de alto coturno

… de alta linhagem, hierárquica, importância, gabarito é, dos velhos tempos, o significado deste igualmente encanecido apotegma popular.
Que, de alguma forma, directa ou indirectamente está ligado a propósito de botas ou, ainda, de tamancos.
Era bem conhecida, esta espécie de calçado, especialmente a última; muito usado nos meios rurais, feito de couro grosso e tendo por base grossos pedaços de madeira (geralmente pinheiro) talhados em forma de sola. Das botas, outrossim se pode dizer, de feitura e forma grosseira, calçado ordinário, que servia para preservar os pés das humidades e frios do Inverno.
Quanto aos primeiros, especialmente no Minho e Trás-os-Montes, este calçado era vulgarmente denominado por socos (do latim soccus). Mas, na verdade, na antiga Roma, sócco era coisa bem diferente dos pesados tamancos usados pela população rural do interior norte do nosso país, especialmente até meados do século passado.
(socos – ou socas -, com protectores de ferro, cravados à frente, atrás e na borda lateral exterior de cada tamanco era coisa para fazer faísca em qualquer biqueirada e, ao mesmo tempo, servir de arma de arremesso, ou defesa, nas mais inusitadas situações; neste assunto, sei do que falo...)
O sócco romano era uma espécie de sapato leve e decotado, quase uma sandália, que usavam os actores nas comédias, ao contrário do cothurno, ou calçado alto, que só era usado (e permitido) nas representações mais sérias, como nas tragédias. É daí que proveio chamar-se, metaforicamente, de alto coturno, a qualquer coisa de estilo elevado e sublime, ao contrário do soco (sócco, romano) que, genericamente, refere qualquer coisa baixa ou vulgar.
Dar uso (muito apropriado…) à expressão será, por exemplo, dizer que, hoje, a erudição política não é de alto coturno
Mas, atenção: o vocábulo cothurno não tem qualquer ligação com meia curta, ou peúga, embora haja quem lhes chame coturno.

 

 

 

(não sabe o couro onde aperta o sapato)