piropo


No Grande Dicionário da Editora Domingos Barreira, dos anos sessenta do século passado, diz ‘(…) do latim pyropu e do grego pyröpós, ‘pyr’ de fogo e ‘ops’ ou ‘opôs’ de vista, s.m. Liga de quatro partes de cobre e uma de oiro; variedade de pedra preciosa (granada); a cor do fogo’.  Um pouco mais antigo (1928), da Livraria Simões Lopes, o Dicionário de Francisco Torrinha diz praticamente a mesma coisa. Outro, o Dicionário da Lingua Portugueza, de Bernardo Bacelar, prior no Alentejo, este de 1783, diz apenas que ‘Pyropò é cobre com resplendor d’ouro’.
Genericamente entende-se que piropo será galanteio, madrigal, cortejo, lisonja, requebro, adulação, mimo, cumprimento ou, mais informal,… rapapé. A verdade é que não é nada disso. Simplesmente porque piropo é uma palavra tipicamente espanhola, de origem castelhana, se quisermos. Não tem tradução para qualquer língua e, nem sequer, palavra que lhe corresponda de modo absoluto. Não é a ‘galanterie française’, cuja tradução nos diz ser ‘um propósito de agradar a uma mulher por palavras ou actos’, nem, muito menos, o galanteio, que o nosso Cândido de Figueiredo diz ser, muito dicionariamente, ‘o acto de galantear’, ou o Francisco Torrinha que ao ‘acto de galantear’ acrescenta ‘conversa amorosa’.
Ora piropo é muito mais, e diferentemente mais: é uma instituição nacional. É a admiração e a atracção pela mulher, transformada numa frase que nasce num instante, como se fosse um relâmpago, e sai da boca pelo ímpeto de uma necessidade de prestar culto à beleza, à graça, à formosura ou, simplesmente, à personificação de uma atracção que invade os sentidos. Mesmo que, por vezes, o dito seja grotesco, nunca é ofensivo. Por isso, a mulher espanhola, recebe-o com um sorriso e com um agradecimento que, quase sempre, é o prémio que o autor almeja. O mais, afora isso, não é piropo.

Razão de grandes rasgos de ironia e criatividade, à mistura de paixão e poesia, já que ao piropo não se conhece continência e, por isso, por vezes alcança limites desmedidos. Ora veja alguns:
Adeus, vida minha! Quantos séculos de formosura juntou Deus em tão poucos anos.
Não feches os olhos, mulher, que os pássaros vão-se deitar, julgando que já veio a noite.
Bendita a hora em que a parteira disse à tua mãe ‘é uma menina, é uma menina’!

Pareces um árbitro de futebol: para onde quer que vás, arranjas escândalo.
Se A Eva foi como tu, já percebo o pecado de Adão.
Ainda que venhas do Inferno, tu pareces um anjo.
Consegues ser mais bem-feita do que o Código Penal.
Quem me dera ser os teus sapatos, para estar sempre a teus pés.

E porque era um nunca mais acabar, acabe com esta quadra:
Se a tua mãe fosse a prisão
E o teu pai o carcereiro
E tu as duras cadeias,
Eu seria o prisioneiro.

fino com o alho

Sabe qual é a rua mais pequena da cidade do Porto?
É a rua Afonso Martins Alho (terá, aproximadamente, trinta metros).
Pois, este senhor Afonso Martins Alho foi um acreditado mercador portuense, que juntamente com lisboeta Gomes Limpas, em 1352, foram a Londres negociar com Eduardo III os fundamentos da Aliança Luso-Britânica, o mais antigo pacto diplomático do mundo (se bem que já houvesse uma ligação entre os dois povos, desde 1147, quando os Cruzados cooperaram com D. Afonso Henriques nas tomadas de Santarém e Lisboa, a verdade é que seria esse acordo de 1352 que serviria de patamar ao Tratado de Windsor, que uniu a Casa de Lencastre com a Casa de Avis, com o casamento de Filipa de Lencastre – neta de Eduardo III – e D. João, Mestre de Avis).
Mas, voltando ao nosso Afonso Martins Alho, como mensageiro e negociador voltou mais vezes a Londres, onde se notabilizou pela forma prudente, sagaz, contumaz e habilidosa que usava nos brilhantes e benéficos ajustes das suas negociações. A sua mestria e sagacidade acabaria por lhe criar a fama de astuto, que associada a ele se popularizou a expressão de fulano ou beltrano serfino como o alho’ (embora seja vulgar, erradamente. dizer-se ser ‘fino como um alho’).

A propósito, porque esta última e errada forma nos remete para o alho (allium ampeloprasum), poder-se-á pôr a questão ‘alho, porquê… porro?’. Apenas se trata de variantes da mesma espécie (allium ampeloprasum porrum).
Logo de imediato, a simples e fácil relação que se estabelece com porra, causa alguns embaraçosos engulhos. Sem razão, mesmo assim. Será curioso referir que porra apenas ganhou sentido e significado pejorativo no século XVIII, a partir da poesia do nosso folgado Bocage.
Referida nos dicionários como uma interjeição grosseira, de cariz sexual, a verdade é que essa forma se limita, exclusivamente, ao calão popular.
Então… que porra é essa? Configura o formato da cabeça (a flor) do alho, em forma de bola, no topo de um caule longo e esguio. Esta forma dá-lhe muita semelhança com a maça, clava, porrete ou bastão, arma medieval que consistia em um cabo de madeira com uma cabeça, bem saliente, de pedra, cobre ou ferro, onde se colocavam tachões ou pontas de ferro para infligir maior dano.
Ao que parece a confusão nasce no latim: a semelhança da planta (porrum) com o adjectivo porrea, que qualifica uma maça ou clava.
Espero ter esclarecido… essa porra.

 

 

 

(quando se pisa o alho, o almofariz conserva o cheiro)