carapau de corrida

O gabiru, o tipo que se acha mais esperto do que os outros, quem tem bitafe de engendrar esquemas para enganar o parceiro, o ardiloso sempre à espreita da oportunidade, é o chamado carapau de corrida.
Porquê carapau (que até nem é dos peixes mais rápidos…) e porquê de corrida?
Já li quem defenda a origem em Lisboa, e quem entregue a paternidade aos tripeiros. Em comum, o cerne da história. Os pormenores, bom, variam um pouco.
Vamos ao carapau

Entre o meado da década de quarenta e os começos da de cinquenta, no século passado, uma fábrica de bicicletas começou a produzir umas novas bicicletas, agora equipadas com uns pequenos motores de baixas cilindradas. Nasciam as bicicletas motorizadas, que iriam consagrar o nome dessa fábrica, a Vilarinho e Moura, Lda. Eram as motorizadas Vilar! Não tardou que alguém lhes descobrisse o veio(1), não das mudanças, mas do negócio: uma caixa em chapa, com rodas e engatada à traseira da motorizada, permitia sair da lota com mais peixe, mais rapidamente e com maior raio de acção.
Assim ia o carapau, porque era o peixe mais barato, mais acessível a um maior número de pessoas… de corrida. As canastras e as peixeiras, essas ficavam irremediavelmente para trás, sujeitas às camionetas ou aos eléctricos e depois, ao peso e ao calcorreio das ruas. Desta feita, o carapau de corrida (porque na verdade ele tinha vindo a correr) podia ser vendido mais barato (em consequência da quantidade e da antecipação). Nas ruas ele era anunciado pela campainha da bicicleta e as pessoas vinham à porta. Chegou o carapau de corrida.

Ao que parece, em Lisboa, o carapau de corrida, tinha outra variante: a lota vendia o peixe em leilão descendente (do peixe mais caro até ao mais barato). Havia peixeiras que esperavam pelo peixe do final da lota, indo depois a correr tentando chegar e vendar ao mesmo tempo que as outras peixeiras. Nem todas as freguesas se deixavam enganar pelas peixeiras aceleradas, percebendo bem que aquele carapau era… de corrida.
Com ou sem variante, as hipóteses vão dar ao mesmo.
(1)A ideia depressa foi consagrada pelas fábricas e logo apareceram os atrelados de fabrico industrial, mais robustos e com outro acabamento que, entre o mais, permitia mais carga e mais segurança na condução.

 

 

 

(depressa se toma o rato que só sabe um buraco)

quem não te conhecer, que te compre!…

A frase e a sua acepção são bem conhecidas: refere alguém que parece ser quem, na realidade, não é. O que nunca é agradável quando se mostra, como sabemos. Bom seria, dito com a excelência shakespeareana ‘As pessoas deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são‘. São bastantes as formas e os modos (o melão que é melancia, a sardinha disfarçada de robalo, cavalo que afinal se denuncia quando zurra, e tantos mais) que a sabedoria popular encontrou para ilustrar esta rasca e prolifera criatura.
Para variar um pouco, preferi esta esta patusca historieta do nosso cancioneiro popular:
Conta uma velha história que, uma noite, estavam vários estudantes na conversa, junto à ponte de Coimbra, quando por lá passou um almocreve levando pelo cabresto o seu burro, carregado com avantajados alforges.
Um dos estudantes, na paródia, acercando-se do derreado animal, com um rápido golpe tirou-lhe o cabresto, enfiou-o na sua própria cabeça e lá foi seguindo o homem, que ia puxando por ele, sem se ter apercebido da troca.
Entretanto, os outros comparsas, apressaram-se a esconder o burro; o estudante encabrestado, avisado de que o burro já estava livre de ser visto, deixou de andar. Nesse instante, o pobre do homem, volta-se para castigar o animal e depara, assustado, com o rapaz encabrestado na vez do burro.

É então que o gaiteiro do estudante encena a malhoada combinada. Dá um grito de alegria, e diz ao atarantado almocreve: Meu senhor, não se admire vossa mercê do que os seus olhos estão vendo! A verdade é que sou um moço bem-nascido, mas por força de um encanto, que ando penando há muitos anos, tantos que já nem sei, conservo a figura de um asno como até há pouco me viu. Neste instante, e calha que nem sei bem porquê, quis Deus que o meu tormento se arrematasse; rogo-lhe, por isso, que deste caso guarde bom segredo, para que ninguém saiba que durante tanto tempo andei pelo mundo feito burro. E me perdoe, sem que minha seja culpa, o dinheiro que deu por mim e ainda também mais a falta que lhe faço!
O homem, no meio da admiração, respondeu-lhe, apesar de tudo, satisfeito: Ó meu jovem, não permita mais Nosso Senhor, pelas chagas do Calvário, que uma alma cristã sofra tão grandes ralações, e acredite, moço, até tenho bastante agrado em o ver livre de tão negro fado.
E, abraçando o estudante, abalou murmurando espantos e contas ao que lhe tinha sucedido. A rapaziada, não se contentando com a carga que o burro levava nos alforges, resolveu levar o burro à feira, para o vender, de modo a que assim aumentasse ainda mais o lucro da sua tratantada.
Mais tarde, andava o camponês pela feira com intento de mercar novo burro, quando repara em dois homens que negoceiam o seu antigo burro. Acerca-se deles e pergunta se o burro está para venda. Que sim senhor, até é um belo animal, mas já está apalavrado aqui para o compadre que lhe achou finura. O ingénuo almocreve, julgando que o estudante se havia convertido, novamente, em burro, pede licença ao arrieiro para, mesmo assim, lhe ver o cachaço. Esteja à vontade, confirme o compadre a belezura do asno.
E o nosso homem lá se chegou à cabeça do burro e, junto da orelha, segredou-lhe: Quem não te conhecer que te compre!…
Por isso, já sabe!…

 

 

 

(muitas coisas sabe a raposa)