr no Limoeiro tanta gente,
para isto sulcaste a grã corrente
dos ventos e das ondas respeitada?
Se alegras uma parte da cidade,
ergues na outra um sórdido porteiro
vendendo trastes velhos por metade:
Traz bens e males teu fatal dinheiro
uma alta paz aos homens de verdade
um estupor a cada caloteiro.

 

 

 

(para enriquecer muita diligência e pouca consciência)

amigo da onça

A origem é assumidamente brasileira. Talvez seja de tempos idos, mas seria bastante vulgarizada por Andrade Maranhão, humorista e colaborador na revista O Cruzeiro (anos 20 a 60 do século passado), onde passou a satirizar essa espécie (demasiadamente vulgar…) de amigo, um sujeito baixote, sem pescoço e cara de fuinha, sempre de pose engomada. Mais tarde, numa entrevista, Maranhão explicaria que a criação da sua cáustica personagem se devia a uma velha historieta de cordel apanhada na sua meninice:
Dois amigos conversavam enquanto caminhavam pelo mato à procura de caça.
– E se agora aparecer ali uma onça?… O que é que fazes?
– Então?! Dou-lhe um tiro, claro!
– E se a espingarda se encravar?…
– Bom, aí, vai com o facalhão!
– E se te tivesses esquecido do facalhão?…
– Aí não tinha alternativa: trepava pela árvore mais próxima!
– E se não houvesse árvores por aqui?
– Fugia, claro!…
– Mas se estivesses mesmo cheiinho de medo?
– Ei!… Ó homem! Mas c’um raio: tu és meu amigo ou és amigo da onça?...’
Péricles de Andrade Maranhão, nascido no Recife em 1924, tinha apenas 20 anos quando criou o Amigo da Onça com o qual acabou por se fundir no último dia de 1961. Suicidou-se em casa, com gás da cozinha. Deixou um bilhete na porta do apartamento a pedir ‘se não quer ser incomodado, por favor não acenda fósforos‘.
(ver bafo de onça e amigos de Peniche)

 

 

 

(amigo de bom tempo, muda-se com o vento)