advogado do diabo

Advogado do Diabo é, efectivamente, uma profissão existente. Pelo menos foi-o, até à sua abolição, em 1983, pelo Papa João Paulo II.
Tida como uma expressão que designa uma tarefa que ninguém por regra deseja, por ir contra a convicção geral, o advocatus Diaboli (designação popular do Promotor Fidei) é o membro da Igreja Católica a quem incumbe levantar objecções em todas as argumentações documentadas num processo de canonização. Na facção oposta, o membro do clero recebe a designação advocatus Dei.

Na verdade, a sua abolição fez disparar o número de beatificações e santificações o que, de algum modo, dá crédito ao significado da expressão que, no seu sentido literal, sugere alguém que defende argumentos nos quais não acredita ou, simplesmente, argumenta para testar e validar a qualidade da argumentação contrária.
(ver amigo da onça)

 

 

 

(rodas e advogados existem para serem untados)

a lenda do Poço de Portucales

A água de Março é pior que nódoa no pano, avisavam já os velhos de antigamente. A verdade é que este Março foi bem aguaço, diz outro rifão a parecer feito de encomenda para as últimas semanas.
Mas já estava previsto que na primeira nesga de sol, iria esquadrinhar as sofraldas da Peneda até encontrar o pego de Portucales. E não foi fácil já que levava candil para caminho errado.Explicando com todos os efes-e-erres
Em 1785, um monge cisterciense de Pitões escrevia sobre um pego, a que chamavam o Poço de Portucales, à margem de um rio, vindo de Outeiro Maior, nas bandas cimeiras do concelho de Arcos-de-Val-do-Vez. E, à conta disso, narrava uma velha lenda que vinha dos tempos pré-romanos.
Assim:
Os cântabros ocuparam alguns pedaços da nossa terra e o que deles guarda a tradição não é de molde a louvar-lhes os costumes, pois que quase todas trazem modos de crueldade no seu entrecho. A Serra da Cabreira foi terra que eles habitaram nos primeiros séculos e a lenda, que me narraram e a tradição local conservou, marca bem a desumanidade que havia nos costumes desse povo rude. Em Cabreiro, passa um rio que vem do Outeiro Maior, água arrebatada e colérica que vai morrer no rio Minho e, no seu curso, quase acima da ponte, tem um pego a que chamam o Poço de Portucales. Debruçada sobre esse pego existe uma laje escura e escorregadia que evoca uma barbaridade sem nome.
Entre esta gente não existia respeito, nem piedade pelos anciãos. O velho que já não pudesse combater ou trabalhar era um ser inútil, uma carga desnecessária, a quem a comunidade negava o direito à vida, portanto sentiam-se autorizados a desfazerem-se desse membro dispendioso e imprestável. Quem quer que atingisse a decrepitude não merecia esperar tranquilamente a morte sob o tecto da casa onde tinha vivido e procriado. A crueldade deste povo obrigava-o a deixar a vida e, o que é mais repugnante ainda, era ao filho mais velho que competia dar-lhe o fim.
O Poço Portucales era o ponto destinado ao sacrifício; a sua profundidade e a laje escorregadia davam-lhe vantagens sobre os outros despenhadeiros.
Ora reza a tradição, e isso é uma honra para as gentes de Cabreiro, que foi ali que tal bárbaro costume sofreu a quebra.
Um dia, um filho carregava às costas o pai até perto da laje fatídica e, o velho, junto à ponte de Cabreiro, ao ver-se a chegar ao precipício perguntou-lhe por que o levava até ali. O filho disse-lhe que descansasse que breve chegavam ao destino. Então o ancião, serenamente retorqui-lhe:
– Bem sei onde me levas, meu filho. Levas-me onde levei o teu avô e onde te há-de levar o teu filho.
O filho meditou alguns instantes nas palavras do pai. Ajeitou o pai nas suas costas, voltou-se e tomou o caminho de casa.
E desde então acabaram esses bárbaros parricídios.

Assim conta a lenda do Poço de Portucales, pelos lados de Cabreiro, à esguelha da serra da Cabreira.
O cenobita de Pitões trocou as voltas ao rio vindo de Outeiro Maior: não vai morrer no rio Minho, como ele diz. O rio é o Vez (sabia que é o rio mais límpido de toda a Europa?...), que nasce um pouco mais acima de Outeiro Maior, lá quase na cumeada da Peneda.
A laje escura e escorregadia está um tiquinho mais pr’acolá daquela nesgueira que se vê ali, na curvelinha do aluvião, vê?, explicava-me a senhora  Rosa, na ponte de Cabreiro. Dali ó’pra cima o mato é tal que o rio vem lá d’arriba todo peneirado! A laje ‘tá p’ra lá, num se pode lá ir...
Não fui. Fiquei por ali, a ver o Vez a caminho do Lima.