quem não te conhecer, que te compre!…

A frase e a sua acepção são bem conhecidas: refere alguém que parece ser quem, na realidade, não é. O que nunca é agradável quando se mostra, como sabemos. Bom seria, dito com a excelência shakespeareana ‘As pessoas deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são‘. São bastantes as formas e os modos (o melão que é melancia, a sardinha disfarçada de robalo, cavalo que afinal se denuncia quando zurra, e tantos mais) que a sabedoria popular encontrou para ilustrar esta rasca e prolifera criatura.
Para variar um pouco, preferi esta esta patusca historieta do nosso cancioneiro popular:
Conta uma velha história que, uma noite, estavam vários estudantes na conversa, junto à ponte de Coimbra, quando por lá passou um almocreve levando pelo cabresto o seu burro, carregado com avantajados alforges.
Um dos estudantes, na paródia, acercando-se do derreado animal, com um rápido golpe tirou-lhe o cabresto, enfiou-o na sua própria cabeça e lá foi seguindo o homem, que ia puxando por ele, sem se ter apercebido da troca.
Entretanto, os outros comparsas, apressaram-se a esconder o burro; o estudante encabrestado, avisado de que o burro já estava livre de ser visto, deixou de andar. Nesse instante, o pobre do homem, volta-se para castigar o animal e depara, assustado, com o rapaz encabrestado na vez do burro.

É então que o gaiteiro do estudante encena a malhoada combinada. Dá um grito de alegria, e diz ao atarantado almocreve: Meu senhor, não se admire vossa mercê do que os seus olhos estão vendo! A verdade é que sou um moço bem-nascido, mas por força de um encanto, que ando penando há muitos anos, tantos que já nem sei, conservo a figura de um asno como até há pouco me viu. Neste instante, e calha que nem sei bem porquê, quis Deus que o meu tormento se arrematasse; rogo-lhe, por isso, que deste caso guarde bom segredo, para que ninguém saiba que durante tanto tempo andei pelo mundo feito burro. E me perdoe, sem que minha seja culpa, o dinheiro que deu por mim e ainda também mais a falta que lhe faço!
O homem, no meio da admiração, respondeu-lhe, apesar de tudo, satisfeito: Ó meu jovem, não permita mais Nosso Senhor, pelas chagas do Calvário, que uma alma cristã sofra tão grandes ralações, e acredite, moço, até tenho bastante agrado em o ver livre de tão negro fado.
E, abraçando o estudante, abalou murmurando espantos e contas ao que lhe tinha sucedido. A rapaziada, não se contentando com a carga que o burro levava nos alforges, resolveu levar o burro à feira, para o vender, de modo a que assim aumentasse ainda mais o lucro da sua tratantada.
Mais tarde, andava o camponês pela feira com intento de mercar novo burro, quando repara em dois homens que negoceiam o seu antigo burro. Acerca-se deles e pergunta se o burro está para venda. Que sim senhor, até é um belo animal, mas já está apalavrado aqui para o compadre que lhe achou finura. O ingénuo almocreve, julgando que o estudante se havia convertido, novamente, em burro, pede licença ao arrieiro para, mesmo assim, lhe ver o cachaço. Esteja à vontade, confirme o compadre a belezura do asno.
E o nosso homem lá se chegou à cabeça do burro e, junto da orelha, segredou-lhe: Quem não te conhecer que te compre!…
Por isso, já sabe!…

 

 

 

(muitas coisas sabe a raposa)